sexta-feira, junho 21, 2024

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Encontros do Cinema Português: muitos projetos para pouco público – Notícias de cinema

A 9.ª edição da iniciativa, organizada pela NOS Audiovisuais com o apoio do Instituto de Cinema e Audiovisual, contou com debates e a apresentação de 47 novos filmes. O desinteresse dos espectadores pelo cinema português foi outra vez abordado.

A 9.ª edição dos Encontros do Cinema Português contou com a apresentação de 47 projetos e a participação de mais de 200 representantes da indústria, desde produtores, argumentistas, atores, incluindo os premiados Margarida Gil, Ivo Ferreira e Miguel Gomes, que há poucos dias recebera o prémio de melhor realização no Festival de Cannes pela longa-metragem “Grand Tour”.

No decorrer do evento que decorreu a 5 de julho nos Cinemas NOS Vasco da Gama, promovido pela NOS Audiovisuais com o apoio do ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual), foram apresentadas obras que fizeram o circuito de festivais e filmes inéditos com estreia prevista nas salas de cinema para os próximos meses.

A falta de oferta, a escassez de diversidade, o preço e a falta de promoção, foram as principais causas apontadas numa consulta a espectadores para a falta de notoriedade das produções realizadas no território nacional. Serviu de ponto de partida para o debate moderado pelo jornalista Vitor Moura, e que contou com a participação de José Fragoso (RTP), José Gandarez (produtor), Luís Chaby (ICA), Pandora da Cunha Telles (produtora), Susanna Barbato (NOS Audiovisuais) e Tânia Fragoso (NLC Cinema City/APEC).

Susanna Barbato, da NOS Audiovisuais, acha fundamental olhar para o público que vai ao cinema e mantém a ideia de que o baixo número de idas ao cinema se prende com as consequências do COVID-19: “a partir de 2020, verificamos uma transformação muito grande no perfil de pessoa que procura as salas de cinema. Antes da pandemia tínhamos um grande desafio, que era recuperar o público jovem, mas com esta transformação o público jovem voltou às salas, e o público mais velho ainda não. Os mais jovens voltaram e criaram o hábito de ir ao cinema o que é, sem dúvida, uma oportunidade”, diz a responsável por um dos maiores distribuidores em Portugal.

“Este segmento de público cresceu a ver blockbusters americanos, por isso temos outro desafio – atraí-los para o cinema português. A maior parte dos filmes portugueses infelizmente não são apelativos para os mais jovens. E é esta parte cultural que, no meu entender, também influencia o baixo número de espectadores que se deslocam ao cinema para ver produções nacionais”, acrescenta.

José Fragoso, diretor de programas da RTP, aponta o reduzido número de comédias produzidas em Portugal – um género com peso significativo no mercado nacional e internacional – e afirma que “há sinais de que a pandemia está a passar – há muitos projetos, há muita diversidade e um número muito significativo de produções. Olhando para os 47 projetos apresentados, poderíamos ter, em média, cerca de quatro produções nacionais a estrear em sala por mês. E, além deste sinal positivo, existem ainda muitos projetos que poderão ter a capacidade de atrair o público”. O executivo da empresa pública de rádio e televisão aponta igualmente a importância de “perguntar ao consumidor o que quer ver e depois produzir histórias que o público queira ver, e não apenas filmes para festivais”.

“Nós temos um mercado muito liberal quanto à oferta, na exibição e distribuição, e na forma como é apoiada a produção. Felizmente, neste momento, temos uma diversidade de apoios públicos que financiam a produção nacional e não têm nenhuma espécie de restrições relativamente ao conteúdo”, destaca Luís Chaby, presidente do ICA – Instituto de Cinema e Audiovisual.

“Temos, de facto, uma quota de mercado muito baixa. Seria benéfico se a conseguíssemos aumentar, o que aportaria, naturalmente, maior responsabilidade por parte das políticas públicas para garantir a oferta de filmes portugueses nas salas de cinema”, conclui.

Na perspetiva da produção, Pandora da Cunha Telles refere que “é preciso mais dinheiro para a produção e promoção dos filme” e dá o exemplo de outros países onde existem “uma série de políticas de investimento em cinema juvenil e para as famílias de forma a fomentar junto dos mais jovens o hábito de ir ao cinema”, a produtora da Ukbar Filmes aponta o caso da Suíça, “onde há incentivos não só para produtores, como também para realizadores que tenham feito filmes com mais espectadores. Em Portugal é necessário investimento público para este tipo de projetos. Apesar de haver um enorme esforço com o Programa Nacional de Cinema, confesso que não acho que a solução seja levar o cinema às escolas, mas sim as escolas ao cinema”.

Para o produtor José Gandarez, o cinema português tem poucos espectadores “porque temos tido políticas culturais erradas. Neste momento, achamos que o que deve ser prioritário na concessão de apoio aos filmes são os prémios, a presença em festivais, as nomeações e o currículo do realizador, em detrimento do potencial de bilheteira e já existem estudos que comprovam que o caminho deve ser exatamente o inverso”.

O aumento do tempo de exibição em sala também foi discutido. Para Tânia Fragoso, em representação da exibidora NLC Cinema City e da Associação Portuguesa de Empresas Cinematográficas (APEC), “o que faz um filme manter-se em sala são, sem sombra de dúvida, os espectadores”.

Sobre os apoios a exibidores para potencializar o período de exibição afirma que “não vai ser possível pedir o apoio para todas as salas de cinema e faz sentido utilizá-lo em salas específicas, com dinâmicas próprias. Nas restantes, o que poderá ditar o tempo de exibição é o conteúdo – precisamos criar conteúdo que o público queira ver no grande ecrã”.

A nova aposta dos Cinemas NOS em salas dedicadas exclusivamente ao cinema português, em Lisboa, no Porto, e em Coimbra, também foi referida ao longo do debate. O maior exibidor do mercado português crê que pode ser um “instrumento para a valorização da indústria cinematográfica nacional junto dos espectadores”.

Nesta edição dos Encontros do Cinema Português foram analisados os números relativos ao mercado do cinema em território nacional.

Para 2024, há uma estimativa de crescimento na ordem dos 8% em receita bruta e cerca de 6% no número de espectadores. No entanto, até final de maio, o mercado seguia em tendência negativa quando comparado com os resultados do ano anterior.

Em 2023 chegaram mais de 45 filmes com produção portuguesa às salas de cinema. “Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó”, do realizador Manuel Pureza, foi o mais visto do ano com perto de 700 mil euros em receita bruta de bilheteira.

A quota de mercado do cinema português no ano passado foi de apenas 2,7% em termos de espectadores e 2,1% em receita, a mais baixa dos últimos cinco anos. Quando comparada com outros países europeus é a terceira quota de mercado de cinema local mais baixa.



FONTE: https://filmspot.pt/

PEDRO SILVA
PEDRO SILVA
SÓCIO GERENTE DO JORNAL ACONTECEU.

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