Texto com deboche: quando rir é o pior veneno | Isabel Clemente

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Há alguns dias, trecho de um vídeo viralizou na internet. Nele, o professor da UnB, José Geraldo, convidado a participar da CPI do MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), comentou algo que fez a deputada Caroline De Toni (PL-SC) sentir-se ofendida. “A sua percepção do mundo só lhe permite enxergar o que a senhora já tem escrito na sua cognição. A senhora vai ver, não o que existe, mas o que a senhora recorta da realidade.”

O que se viu nas redes sociais foi um prazer generalizado diante da “humilhação da deputada”. Um banho. Lacrou. Vergonha alheia. Kkkkkk. Muito bem, professor. A fala dele foi percebida por muitas pessoas como “esculacho”, um deboche “acadêmico” e “merecido”.

Dias depois, José Geraldo, um estudioso com longa carreira dedicada à defesa da educação e da cidadania – e que foi à CPI explicar a importância dos movimentos sociais para a democracia –, divulgou uma carta explicando que não teve a intenção de ofender a parlamentar. Se escutarmos de novo a fala inteira do professor durante a CPI, chegaremos ao ponto que interessa: “a senhora vê uma coisa e eu vejo outra coisa. É esse o debate que está aqui.”

Eu tenho uma notícia ruim para dividir: isso que José Geraldo disse à Caroline se aplica a todo mundo, a mim, a você, e a ele, como o próprio admitiu (“Eu vejo outra coisa”). Ok, em maior ou menor grau.

No livro “Factfullness” (editado no Brasil também), os autores explicam por que é tão comum distorcermos até o que está diante de nossos olhos. A culpa é do funcionamento do nosso cérebro e das defesas criadas para garantir nossa sobrevivência no planeta desde as cavernas. Segundo os autores, entre os fatores que interferem na nossa visão da realidade estão a negatividade, o medo, a urgência, generalizações, fatalismo, culpa. Tudo isso nos ajuda a entender não só nossa tendência ao exagero, mas também a falta de conhecimento prévio que nos impede de enxergar aquilo que não queremos ver.

— Foto: Foto de Surface na Unsplash

Sem julgar aqui a razoabilidade das perspectivas envolvidas no debate da CPI do MST, muito menos o mérito de indivíduos que entendem mais ou menos sobre um certo tema, é a repercussão do vídeo que me interessa. Diz muito sobre a comunicação destes tempos turbulentos. O deboche está solto. Garante audiência, aplausos, mas talvez seja o pior dos venenos para uma sociedade tão fragmentada.

O estudo da filosofia do humor engloba algumas teorias para explicar o riso. Uma delas trata o riso como demonstração de superioridade, uma ideia que prevaleceu na cultura ocidental por mais de dois mil anos. Em poucas palavras, é o riso que ri da ignorância alheia. Vários filósofos se debruçaram sobre isso. Descartes, por exemplo, via dessa forma:

“A zombaria ou o desprezo é uma espécie de alegria misturada com ódio, que se origina do fato de percebermos algum pequeno mal em uma pessoa que consideramos merecedora dele; temos ódio desse mal, temos alegria em vê-lo em quem o merece; e quando isso nos atinge inesperadamente, a surpresa do espanto provoca nossa gargalhada.”

Se quiser se aprofundar, recomendo consultar o site da Stanford Encyclopedia of Philosophy.

Tirei de lá (e traduzi) a frase de Descartes e uma observação de um defensor contemporâneo da teoria da superioridade, o filósofo britânico Roger Scruton, especialista em filosofia política. Scruton observa que, “se as pessoas não gostam que riam delas, certamente é porque o riso desvaloriza seu objeto aos olhos do sujeito”. É uma releitura sofisticada do adágio que alguém nos ensinou: não faça a outros o que não gostaria que fizessem contigo. Ou não ofenda com seu texto quem você gostaria de convencer.

Se curtimos e repercutimos conteúdos que preenchem essa necessidade psicológica de destilar ódio e frustração, se passamos adiante o texto que lacra e atribuímos hostilidade até a cenas que não pretendiam ser bem isso, como esperar que as pessoas saiam de sua bolha quando são humilhadas pela “bolha adversária”?

Um estudo de 2018 resolveu testar a lógica reversa dos algoritmos das redes sociais. E se, em vez de nos prenderem em câmaras de ressonância onde só recebemos conteúdos que reforçam nossas preferências (e crenças, e preconceitos…), os algoritmos nos alimentarem com opiniões contrárias? A experiência aconteceu no Twitter, com um grupo de democratas seguindo e lendo conteúdo de um perfil falso republicano e um grupo de republicanos seguindo um perfil falso democrata. Os dois grupos saíram do experimento mais convictos de suas crenças, ou seja, mais conservadores e mais liberais. Pois é. Sair da bolha dessa forma acentuou diferenças e a radicalização política. Os autores alertam que o estudo tem limitações. Como qualquer estudo de campo, aliás. Desconheço como esses conteúdos políticos foram trabalhados. Mas o resultado faz a gente se questionar sobre certas estratégias que vêm dominando o debate público no Brasil.

Um embate intelectual pode ser uma experiência entusiasmante. É admirável quando uma pessoa consegue sacar argumentos fortes, organizá-los com lógica e ainda apresentá-los impecavelmente num discurso sem falhas no frigir de uma discussão. Palavras certas na hora certa são dignas de admiração. Críticas elegantes também. Ainda que desagradem o alvo. Em seu manual de estilo, a revista inglesa The Economist alerta contra a arrogância, e dá um conselho simples que, acrescento, vale para a escrita de reportagens, artigos de opinião ou acadêmicos, ensaios. “Aqueles que discordam de você não são necessariamente estúpidos ou loucos. Ninguém precisa ser descrito como um idiota, deixe que a sua análise mostre que ele é.”

Somos uma sociedade dividida. Muitos de nós perderam amigos. Afastaram-se de familiares. Deixaram de seguir gente antes admirada. Ou decidiram evitar tantos assuntos que não restou muito a não ser silêncios obsequiosos nos encontros. Sem querer, reforçamos o “nós contra eles”, a lógica da sociedade partida.

Com a classe e a sutileza que lhe são características, o psicólogo norte-americano Steven Pinker comentou, certa vez, em um episódio do podcast que produziu por um tempo, o seguinte: “Dizem que há dois tipos de pessoas no mundo, aquelas que dividem o mundo em dois tipos e aquelas que não fazem isso.”

Eu ri. Ri porque concordei com a frase. Ri porque me acreditei parte do segundo grupo. E ri mais ainda ao me dar conta de que meu riso me devolvia ao primeiro grupo. Somos, portanto, um grupo só de pessoas marcadas por incoerências.

Gosto desse riso cheio de camadas. É um riso mais vulnerável e mais ético, capaz de restabelecer pontes com quem se afastou porque faltou respeito, e sobrou prepotência.

Isso é só uma hipótese. Mas, se temos evidências sobre nossa limitação cognitiva, se não queremos ninguém rindo da nossa cara e se concordamos que uma sociedade dividida ameaça a democracia, não custa resgatar a sabedoria grafitada pelo profeta. Gentileza gera gentileza.

FONTE: GLOBO.COM