O Santander é o maior patrocinador da La Liga. Se o banco cancelasse o patrocínio à competição, mandaria uma mensagem nítida aos racistas e à própria liga espanhola que finge não ver o óbvio.
O óbvio é que o racismo tem sido uma mancha na alma do futebol por gerações, particularmente na Europa. Cenas abjetas como a vista domingo contra Vini Jr. no jogo entre Real Madrid e Valencia não são um caso isolado.
Infelizmente, resolver o racismo no futebol levará muitas décadas. Mas é uma ilusão imaginar que isso vai acontecer de maneira espontânea. É preciso haver incentivos. E no futebol, ainda não se inventou um incentivo tão efetivo quanto o dinheiro. Se clubes e dirigentes sentirem o problema no bolso, a solução virá mais rápido.
Por exemplo, a The Walt Disney Company, dona da ESPN, transmite os jogos do campeonato espanhol. Se suspendesse as transmissões, deixaria claro que não dá palco para racistas e os patrocinadores iriam odiar a notícia.
A Puma também é patrocinadora, se rompesse com a La Liga, deixaria evidente que racistas não são acolhidos pela marca com seus uniformes e artigos esportivos.
A Microsoft é outra parceira da La Liga, mas não deveria ser. Não se de fato se importa com a questão racial como afirma por meio de sua Iniciativa de Equidade Racial.
Todas essas empresas gastam milhões para dizerem que são socialmente responsáveis, mas na hora mais básica e óbvia, quando um estádio inteiro entoa cantos racistas, limitam-se a dizer em comunicados enfadonhos que são contra o racismo.
Vou usar alguns jargões corporativos para ver se a mensagem chega aos engravatados do andar de cima: “Put your money where your mouth is” e “walk the talk”.
Senhores CEOs patrocinadores da La Liga, cancelem os contratos de patrocínio, simples assim. A falta de dinheiro fará os dirigentes espanhóis rapidamente tomarem providências.
Mas infelizmente, essas empresas que tanto propagam em suas campanhas de marketing e nos longos relatórios de sustentabilidade que estão comprometidas em melhorar o mundo, precisam não apenas colocar o dinheiro naquilo que acreditam, mas principalmente, tirar os recursos daquilo que dizem ser contrárias.
Obviamente, todas as empresas se dizem oponentes do racismo. Porém, fingem ignorar o fato de que sustentam a continuidade de um campeonato que se tornou uma vergonha mundial.
O que o Santander, a EA, a Puma e demais marcas fazem ao não tomarem medidas duras é mostrar que os lucros ainda vêm antes da ética. Representam o capitalismo em sua pior forma.
Não será uma surpresa se a pressão pública se tornar tão grande que algumas empresas cancelem os patrocínios. Porém, a cada minuto que isso não acontece, fica mais claro que impera a lógica do “vamos ver se o problema fica grande, e se ficar insustentável, tomamos a medida decisiva de cortar o patrocínio”.
O escândalo do futebol espanhol mostra que a ideia do “vai que cola” ainda domina grandes corporações como Santander, EA e Puma. Vamos ficar indignados, desde que não impacte nossos resultados.
O problema é que aos poucos a credibilidade destas marcas vai sendo corroída. Quando os patrocinadores da La Liga seguem bancando o show de horrores para não contrariar torcedores racistas, minam seus negócios no longo prazo.
Enquanto a Puma apoia a La Liga, a Nike se posicionou com sua campanha de Kaepernick em setembro de 2018, quando o Nike ‘Just do it’ se tornou ‘For Once, Don’t Do It …’ e uma sequência de palavras brancas na tela preta encorajava os espectadores a se posicionarem contra o racismo na América.
Não faltaram críticas à Nike na época, mas não é segredo que uma campanha moralmente superior como a da Nike supera um patrocínio eticamente questionável como o da Puma.
De janeiro de 2020 a março de 2022, as 200 maiores empresas públicas dos EUA anunciaram planos de investir US$ 50 bilhões em diversos fornecedores – empresas pertencentes a minorias, mulheres, veteranos, indivíduos LGBTQ ou pessoas com deficiência – até 2030, segundo uma análise da McKinsey.
Não há dúvidas que o mundo corporativo realizou grandes progressos neste segmento. O quanto disso é desejo real de avanço ou mero marketing é difícil mensurar. Porém, momentos como o vivido na Espanha separam o discurso da prática.
Da mesma maneira que o futebol revela o melhor da natureza humana, também pode revelar o pior, inclusive do mundo corporativo. Empresas compactuam com o racismo porque ainda veem seus negócios apenas em curto prazo.







