Serviços para pessoas com autismo fazem a diferença em Juiz de Fora

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Em abril, mês de conscientização do autismo no Brasil, dois serviços especializados em Juiz de Fora comprovam a importância de voltar o olhar para esse público e de celebrar a data. O ambulatório criado pela Agência de Cooperação Intermunicipal em Saúde Pé da Serra (Acispes) oferece, desde o ano passado, atendimento gratuito que vem se tornando referência na região. Além disso, as empresas privadas também estão buscando se especializar para atender esse público, como é o caso da Estação dos Barbeiros, que se capacitou nessa vertente em 2019 e apresenta o diferencial de oferecer cortes de cabelo especialmente para os autistas. No entanto, serviços especializados para essa população ainda são escassos na cidade.

O neurologista Washington Pimenta explicou que o autismo ou transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento que traz características bem atípicas seja no comportamento, na maneira de se comunicar ou na interação social. Além disso, define alguns padrões de comportamento, estereotipados e repetitivos, além de provocar restrições nas atividades e nos interesses. Conforme o neurologista, é comum a pessoa apresentar gosto muito específico para determinadas coisas, por exemplo, para comer alguma comida, para percorrer um caminho, para ouvir apenas um tipo de música ou o interesse por determinado assunto, “que o autista vai estudar até esgotar”, esclareceu o médico.

Há algumas décadas, pouco se falava sobre o autismo. Em 2007, a Organizações das Nações Unidas instituiu o mês de abril para conscientizar sobre o assunto, simbolizado com a cor azul. Além do mês voltado ao autismo, muitos famosos têm falado sobre como é ser autista. Além disso, produções audiovisuais têm dado visibilidade ao assunto, como o seriado “Atypical”, da plataforma de streaming Netflix.

Ambulatório com neuropediatria

Em junho de 2021, surgiu o Ambulatório para Autistas na Acispes, que atende a microrregião de Juiz de Fora, sempre às segundas, terças e quartas. O projeto foi criado mediante a constatação de demanda crescente e dificuldade de acesso a atendimento especializado gratuito.

No primeiro momento, o ambulatório busca diagnosticar o autismo e indicar tratamento medicamentoso, visando a otimizar a interação social. Além do tratamento neuropediátrico, existe toda uma equipe multidisciplinar para dar um apoio a esse paciente, como terapeuta funcional, fonoaudiólogo, psicólogo e fisioterapeuta.

Segundo o médico Washington Pimenta, são atendidos cerca de 45 pacientes por semana, sempre com retorno. “Nós estamos tendo uma resposta muito positiva, pois os pacientes estão alcançando uma melhora clínica, que nós e a família percebemos claramente”.

Ana Paula Silva, avó de Sophia, 5 anos, que foi diagnosticada com autismo há três anos no ambulatório, já conseguiu perceber um grande avanço na neta. “Hoje a Sophia já está falando, expressa sentimentos, dá abraço e entende a diferença do que pode e o que não pode fazer.” Inicialmente, Ana Paula ficou com muito medo do autismo, mas agora reconhece que as orientações do médico e o estímulo multidisciplinar ajudam Sophia a se desenvolver cada dia mais.

Trocas de experiências e afetos

Ariene Menezes recebeu o diagnóstico de seu primeiro filho, Chryslander, 12, quando ele completou dois anos e meio. A mãe, no entanto, afirma que, desde o primeiro ano de vida, já sabia. Então, ela sempre buscou outros pais de crianças autistas para ter uma rede de acolhimento. Em 2015, criou o Grupo de Apoio a Profissionais e Pais de Pessoas com Autismo (Gappa) para trocar experiências. As atividades são divulgadas pelas redes sociais e qualquer pessoa interessada pode participar.

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Além de ser mãe de Chrys, que é autista moderado, grau dois, Ariene também é mãe de Khyara, 4, de “alto funcionamento”, como define, grau um. “Eu já passei por muitas situações com o meu filho, o Chrys, como cortar o cabelo. Ele já nasceu com uma sensibilidade muito grande na cabeça. Era só molhar a cabecinha dele que ele já começava a chorar, inclusive eu achava que estava fazendo algo errado. Com o passar do tempo, percebi que era algo que ele não gostava e é assim até hoje, aos 12 anos. Com o passar dos anos, fomos criando táticas, como contar de 1 a 50. Já cortar o cabelo ninguém conseguia, pois as pessoas não tinham paciência, inclusive muitos sugeriram até contenção, mas eu nunca deixei, pois aquilo tornaria aquele momento ainda mais traumático”, conta Ariene, que passou a cortar o cabelo do filho.

Recentemente, Chrys passou a ser cliente do Estação dos Barbeiros, parceiro do Gappa.

Clientela cativa

A Estação dos Barbeiros está em operação há dez anos em Juiz de Fora. A ideia da especialização ocorreu em 2019, quando a equipe fez uma ação social no Dias das Mães, oferecendo serviços para mulheres do Grupo de Apoio a Profissionais e Pais de Pessoas com Autismo.

Enquanto realizavam cortes e escovas nas mães, os profissionais ouviram os depoimentos delas, sobre a dificuldade de encontrar um lugar especializado no atendimento a seus filhos. A partir desse evento, Thamires Toledo, proprietária do salão juntamente com Maycon da Silva, contou que eles procuraram se especializar para atender esse público. “Conversamos com alguns profissionais da área da saúde mental, para conhecer mais sobre o autismo. Também procuramos o Caps I, que atende crianças com transtornos, principalmente espectro autista e síndrome de down. Além disso, fizemos alguns cursos on-line, nos quais obtivemos certificações. Para além disso tudo, o que nos ajudou realmente a entender o autismo foi a conversa que tivemos com dezenas de pais, para que pudéssemos compreender o que de fato eles precisavam.”

Entre os diferenciais, está o uso de uma máquina adaptada, livre de ruído, devido à hipersensibilidade que os autistas normalmente têm. “Às vezes, o corte inicia na cadeira de carrinho, passa pelo parquinho, videogame e acaba no lavatório. Nós nos adaptamos ao humor de cada criança e adolescente. Ou seja, é tudo personalizado de acordo com suas necessidades”. O salão conta com mais de 30 clientes autistas cadastrados.

Sheila Marques, mãe de Gabriel, 13, e também integrante do Gappa, procurou a Estação dos Barbeiros para que seu filho cortasse o cabelo em um ambiente especializado. “Eu adorei o atendimento e a postura dos profissionais, pois não adianta apenas ser atencioso e não saber lidar com pessoas com TEA. Então, faz toda diferença quando o cabeleireiro é capacitado. O meu filho também gostou muito. Por isso, a capacitação deveria fazer parte de todos os prestadores de serviço e escolas.”

O jovem Gabriel, rodeado pelos profissionais da Estação dos Barbeiros, felizes com o resultado, após mais um corte de cabelo (Foto: Divulgação)

Desafios persistem

Na visão do médico Washington Pimenta, o preconceito ainda é um desafio a ser superado. “O nosso maior desafio com o paciente autista é o preconceito associado ao diagnóstico. Muitas mães e pais não aceitam e não querem dar o medicamento por ser controlado. Quando a criança começa a ser bem medicada, os resultados são positivos.”

Já a presidente do Gappa, Ariene Menezes, avalia que o atendimento humanizado voltado para autistas ainda é escasso na cidade. “Faltam lugares que olhem as crianças com carinho e paciência. Até para tranquilizar os pais mesmo, pois a forma como alguns profissionais olham para os pais, já faz com que fiquemos apreensivos. “Além disso, segundo ela, faltam políticas públicas na cidade, seja na área de educação, saúde ou cultura para os autistas.



FONTE: TRIBUNA DE MINAS