Liderar é mais do que gerir um time | Carreira

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A cada início de ano, aproveitamos o período para fazer um exercício reflexivo, em que nos comprometemos com as tradicionais resoluções de ano novo. Refletimos sobre quais visões, comportamentos e atitudes não nos servem mais e podem ser abandonados, e quais novas perspectivas e formas de atuações valem a pena serem abraçadas. Neste período reflexivo em que revisitamos nossas perspectivas, te convido a refletir sobre como você vem pensando a natureza e essência da sua liderança.

Há um entendimento já bastante claro que liderar é um exercício de influência. O que é menos óbvio é pensar de forma ampla e expandida a quem se direciona esta influência. O usual é enquadrar esta influência de forma top down, descendente, focando nas pessoas que se lidera. Assim, quando pensamos em liderança, pensamos em gestão de time. Esta conexão é natural e faz sentido, visto que a entrega do gestor depende fundamentalmente da capacidade de seu time desempenhar bem.

Não é à toa, portanto, que líderes direcionam atenção, energia e tempo para a dinâmica do time. Ao olhar para dentro, o papel central é pensar quais metas estabelecer para a equipe. Estruturar projetos e alocar atividades para seus membros. Acompanhar, avaliar e reconhecer a performance do time, bem como manter um clima positivo e colaborativo dentro dele.

Ainda que este olhar para dentro do time seja importante e parte fundamental da liderança, olhar para fora, buscando estender sua influência para além das fronteiras do time, é tão essencial quanto. Ao direcionar atenção excessiva para atender às inúmeras demandas do time que se lidera, corre-se o risco de ficar míope sobre a necessidade de investir e desenvolver relacionamentos de alta qualidade com pares e especialmente com chefes.

Há algumas razões que ajudam a explicar porque exercer esta influência lateral e para cima é, muitas vezes, negligenciado. Primeiro, porque ela é mais difícil. Diferentemente da influência sobre o time, que é facilitada pela autoridade que o cargo lhe confere perante seus subordinados, gerenciar relacionamentos laterais e com superiores exige influência sem linha de autoridade. Isso demanda habilidade política, o que nem todos têm bem desenvolvida.

Colunista sugere refletir até que ponto você não está focando atenção excessiva para dentro do seu time e negligenciando a influência lateral e para cima que precisa ser proativamente exercida — Foto: Freepik
Colunista sugere refletir até que ponto você não está focando atenção excessiva para dentro do seu time e negligenciando a influência lateral e para cima que precisa ser proativamente exercida — Foto: Freepik

Por exemplo, a astúcia social e a influência interpessoal para interpretar interesses e intenções alheios, e ajustar e calibrar nossas próprias ações, buscando coalizões com aliados e neutralizando ameaças de opositores, são competências subdesenvolvidas em inúmeros gestores.

Outra razão para negligenciar esta influência para além do time é que sua relevância é menos saliente. A necessidade de coordenar e integrar esforços do time para garantir seu bom desempenho é óbvia. Como bem sabemos, o que diferencia um grupo de pessoas de um time é exatamente a sinergia entre seus membros, tornando o todo maior que a soma das suas partes.

Menos óbvio, porém, é reconhecer o grau que as interdependências e influências externas ao time impactam sua performance. No limite, boa parte do que um time pode alcançar depende da capacidade de seu líder de exercer influência lateral e para cima, de modo a captar e direcionar recursos valiosos para o time, sejam eles recursos financeiros, humanos, físicos ou informacionais. De forma similar, cooptar apoio ou vencer resistências vindas de outros grupos de interesse, para permitir que a agenda e objetivos de um time avancem, depende do raio de influência de seu líder junto a outros atores organizacionais poderosos.

Há ainda outras externalidades positivas resultantes deste esforço. Ao exercer esta influência externa de forma bem-sucedida, ganha-se também credibilidade junto ao seu time, que passa a confiar mais na sua capacidade de remover obstáculos e comprar batalhas por e para eles. Mais que isso, há o exemplo que se dá ao time sobre a importância de olhar para fora do grupo e atuar lateralmente junto a outras equipes.

Herminia Ibarra, da London Business School, faz uma provocação interessante sobre a importância de redesenhar o papel da liderança para incluir este olhar externo. Ela argumenta que líderes normalmente exercem com mais facilidade o papel de hub, atuando como um ponto central para o qual todas as demandas do time convergem. Ao invés de se concentrar neste papel interno, porém, ela sugere que líderes deveriam prestar mais atenção a um potencial papel de ponte – uma ponte que conecta o time e o ambiente organizacional para além dele –, orquestrando as interfaces do time com outros agentes externos e buscando oportunidades e ameaças que estes pontos de contato podem trazer.

Assim, independentemente da posição de liderança que você ocupa, seja ela mais ou menos sênior, com times maiores ou menores, o importante é refletir até que ponto você não está focando atenção excessiva para dentro do seu time e negligenciando a influência lateral e para cima que precisa ser proativamente exercida. Quando isso acontece, corre-se o risco de involuntariamente se limitar a uma perspectiva muito insular e se desconectar dos rumos e direção mais amplos da organização. Mais que isso, várias oportunidades de exercer influência mais ampla e pautar agendas são perdidas.

Assim, neste início de ano, refletir sobre como expandir proativamente sua zona de influência para além do time pode ser uma promissora resolução de ano novo

FONTE: GLOBO.COM