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“Comecei a trabalhar em uma empresa há pouco tempo. Na entrevista de emprego, o RH me explicou como a companhia funcionava mas, assim que entrei, percebi que havia uma discrepância enorme entre o que foi dito e a realidade da empresa. Também notei que há muita hostilidade e ingratidão no ambiente de trabalho, a ponto de eu ter ouvido pelas costas que não faço nada, sendo que tenho realizado sozinho tarefas que deveriam ser feitas por três pessoas. O que posso fazer nessa situação?” Assistente, 24 anos
Temos diante de nós uma das situações mais clássicas no mercado de trabalho: o hiato entre o que foi “vendido” e o que foi entregue após assinarmos os documentos admissionais.
Quem já não passou pela situação de escolher fazer uma transição de empresa e se deparar com um contexto igual ou pior de onde estava? O famoso “trocar seis por meia dúzia”?
Eu mesma fiz isso (algumas vezes) no início da minha carreira, e essa pergunta me fez refletir e analisar o que me movia a sair de determinadas situações, e o que mudou ao longo do tempo que contribuiu para eu ser agente de mudança, sem a necessidade de sair das empresas.
Passamos por um labirinto interno que faz com que nos percamos no nosso próprio caminho, o que inclui:
Quando estamos em um momento de muita pressão e desconforto, queremos fugir. A parte mais primitiva do nosso cérebro está programada desde os nossos ancestrais pré-históricos à condição de luta ou fuga. Dentro de uma condição trabalhista, nossa tendência não é lutar, por questões óbvias.
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Então, nosso cérebro cria uma fantasia de que a próxima estadia será cinco estrelas, afinal de contas, qualquer lugar é melhor do que onde estamos em sofrimento. Aqui, instauramos uma cilada para nós mesmos.
Como o objetivo máximo é sair da atual empresa, pontos cruciais para a sustentabilidade do próximo trabalho são colocados em um plano de fundo. E a avaliação passa a ser somente da contratante.
Mais uma vez, a pessoa se deixa ser colocada em uma posição passiva por querer se livrar do incômodo o mais rápido possível.
A idealização é muito comum na fase infantil da vida, onde se acredita que haverá um salvador que te libertará da torre do malfeitor do RH que te contou mentiras sobre a empresa atual.
Não vou cometer o erro de dizer que todos os profissionais de RH são 100% transparentes nos processos seletivos que conduzem. Sabemos que as áreas de RH têm muita pressão para cumprir metas, competição forte para contratar profissionais de alto nível de performance – escassos – e uma geração buscando posições 100% remotas. Equilibrar esses pratos e outros não citados não é fácil.
Justamente por isso que, ao aplicar para uma posição, você precisa levar de forma estruturada todas as perguntas que julga importante fazer sobre a empresa, e não só se preparar para responder as perguntas que o RH fará.
Se você vai com o modo ‘”sobrevivência'” acionado, estará correndo o risco de, dentro de seis meses, estar insatisfeito e repetindo o padrão da busca da empresa perfeita. E se sentirá enganado pelo RH que cumpriu com o seu papel de investigar se você era um bom candidato para a próxima fase do processo seletivo.
Quando você escolhe não escolher, sua escolha já está feita. Aceitar o que te é ofertado é responsabilidade sua.
Assuma o controle da sua vida
A fase adulta exige mais da gente! É um passo bem importante entender o quanto do caos que estamos vivendo é responsabilidade nossa. Perguntas e respostas honestas são cruciais para a tomada de consciência.
Se pergunte: o que me motivou a vir trabalhar nessa empresa? Fiz todas as perguntas que deveria ter feito na entrevista? Quais são as pessoas dentro da organização que podem me ajudar com essa situação? Estou sendo honesto (a) com meu gestor sobre o clima organizacional e condições de trabalho? Por que quero sair antes de tentar mudar as coisas que me desagradam aqui? Quais comportamentos posso aderir para transformar o meu entorno?
Depois de ter respondido honestamente essas e outras perguntas que façam sentido para você, construa um mapa mental para conseguir identificar comportamentos padrões que você apresenta em situação de desconforto. Assim, você terá a oportunidade de fazer diferente. Como? Se perguntando!
Por exemplo, se todas as vezes que você tem um percalço no seu trabalho o seu comportamento é sair da empresa e, ao sair, você se depara com ambientes iguais ou piores, se pergunte: o que eu não fiz das outras vezes que posso fazer agora? Algumas possibilidades são:
- Buscar a área de RH para relatar o que está acontecendo e pedir auxílio;
- Agendar um 1:1 com o seu gestor e mostrar com dados o volume de trabalho x horas semanais para ajudá-lo a perceber que precisa aumentar o time;
- Provocar uma conversa transparente com as pessoas que você soube que estão falando de você e esclarecer os fatos com ética e profissionalismo.
Se mesmo depois de todos esses movimentos você entender que é insustentável continuar nessa empresa, saia! Porém, se planeje.
Mapeie as empresas que você acredita ter valores parecidos com os seus. Converse com pessoas dessas empresas para entender sob a perspectivas desses colaboradores como é estar lá.
Vá para a entrevista preparado para as perguntas do RH, mas tenha as suas perguntas formuladas. Pondere tudo! Desde pacote de remuneração até como tratam os prestadores de serviço. Cerque-se de algumas informações e esteja consciente de que a responsabilidade da escolha é sua.
Daniele Jesus é psicóloga, ativista, criadora do Currículo Oculto e apaixonada por cultura, gestão de pessoas, diversidade, equidade e inclusão.
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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.







