A diversidade no entretenimento, na política partidária e nas universidades é um caminho sem volta, mas a interpretação equivocada da ideia de representatividade pode ser uma armadilha para os negros, indígenas, LGBTQIA+ e outros grupos minorizados. A discussão foi levantada no primeiro dia do Festival LED – Luz na Educação, que acontece hoje e amanhã no Rio de Janeiro.
O ator e diretor Lázaro Ramos, autor do livro “Na minha pele”, disse que uma das faces do racismo é jogar potências fora. Ele contou que, durante muito tempo, não sabia que o mundo não via a potência do povo negro e das religiões de matriz africana, como o candomblé.
Depois, disse, compreendeu que atentar o público para essas potências é “uma missão do nosso tempo” que permeia as suas escolhas profissionais na TV. Para o artista, essa potência começou a ser reconhecida e esse é um caminho sem volta.
“É a recuperação do espaço de uma população que disse assim ‘vou tomar esse espaço. Vou invadir seja como for’. E isso está acontecendo nas universidades, na política partidária e no entretenimento. E isso é um entretenimento de qualidade, todo o público ganha. Eu acho que é um movimento que não tem mais volta”, disse.
Lázaro Ramos — Foto: Luciana Whitaker/Valor
Lázaro Ramos foi um dos convidados do painel “Trajetórias ancestrais: como o passado pode guiar futuros plurais”. Na mesma palestra, a escritora Ana Maria Gonçalves, autora do livro “Um defeito de cor”, fez uma reflexão sobre como a ideia de representatividade pode ser uma armadilha. Ela destacou que os negros, por exemplo, são diversos e que cada indivíduo deve ter a oportunidade de poder falar sobre suas próprias experiências.
“A questão da representatividade pode ser uma grande armadilha. Porque acaba sendo sempre os mesmos e nós somos diversos. Eu não posso estar aqui representando a diversidade das pessoas do movimento negro. Assim como a gente não vê um branco representando todos os brancos, a gente tem que pensar isso para os negros, indígenas, LGBTQ. O meu papel é abrir espaço para que mais pessoas estejam lá falando por si”, disse.
A escritora também lembrou que a discussão sobre o racismo é recente e que durante muitos anos se silenciou uma ancestralidade cuja vivência foi marcada pelo racismo. “A palavra racismo só foi colocada em dicionários no Brasil em 1982. Antes, não existia”, observou.
Os participantes destacaram a importância da educação, das escolas e dos professores para transformação da sociedade. Para eles, o conceito de ancestralidade tem relação com a importância de se olhar para o passado para compreender e melhorar o futuro.
Educador por formação, o professor, escritor e autor Daniel Munduruku afirmou que usa todas as ferramentas possíveis para educar o olhar externo sobre os povos indígenas. Ele está no ar na novela “Terra e Paixão”, da TV Globo, e disse que o trabalho faz parte desse exercício.
“Na novela da Globo eu sou exatamente o Daniel. Representa o meu papel, mas educa também as pessoas para sair de uma visão estereotipada, equivocada e mostrar que povos indígenas trazem consigo uma sabedoria muito antiga que não começa em mim”, disse.
O Festival Led – Luz na Educação acontece entre os dias 16 e 17 de junho no Museu do Amanhã e no MAR, no Rio de Janeiro. O evento é realizado pela Globo e Fundação Roberto Marinho em parceria com a plataforma Educação 360 – Conferência Internacional de Educação, da Editora Globo.







