Una Tupinambs: ‘Temos que fazer com que as pessoas se vacinem’ – Gerais

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Una Tupinambs, infectologista, professor da Faculdade de Medicina da UFMG (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press) Aps um perodo de calmaria relativamente longo, com flexibilizao das normas sanitrias de enfrentamento COVID-19, o Brasil – e em Belo Horizonte a situao no diferente – viu oscasos de infeco pelo coronavrus aumentarem significativamente em curtos perodos de tempo. Especialistas falam, inclusive, da possibilidade de uma nova onda, que pode ser potencializada pelas festas realizadas a cada  jogo do Brasil na Copa do Mundo at a derrota de sexta-feira e as celebraes do fim de ano.E como combater o vrus, que h mais de dois anos obrigou o mundo a mudar hbitos e insiste em fazer parte do nosso dia a dia? Bem, o mdico infectologista Una Tupinambs, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),  foi enftico: uso de mscara, ateno s normas sanitrias, principalmente dentro dos perodos sazonais da COVID, e, principalmente, vacinao.Em entrevista ao Estado de Minas, Tupinambs, afirma que a arma e escudo que temos hoje e que, infelizmente, no possuamos em 2020 e 2021, pode garantir dias mais tranquilos quando o coronavrus resolver dar as caras. Mas para a vacina fazer efeito, destaca ele, preciso tom-la. Alm disso, ele faz prognsticos para a pandemia no futuro e elenca erros cometidos na abordagem doena e a necessidade de construir um sistema de sade cada vez mais forte. Na virada de novembro para este ms, em uma semana, Belo Horizonte teve aumento de 15% na positividade dos testes de COVID-19. Qual o risco de uma nova onda da doena? Ou j estamos vivenciando uma?Provavelmente, ns estamos vendo uma outra onda. Muito por conta dessa subvariante da micron, deve ser a BQ1, que tem uma capacidade de evadir a resposta imune. Mesmo em quem foi vacinado, ela pode causar infeco. Lembrando que, em quem foi vacinado, a infeco geralmente mais branda.Como podemos avaliar em que momento BH est diante da pandemia?Eu acho que a gente est nessa nova onda, no crescente. Infelizmente, teremos muitos casos de COVID. O que chama a ateno nesse cenrio atual a subnotificao. Muitas pessoas fazendo teste em casa, muitas pessoas no fazendo, desprezando a infeco, s vezes at indo trabalhar com sintomas respiratrios, o que no adequado. Ento, est aumentando o nmero de casos e, infelizmente, as notificaes no esto acompanhando. Por isso a gente fala que importante voltar a usar mscara em locais fechados, no transporte pblico, estabelecimentos comerciais e que a populao procure tomar a primeira e a segunda doses de reforo.Em 17 de novembro, a Prefeitura de Belo Horizonte determinou o uso obrigatrio da mscara em meios de transporte e hospitais. Na avaliao do senhor, essa medida suficiente para conter o avano dos casos?Acho que foi muito adequada a postura da Secretaria Municipal de Sade em ter voltado com essa obrigatoriedade. Eu acho que ns temos que, alm dessa obrigatoriedade nesses locais citados, fazer uma campanha muito intensa para a populao, porque parece que as pessoas relaxaram a tal ponto que aqueles grupos elegveis para a primeira e segunda doses de reforo no procuraram o sistema de sade.Com os jogos da Copa do Mundo e festas de fim de ano, certamente continuaremos com as aglomeraes. Isso pode contribuir para uma nova exploso de casos de COVID-19?A expectativa, infelizmente, que vai ter um aumento de casos no decorrer de dezembro, muito por conta disso, dessa variante que ns falamos no incio. E tambm as pessoas esto no fim do ano, tem festas de comemorao,   Copa do Mundo. Sabemos que as pessoas frequentam os botecos, os bares, pelos jogos, e nesse ambiente ningum usa mscara, n? Ento, infelizmente vo aumentar os casos e tambm o nmero de mortes, porque proporcionalmente vai aumentar tudo. claro que no aquele cenrio que ns vimos em janeiro deste ano e nem o de maro, abril e maio do ano passado. Mas algumas pessoas podem ter um quadro grave da COVID.A PBH publicou decreto que imps limite de at 250 pessoas em eventos durante a Copa. O senhor avalia que seria o momento de a prefeitura impor novamente restries a festas com grande nmero de pessoas na cidade?Eu acho esse cenrio diferente do que ns vivemos nos outros dois anos. Naquela poca, a gente fazia parte do Comit de Enfrentamento Covid da Prefeitura de Belo Horizonte. No tnhamos vacina, no tnhamos muito conhecimento da transmisso, enfim, era um cenrio incerto. Neste cenrio atual, temos uma ferramenta muito potente: a vacina. Ento, ns temos que fazer com que as pessoas que frequentam esses ambientes se vacinem, inclusive com as doses de reforo, e mantenham esses ambientes arejados. E aquela pessoa que mais vulnervel diante da COVID, uma pessoa idosa, uma pessoa que tem comorbidades, que faz tratamento para cncer, transplantado, pessoas que vivem com HIV, essas pessoas tm que redobrar o cuidado e usar uma mscara de boa qualidade nesses ambientes.Tambm temos acompanhado um aumento significativo de infeces por influenza A e outras doenas respiratrias. Diante desse cenrio, como deve ficar o sistema de sade nas prximas semanas?Essa o que a gente chama de tripla epidemia, da influenza, de doenas respiratrias e do Sars-CoV-2. Em vista do impacto no s no SUS, mas tambm na sade suplementar, achei importante a gente reforar as equipes de sade. Nesse cenrio, as equipes de sade comeam a ficar desfalcadas, comeam a adoecer. Ento, importante melhorar nosso patamar sanitrio, voltar a usar a mscara nesses ambientes fechados, ter o autocuidado.Olhando para trs, fazendo um balano de como foi este ano de combate pandemia, possvel enxergar algum erro?Sim. Acho que o erro principal, todo mundo j viu. Foi do Ministrio da Sade, ns no tnhamos ministro da Sade. O ministro da Sade incentivava terapias que no eram adequadas, muito por conta do prprio presidente da Repblica, que felizmente agora est saindo. Ele insistia em terapias inadequadas, no incentivava a vacinao, incentivava aglomeraes. Ele descartava o uso da mscara, dizia que a mscara no era necessria. Enfim, acho que o Brasil ser o segundo pas em nmero absoluto de mortes, mais de 700 mil, muito por conta do enfrentamento da pandemia no pas. E tem trabalhos que dizem que o Brasil foi o pior dos lugares enfrentando a pandemia. E, paradoxalmente, era um pas que, antes de a pandemia comear, estava “bem na fita”, muito por conta do nosso sistema de sade. Ns ficamos, durante a pandemia, vrios meses sem ministro da Sade. Quando entrou um ministro, ele no fez a articulao necessria, faltou oxignio em Manaus, por exemplo. Atrasou a compra da vacina, ele desprezou a vacina, fez campanha contra ela. Todo mundo vai se lembrar da fala do presidente da Repblica, que quem tomasse a vacina iria virar jacar, colocando dvidas na cabea da populao. Na Prefeitura de Belo Horizonte, por ter um SUS robusto que vem sendo construdo desde a dcada de 1990, o ex-prefeito Kalil enfrentou a pandemia de forma adequada. BH ganhou prmios, foi modelo de enfrentamento da pandemia nesses ltimos anos, no Brasil e no mundo. Em Belo Horizonte, felizmente, a gente no tinha um governo negacionista. O Kalil mostrou isso. Ele enfrentou a pandemia de forma muito corajosa.A chegada de novas subvariantes da micron encontra o processo de vacinao estagnado em Belo Horizonte, onde o pblico abaixo dos 40 anos segue sem data para ser imunizado com a quarta dose contra a COVID-19. Como o senhor avalia o andamento da imunizao na cidade? Qual a justificativa para essa baixa adeso vacinao?Acho que isso que eu acabei de falar sobre como o governo enfrentou. Ns no temos campanha para vacinao da primeira dose de reforo da populao abaixo de 40 anos. E na populao acima de 40, que pode receber a primeira e segunda doses de reforo, est muito aqum. Ento, falta a campanha. O nosso Programa Nacional de Imunizao (PNI) ficou meio sumido nesse tempo todo, um programa mundialmente reconhecido. E essa crise na vacinao no s de COVID. Vamos lembrar, de sarampo, de poliomielite. Temos que imputar um culpado, que o governo federal, o Ministrio da Sade, que no fez a campanha devida. Ns nem sequer temos vacina suficiente para poder vacinar, com a quarta dose, a populao de 18 a 40 anos.Como o senhor vislumbra que vo funcionar os ciclos de vacinao contra a COVID-19 nos prximos anos?A vacina da COVID, como a vacina da H1N1, provavelmente ser anual. A nossa dvida qual vai ser a sazonalidade da COVID. A gente sabe que a sazonalidade do H1N1 o outono, l em maio comea a aumentar o nmero de casos e no fim de agosto cai. Pesquisadores apontam risco de ter dois picos, no fim e meio do ano. Eu acredito que essa vacina, a vacina bivalente — vou lembrar que ns vamos ter uma vacina nova, de segunda gerao — vai ter que ser tomada anualmente pela maioria da populao.J possvel desenhar um cenrio para o carnaval em 2023? O que a populao pode esperar? Quais as perspectivas para o prximo ano?No carnaval, essa onda que ns estamos comeando agora muito provavelmente j deve ter passado. E espera-se que quem vai frequentar esse carnaval esteja vacinado. Se a pessoa vai para o carnaval com as doses de reforo, e ns teremos acabado de sair dessa onda, que deve comear a cair j no incio de janeiro, ela estar fora daquela onda.Por quanto tempo ainda viveremos nessa espcie de montanha-russa de picos e quedas da pandemia? Vamos sempre viver esse “tira e volta da mscara”?Essa a pergunta de milhes de dlares. Ningum sabe como vai ser daqui pra frente. Nossa expectativa que vai ter essa sazonalidade e ns vamos estar noutro patamar sanitrio, o que eu acho um ganho. No passado, a gente no usava mscara, a gente ia trabalhar doente, vrios trabalhadores da sade iam trabalhar gripados, era normal naquela poca. Ns no podemos ter esse desprezo pela infeco gripal. Quando a pandemia acabar, ns vamos ter um perodo endmico, como o da H1N1. Se vo ser um ou dois picos anuais, a gente no sabe ainda. Mas uma coisa certa: vamos manter o uso da mscara num perodo de outono/inverno. Como a gente via na sia. Era muito comum ver os asiticos usando mscara e a gente achava estranho aquilo, ento vai ser um padro que ns vamos ter que assumir. E, claro, sempre ter cuidados de higienizao de mos, ficar em locais abertos e sempre reforando a atualizao do nosso calendrio vacinal.Tem mais algo a acrescentar, doutor?Cada pessoa tem que ter autocuidado, buscar informaes corretas. A gente faz um apelo, que : atualize o calendrio vacinal. No s da COVID, mas que os pais levem as crianas para vacinar contra a poliomielite, contra o sarampo, contra a meningite C. A gente est com vrias ameaas agora. As doenas no existem mais – poliomielite, sarampo – por conta da vacina. Isso bem paradoxal. ‘Ah, no tem mais sarampo, no tem mais poliomielite, no precisa de vacina’. Mentira, diferente. No tem mais porque todo mundo vacinou. Se a gente parar de vacinar, as questes vo voltar, como j esto voltando em alguns pases.

FONTE: TRIBUNA DE MINAS