Nos últimos anos tivemos alguns beat ‘em ups marcantes, mostrando que o gênero ainda tem muito potencial a ser explorado depois de um longo hiato sem tantos jogos novos. Fãs do gênero devem lembrar automaticamente de Scott Pilgrim vs The World: The Videogame, do sensacional Streets of Rage 4, de Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge e do próprio River City Girls.

Gosto bastante do que a WayForward fez com River City Girls 2, pois valorizou ainda mais a fórmula do jogo de 2019 e, agora, também encontrou o equilíbrio ideal do “RPG de ação 2D” originado com a franquia Nekketsu (River City Ransom) nos anos 80.
Velhos inimigos e novos problemas
River City Girls 2, no geral, é uma bela expansão e aprimoramento de seus sistemas e ideias, um jogo que traz um monte de coisas legais que dão uma empolgada.
A aventura continua exatamente de onde o anterior parou. E como as amigas Misako e Kyoko fizeram um monte de inimizades ao deitar membros da Yakuza na porrada enquanto buscavam pelos namorados Riki e Kunio, supostamente sequestrados, agora elas são alvo de vingança e estão na mira de problemas ainda maiores. É uma trama divertida que descamba rápido para o absurdo.

O jogo reaproveita quase tudo da aventura anterior em termos de cenários, personagens, mecânicas e músicas, mas faz isso injetando qualidade, requinte e estilo. Tudo ainda é muito colorido e bonito, mas há todo um refinamento com menus mais elegantes e um design mais vistoso, principalmente nas animações e na apresentação em HQ que complementa a narrativa da história. Sério, isso é tão bom de acompanhar!

A cidade em si perdeu algumas áreas, ganhou outras inéditas e o que se manteve do jogo anterior passou por uma certa repaginação, sendo visualmente mais rica em detalhes, mais viva e com mais pessoas espalhadas. O mapa está maior e mais “complexo”, mesmo com o sistema de viagem rápida (usar ônibus para ir de uma área à outra num instante).
São sete regiões e cada uma subdividida em várias áreas, com pontos interativos inesperados, coisas a se fazer, apenas apreciar as paisagens diversificadas ou achar easter eggs. Claro, algumas áreas possuem obstáculos que atrapalham um pouco a mobilidade, já que alguns ambientes permitem perambular em profundidade no cenário. Ainda assim, é uma delícia de explorar.

A trilha sonora continua fantástica e nesse departamento, além de músicas reaproveitadas, tem algumas inéditas e cantadas — tal qual nos filmes de ação dos anos 80, essas músicas contam o que está acontecendo naquele ambiente em forma de paródia, cortesia da cantora e compositora Megan McDuffee. Mas é nas mecânicas de combate e nos sistemas de jogo que dá para sentir o polimento.
Pancadaria dos sonhos
Além do modo multiplayer local para até quatro personagens, finalmente o jogo também ganhou um modo online e crossplay, ou seja, não importa em qual plataforma estiver jogando, é só combinar com os amigos e fechar uma sala ou entrar no modo publico e caçar uma partida. Jogar em quatro pessoas é sensacional no modo local, porém tá bem difícil achar partidas públicas online.

Além de Kyoko e Misako, Kunio e Riki são personagens jogáveis e você ainda pode recrutar Marian e Provie, tendo seis personagens ao todo e cada um com técnicas e peculiaridades de combate bem peculiares.
Algumas habilidades são aprendidas organicamente conforme evoluir seu personagem e muitas outras técnicas são ensinadas (você compra) nos dojôs de Billy e Jimmy Lee. Sim, os irmãos Double Dragon! Aliás, vale reforçar que RCG2 unifica, de forma criativa, os universos das franquias Nekketsu, Super Dodge Ball, Double Dragon e River City Ransom.

O sistema de combate ficou mais robusto. Cada personagem tem o seu próprio arsenal de técnicas e combinações que ficam insanas. Simplesmente massacrar botões não é suficiente, é preciso combinar ou intercalar movimentos com alguma precisão, como se fosse um jogo de luta de 1 vs. 1. Simples de entender, fácil de dominar, prazeroso e estimulante de executar.
É maravilhoso pegar quatro ou mais inimigos em um combo, fazê-los quicar no canto da tela, emendar mais uma sequência de golpes, jogá-los para o outro lado do cenário, encaixar mais uma sequência, lançar todo mundo para o alto e subir junto emendando uma sequência arrebatadora.

O jogo tem comando de “launcher” para jogar inimigos para o alto e seu boneco ir junto fazer combo aéreo no melhor estilo Marvel vs Capcom, além de fazer várias homenagens a golpes emblemáticos dos personagens de Street Fighter II. E além do botão de defesa, o jogo incorpora o sistema de parry (aparar o golpe adversário) e trabalha com a precisão de jogadores mais ousados.
Marian e Kunio são mais lentos, voltados para ataques físicos pesados e agarrões; Riki e Provie são os mais rápidos e conseguem causar dano múltiplo e contínuo contra grupos inimigos; Misako e Kyoko são as mais equilibradas, sendo a primeira focada em sequências de socos e trancos e a segunda abusa de chutes e firulas. Diferentes estilos levam o jogador a querer se especializar em um tipo ou dominar todos.
Denso, mas não o suficiente
Toda essa deliciosa loucura e sutilezas do combate não se aplicam apenas aos inimigos, você também está sujeito às regras — pode sofrer uma sequência de ataques e ficar quicando entre golpes, sem tempo de reagir.

Como o jogo pende mais para o lado do RPG, explorar a cidade tem um peso maior do que só ficar quebrando inimigos pelo caminho. Além de ganhar XP, você também ganha pontos de melhoria de status comprando itens consumíveis pela primeira vez, melhorando atributos individuais.
Também há um mais itens que podem ser equipados para melhorias artificiais, aplicando uma belíssima variedade de efeitos imediatos. Muitos destes são comprados e outros obtidos ao concluir tarefas paralelas através de personagens espalhados pelo jogo ou por cumprir condições no progresso da trama.

Assim como no primeiro jogo, você pode recrutar inimigos após isolar o alvo desejado e surrá-lo até ele pedir clemência: nesse momento de submissão, agarre o inimigo e aperte um dos botões de ombro do controle. Dá para chamar até dois aliados distintos como suporte e usar suas ações peculiares como complemento na execução de combos ainda mais elaborados ou se safar de uma surra — chame o aliado para “apanhar” no seu lugar.
Além de surrar inimigos nos quatro cantos da cidade, você vai caçar fantasmas, procurar cartas de tarot, resgatar gatos, resolver mistérios, encontrar lugares secretos, jogar queimada e participar de atividades incomuns, todos elementos bem-vindos para diferenciar quanto apetecer o mundo beat ‘em up.

Esse monte de coisa ajuda a quebrar aquela rotina tediosa de só andar e socar. Afinal, repetição de mecânicas, por mais satisfatórias que sejam, uma hora cansa se não tiver um algo que ajude a sustentar a boa ilusão e prolongar a diversão. Felizmente, RCG2 faz isso enfiando mais criatividade nos combates contra chefes, tornando cada um deles bem único e envolvente.
Com tantas pequenas adições encorpando o jogo, também aparecem as desvantagens. Enquanto o título de 2019 rodava liso, leve e solto nos videogames, RCG2 sofre alguns problemas de desempenho, mesmo em plataformas como PS5 e Xbox Series X.

Nos videogames o jogo roda em 30fps o que, veja bem, não é nenhum problema. Entretanto, há oscilações no frame rate e engasgos em situações onde muita coisa na tela acontece dependendo da plataforma — até a publicação desse review, a versão de PC ganhou uma atualização que permite rodar a 60fps, tornando a experiência um verdadeiro espetáculo.
Aliás, talvez o único grande incômodo em todas as plataformas no geral sejam as telas de carregamento na transição entre áreas. No PS4 e Switch, essas telas parecem demorar ainda mais. E como o mapa do jogo tem alguns pontos confusos de navegação, por consequência dessas telas fica o incômodo fica ainda maior.
Ainda não chegou lá
Não vou negar que este foi um dos beat ‘em ups que mais aguardei no final de 2022, não só pela qualidade, mas pelo rico histórico que o jogo está associado e, de certa forma, carrega com clássicos do passado. Pois é, amei RCG2, espremi tudo o que ele tinha a oferecer e apesar dos problemas, que muita gente pode exaltar mais do que as coisas boas em todo resto do jogo, acho ele um fantástico, cheio de carisma, bem criativo e diferenciado quando comparado a outros dentro do gênero que representa.

Tem também a questão do preço de lançamento. Para o que ele entrega, talvez assuste os jogadores e digo isso mais pelo fato de não ter encontrado ninguém jogando online, do dia do lançamento até a publicação deste review. Mesmo o jogo tendo mais coisas e mais qualidade, ele não foi tão ambicioso quanto poderia ser para torná-lo excepcional em comparação ao primeiro.
Acho River City Girls 2 sensacional e mais pulsante que o anterior. Com mais personagens, mais lugares e referências, trilha sonora fantástica, pixel art bonita e bem animada, um sistema de combate incrível e um equilíbrio bom entre pancadaria, RPG e exploração. A dublagem é boa e todos os personagens de lojas, e são muitas!, têm diálogos falados. Dá para exaltar bastante coisa.

Mesmo assim, sinto que o jogo ainda está há alguns passos da grandeza. Talvez com um pouco mais de tempo e dinheiro, a WayForward pegue essa fórmula, que está ideal, e consiga ir muito mais além em tudo que a engloba. Enquanto isso não acontece (e espero um terceiro capítulo… e que ele tenha localização brasileira, por favor), ouso dizer que RCG2 é um daqueles beat ‘em up que figuram entre medalhões dos tempos atuais do gênero.

Exalando charme dos clássicos com mecânicas e vantagens de tempos modernos, a WayForward conseguiu resgatar a essência e o design do jogo que começou tudo isso lá em 1989 nos Arcades, atualizou e unificou o universo dos clássicos em um divertido ambiente de pancadaria. É o tipo de entretenimento que fica ainda melhor jogado na bagunça com os amigos.







