
Parte de projeto ferrovirio frustrado, o tnel de Capito Eduardo terminou aberto ao trfego de veculos (foto: Fotos: Edsio Ferreira/EM/D.A Press) A cidade tem segredos, mistrios, seus guardados, alguns bem pertos dos olhos, embora desconhecidos da maioria da populao, outros nos subterrneos de construes do sculo passado. E se ainda brotam nascentes cristalinas flor da terra, visveis a olho nu, possvel encontrar tneis, verdadeiras obras de arte, por onde passa uma parte da histria do Brasil. Ver para crer. Belo Horizonte, que comemora hoje 125 anos – a inaugurao foi em 12 de dezembro de 1897 – um livro aberto para ser pesquisado e, principalmente, conhecido, a fundo, pelos moradores e visitantes. A cidade feita de monumentos e construda, a cada dia, pelas mos de homens e mulheres, jovens e adultos, belo-horizontinos de nascena e de corao que escolheram esta terra para viver. Portanto, no aniversrio da capital ou em qualquer poca, nada mais oportuno do que passear e conhecer o melhor da capital: seu povo, sua histria, sua paisagem aos ps da Serra do Curral e valorizada pelos conjuntos arquitetnicos.Perto de completar 80 anos, o aposentado Heraldo de Moraes Moreira conhece grande parte da histria de Belo Horizonte. E no s de abrir livros, ver recortes de jornais ou visitar museus, pois a aprendizagem foi alm: passou tambm pela escola da vida. Com memria prodigiosa e boa disposio para se locomover – apenas impedido, nesses dias, por um machucado na perna, em decorrncia de um bloco de concreto que caiu na canela –, ele assistiu ao crescimento vertiginoso e s profundas transformaes da capital, que, hoje (12/12), comemora 125 anos.“Andei de bonde, acompanhei as mudanas da cidade, entre elas a chegada de prdios a lugares de mata virgem, o desaparecimento de fazendas e a construo do tnel de Capito Eduardo”, afirma o mineiro nascido no municpio vizinho de Sabar e residente no Bairro Beija-Flor, na Regio Nordeste da capital. A citao do tnel, da dcada de 1950, a senha para a equipe do Estado de Minas ir ao encontro de marcos, monumentos, acervos, equipamentos e outros locais que a maioria dos belo-horizontinos possivelmente nunca viu.Na lista “BH que BH no conhece”, h abrigo antiareo em plena Regio Centro-Sul, memorial no poro, que remete a um ambiente da Idade Mdia, da Baslica Nossa Senhora de Lourdes, onde fica tambm um columbrio, espao para se guardarem cinzas fnebres, e as nascentes do poludo Ribeiro Arrudas, no Bairro Petrpolis, no Barreiro.PEDRA SOBRE PEDRA So muitas as histrias guardadas na memria e no corao de Heraldo de Moraes Moreira, que, logo de cara, brinca que no tem qualquer parentesco com o cantor e compositor baiano Moraes Moreira (1947-2020). “Nasci em 22 de janeiro de 1943, na localidade chamada Borges, perto de onde moro, na divisa com Belo Horizonte”, conta o homem, que comeou a trabalhar, ainda adolescente, numa das empreiteiras encarregadas da construo do tnel ferrovirio, que pode ser visto na Rua Padre Argemiro Moreira. Na boca da estrutura, liberada ao trfego de veculos, est a siga MT – DNEF, de Ministrio dos Transportes – Departamento Nacional de Estrada de Ferro, extinto em 1974.“Quase todo mundo que morava nesta regio trabalhava na construo do tnel, que chamvamos de ‘Trecho’. Eu sempre fui do almoxarifado, e, na poca, era empregado da Brasil Construtora. Havia tambm operando aqui a Indstria e Concreto Armado (ICA)”, diz Heraldo, interrompido, ao final da frase, por um estrondo no telhado da varanda, nos fundos da casa. Mas no era nada demais: apenas uma manga madura se desprendera de um galho.O movimento era intenso nos tempos da construo do tnel, ressalta Heraldo. E exigia muita fora bruta, por parte dos operrios. Depois das exploses com dinamite, vinha o servio manual. “Os trabalhadores usavam martelete diretamente na rocha, outros quebravam com a marreta”, recorda-se fazendo um movimento, no ar, com as mos, da ferramenta imaginria.“Sem dvida, o tnel mais antigo de Belo Horizonte. Nessa poca, no havia os da Lagoinha”, diz Heraldo, em referncia ao complexo virio implantado na paisagem urbana nas dcadas de 1970 e 1980. Curiosamente, o projeto da via ferroviria no se consumou. “Colocaram os trilhos, fizeram testes, construram outros tneis em Santa Luzia, mas a ferrovia no vingou. Muito tempo depois, o nosso tnel foi aberto ao trnsito de veculos”.O tnel de Capito Eduardo fazia parte da linha ferroviria projetada para ligar Belo Horizonte a Itabira, um trajeto de 100 quilmetros, com obras iniciadas em 1948 no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (de 1946 a 1951). Quando as obras foram paralisadas, cerca de 5 mil a 6 mil pessoas ficaram ao deus-dar e a populao espera do trem que nunca apitou. De Itabira, a ferrovia cortaria a Serra do Espinhao at chegar a Peanha, na Regio do Rio Doce, a 304 quilmetros da capital. Com a morte do presidente Getlio Vargas, em agosto de 1954, o projeto entrou em colapso, sendo sepultado definitivamente no governo de Juscelino Kubitschek (de 1956 a 1961), quando as rodovias ganharam destaque em detrimento do transporte ferrovirio. Aos 80 anos, Heraldo Moreira relembra a construo da via, a mais antiga de BH nesse formato (foto: Fotos: Edsio Ferreira/EM/D.A Press) FOLHA DE TAIOBAPara quem gosta de descobrir a cidade, conhecer mais da histria local ou simplesmente “se aventurar por a”, o tnel de Capito Eduardo surpreende. Sem revestimento de concreto, a no ser nas duas entradas, as paredes internas esto na rocha bruta, como se tivessem sido artisticamente modeladas. “Meu pai trabalhou a durante muitos anos. Veio de longe para o Trecho”, conta uma mulher que, correndo para pegar o nibus, pouco tempo tem para conversa.Nas palavras de Heraldo, o passado vai ganhando uma forma to viva que se torna, agora, um cenrio. “Belo Horizonte tinha muitas nascentes…tantas e to limpas, que a gente bebia na folha de inhame ou de taioba. Aqui tudo era mato, beira do Rio das Velhas.” Da regio cortada pela rodovia BR-381, o almoxarife aposentado tem mais recordaes. Com um sorriso, faz uma pergunta equipe do EM. “Sabem como se chamava essa estrada?” resposta “BR-262”, ele retruca: “No! Bem antes, o nome era BR-31”. Tal numerao prevaleceu at 1964. O porteiro Milton dos Santos no bunker construdo em 1947: %u201CParece uma fortaleza%u201D (foto: Fotos: Edsio Ferreira/EM/D.A Press) Abrigo antireo no Centro-SulAs cenas da guerra na Europa, iniciada em fevereiro deste ano, mostram a invaso das tropas russas na Ucrnia, com a resistncia na capital Kiev e em outras cidades, bem como o xodo de milhes de pessoas, e muita gente, notadamente famlias inteiras, buscando proteo nos abrigos antiareos. Nesses “bunkers” (palavra alem para ambiente parcial ou totalmente subterrneo, fortificado e construdo para resistir aos projteis de guerra), possvel se proteger dos bombardeios.Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estaes de metr em Londres, na Inglaterra, foram usadas, pelos civis, como proteo contra as bombas lanadas pelos avies nazistas. Mas o que Belo Horizonte tem a ver com isso? Na capital mineira, alguns prdios, na dcada de 1940, foram erguidos com esse compartimento no subsolo. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro (RJ) com os edifcios na Avenida Atlntica, em Copacabana, os quais, depois, viraram garagens.Localizado na Avenida Bias Fortes, perto da Praa Raul Soares, na Regio Centro-Sul, o Edifcio Indai data de 1947. Logo na entrada, h um retrato em preto e branco no qual o prdio se sobressai na capital ainda dominada pelas casas. O contraste entre dois tempos instiga ainda mais a curiosidade dos reprteres, quando descem as escadas rumo ao compartimento de proteo.Pintado de branco, hoje com piso de porcelanato, o abrigo antiareo do Indai tem grossas colunas de concreto. “Parece uma fortaleza”, compara o porteiro Milton Carmo dos Santos, que trabalha no prdio de 11 andares h 18 anos. “Sempre tem algum interessado em conhecer”, acrescenta, antes de mostrar duas argolas chumbadas na parede, na entrada de uma escada estreita, para que fosse colocada uma barra de ferro a fim de garantir maior proteo aos abrigados.Impossvel no imaginar os tempos da Segunda Guerra Mundial ou pensar, com um certo delrio, se realmente seria possvel Adolf Hitler (1889-19450), o “fhrer” da Alemanha Nazista, mandar bombardear uma capital brasileira. Nunca demais lembrar que, em 1942, navios comerciais nacionais foram torpedeados e afundados, na costa brasileira, por um submarino germnico, provocando at manifestao de belo-horizontinos na Praa da Liberdade, na Regio Centro-Sul de BH.Outro edifcio que tambm dispe de abrigo antiareo o Acaiaca, na Avenida Afonso Pena, edificao cuja marca registrada est nos ndios ou efgies indgenas que caracterizam a fachada de 30 andares – um de olho na Rua Esprito Santo, outro, na Rua dos Tamoios. Recentemente restaurado, o Acaiaca tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimnio Cultural de Belo Horizonte.Uma curiosidade que o “bunker” fica exatamente sob o antigo cinema, palco de grandes filmes, inclusive “de guerra”, estreias e encontro de geraes e geraes de belo-horizontinos. Uma pesquisa sobre esse monumento de BH, pintado na cor areia, mostra que ele foi inaugurado em 1943, portanto no auge do conflito entre nazistas e os aliados. Sem dvida, essa histria daria um grande filme, pois j resultou no livro “Edifcio Acaiaca: O colosso humano e concreto”, de Antonio Rocha Miranda. Edifcio Indai, na Avenida Bias Fortes, que mantm o abrigo antiareo (foto: Fotos: Edsio Ferreira/EM/D.A Press)







