Moradores do entorno do Allianz Parque, na zona oeste da capital paulista, decidiram se juntar e protestar contra um projeto de lei que autoriza o aumento do limite de ruído na região onde está o estádio. Eles criticam o texto que tramita na Câmara de São Paulo e que prevê autorizar o aumento do barulho permitido — dos atuais 55 para 85 decibéis. Segundo os moradores, o ruído já é bastante “incômodo”, e limites mais altos prejudicarão quem mora nas proximidades.
Pelo menos 31 associações se juntaram contra a iniciativa, sendo 12 das proximidades do estádio. Elas assinaram uma nota de repúdio endereçada aos vereadores e planejam fazer novas manifestações. Entre as assinaturas está a dos Moradores das Ruas do Entorno da Arena Allianz Parque, Amesp (Associação dos Moradores e Empresários do Sumaré, Perdizes, Pompéia e Barra Funda) e o Movimento de Moradores da Água Branca.
“Liberar para 85 decibéis é uma punhalada. É um barulho meio ensurdecedor, incomoda muito os ouvidos. Chega a tremer o apartamento e as janelas. É preocupante”, diz Ademir Donizete Fabrício, que mora há 20 anos ao lado do Allianz. Ele conta que se mudou para a região quando o estádio ainda era chamado Parque Antarctica para poder assistir com mais facilidade aos jogos do Palmeiras.
Antes da reforma, de acordo com ele, “algumas vezes aconteciam alguns shows, mas de menor porte, e o estádio era aberto. Até 2010, ano em que começou a reforma, tinha poucos shows, então não incomodava. Mas, agora, tem ocorrido constantemente”, relata.
O barulho e as constantes queixas dos moradores renderam multas ao Allianz Parque. Em abril, a arena foi notificada para ser fechada após receber sua terceira multa por ruído acima do permitido. Na ocasião, a banda Maroon 5 fazia um show. De acordo com a lei municipal do PSIU (Programa de Silêncio Urbano), após três multas, o fechamento é permitido.
Projeto
No dia 5 de abril, mesmo dia da notificação, o líder da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na Câmara de São Paulo, o vereador Fábio Riva (PSDB), apresentou em caráter de urgência um projeto de lei que altera os limites de ruído de áreas classificadas na legislação municipal como ZOE (Zona de Ocupação Especial). São áreas que exigem regras específicas, como o entorno de aeroportos, áreas de lazer etc. É como estão classificados os entornos dos estádios Allianz Parque e do Morumbi, na zona sul — também constante palco de shows. –
Na legislação atual, os limites de ruído de uma ZOE, até as 23h, é de 55 decibéis. O texto apresentado pelo Executivo prevê o aumento para 85 decibéis, o que revolta os moradores.
A moradora Jupira Cauhy, também vizinha do estádio, diz que os moradores escutam dentro de casa o ruído, som alto e vibração, durante a passagem de som e durante a realização do show. E muitas vezes, o ruído das filas do público na rua.
“É bastante incômodo. Há shows que duram cerca de 4, 5 horas, e, às vezes, acontece mais de um por semana”, relata a moradora. Em abril, grandes shows foram realizados em todos os finais de semana”, afirma a moradora, que integra um movimento de vizinhos do estádio.
Relatório sobre barulho no IPT
A Arena é um estádio de futebol multifunções, inaugurado em 2014 e construído num bairro residencial. O estádio não conta com isolamento acústico, e o som alto dos shows se propaga pelas ruas próximas.
Em 2017, a pedido do Ministério Público, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo) realizou uma avaliação do ruído produzido por shows no Allianz Parque, concomitantemente, em 18 apartamentos e dentro da Arena. No relatório, foi constatada poluição sonora.
“Para nós moradores foi muito importante ter o relatório de avaliação do ruído produzido pelos shows, feito pelo IPT, porque agora temos um documento oficial que comprova que há poluição sonora. Deixou de ser “reclamação” e passou a ser um problema que deve ser resolvido pelos órgãos públicos com as empresas que administram a Arena Allianz Parque”, afirmou Jupira, que é representante dos moradores no Cades (Conselho de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz) da Lapa.
A Promotoria de Meio Ambiente determinou a colocação de janelas antirruído em seis apartamentos de um prédio da Rua Padre Antônio Tomás, localizada a poucos metros da arena. Essas janelas só foram instaladas neste ano, entre fevereiro e março pela WTorre, administradora da Arena.
Câmara dos Vereadores
O projeto apresentado na Câmara é um substitutivo a projeto de tema semelhante apresentado em 2018 e que já foi aprovado em primeira votação. Agora, no entanto, o texto prevê o aumento do limite de ruído, e basta que seja aprovado uma vez pelos vereadores para que vá à sanção do prefeito Ricardo Nunes.
O grupo integrado por 31 associações pressiona para que essa votação não aconteça. Eles avaliam que a tentativa de liberar mais ruído “é de grande irresponsabilidade com a população que mora no entorno de arenas multiusos, estádios, clubes e aeroportos que estão em ZOE”.
As associações lembram que a OMS (Organização Mundial da Saúde) trata a questão da poluição sonora como um problema de saúde pública. “Seu impacto sobre a saúde das cidadãs e cidadãos vão desde a perda auditiva induzida pelo ruído, zumbido e outras consequências extra auditivas, como doenças cardiovasculares (…)”, afirmam.
As associações concluem que a mudança na legislação é, portanto, “inadmissível”. “Precisamos de soluções efetivas. Manter o som dentro dos limites atualmente permitidos, fazer tratamento acústico dentro da Arena Allianz Parque, ter show com duração menor, para a exposição ao incômodo ser menor. É isso que estamos buscando, com todos os atores envolvidos, mediado pelo Ministério Público”, finaliza Jupira Cauhy.
Allianz Parque
Em nota, o Allianz Parque afirmou que há um trabalho contínuo para mitigar as possíveis interferências na região nas datas de shows e eventos, buscando as melhores práticas e implementando medidas para a boa convivência.
“Compreendemos que uma estrutura de grande porte como o Allianz Parque transforma o entorno. Desde o começo do projeto, a Real Arenas estabeleceu um canal de comunicação direto com a comunidade, o Bom Vizinho, que foi criado com o objetivo de ouvir e atender a demanda dos moradores (…) No entanto, a adoção de algumas dessas medidas possui restrições, pois divergem de outras questões de segurança implementadas, como entrada e saída de pessoas, entrada e saída de carros oficiais, como carros do Corpo de Bombeiros”, diz o Allianz.
A empresa defende ainda que a estrutura da arena é segura, que os shows respeitam os horários estabelecidos e que o impacto sonoro na região é inferior quando comparado aos eventos realizados em outros espaços da cidade, que não oferecem a mesma proteção acústica”.
O R7 solicitou o posicionamento da Prefeitura de São Paulo, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.
*Estagiário sob supervisão de Márcio Pinho







