Foi ainda nos anos 90 que os fãs de games testemunharam um acontecimento que não só mudou a história dos vídeo games como pode ter criado a própria cultura retrogamer que conhecemos hoje: o advento dos emuladores, programas de computador que faziam os PCs se comportarem como vídeo games e rodarem seus jogos com uma fidelidade sem igual e por vezes de uma forma até superior a original.
De repente, todos os jogos que sempre quisemos jogar desde a infância, mas nunca tivemos chance por diversos motivos, agora estavam nas nossas mãos. Mas esta benção não veio sem polêmica: muito se foi discutido quanto a emuladores contribuírem com a pirataria, fazendo grandes empresas e desenvolvedoras perderem dinheiro, mas ao mesmo tempo, mantendo vivo o legado de tudo o que foi feito antes, democratizando jogos antigos e inéditos e preservando a história dos vídeo games. Mas qual dos dois lados está certo?
Para isso, precisamos voltar uns vinte e poucos anos no passado…
O começo da febre
Tentativas de fazer computadores imitarem vídeo games sempre existiram, mas foi em 1997 e o sonho finalmente começou a virar realidade. Neste ano, surgia o Nesticle, o primeiro emulador de Nintendinho totalmente funcional, o que fez a alegria de quem se divertia muito com ele na época e não tinha mais acesso fácil ao console e sua extensa biblioteca de jogos. A partir daí, começou uma verdadeira corrida para emular todos os consoles conhecidos, com resultados aparecendo muito rapidamente.
Neste mesmo ano, a Bloodlust, o mesmo grupo de programadores responsável pelo Nesticle, lançou o Genecyst, o primeiro emulador de Mega Drive. Depois vieram o SNES9X e o ZSNES, que transformavam sua máquina em um Super Nintendo. E aí, a coisa nunca mais parou. A emulação se tornou uma verdadeira febre no final da década de 90, e sites e grupos de discussão sobre o assunto se multiplicavam a perder de vista. Páginas especializadas, como o Zophar, recebiammilhões de acessos por dia, contendo ferramentas, tutoriais e até mesmo arquivos de som de milhares de jogos, tudo ao acesso de quem quisesse.

Uma das coisas mais legais que a emulação proporcionava era a oportunidade de jogar games que tinham sido lançados apenas em algumas partes do mundo, como o Japão, fazendo com que muita gente descobrisse pérolas escondidas que acabaram ganhando seu merecido reconhecimento no ocidente. Muitos deles inclusive chegaram a ser traduzidos por grupos de fãs, deixando esses jogos ainda mais acessíveis.
No Brasil, a emulação também chegou com força na mesma época, graças ao acesso cada vez mais popular à rede mundial de computadores. Canais do mIRC – antigo programa de conversar da era da internet discada – como o #Emuroms eram bastante visitados, fomentando o cenário da emulação nacional. Havia inclusive grupos dedicados a traduzir Roms de vários sistemas para o português, como a CBT e o grupo Tradu-Roms, cujos trabalhos rodam até hoje pela internet afora.

E assim, um culto ao retrogaming foi se firmando entre a comunidade nerd/geek, que agora poderia celebrar os games mais antigos com outras pessoas, fazendo uma gostosa viagem no tempo ao jogar os preferidos da infância, vivendo novas aventuras com títulos desconhecidos e realizando o sonho de ter, ao alcance de um clique, o que mais queriam: todos os seus jogos preferidos ao alcance de suas mãos. E sem nem mesmo pagar por isso.
E foi aí que começou o problema.
A polêmica
A ascensão dos emuladores e a procura desenfreada por eles não passou batida por Sega, Nintendo e toda e qualquer desenvolvedora de games do mercado, que começaram a perseguir e destruir os sites responsáveis por eles. A comunidade reagia como podia, tentando apelar para a consciência de cada um e pedindo para que as roms baixadas fossem deletadas 24 horas depois do download caso o usuário não possuísse o cartucho original, tudo para tentar evitar problemas com a lei. E como toda iniciativa de contar com o bom senso alheio, eles fracassaram miseravelmente.
Alguns grupos dedicados a emulação se tornaram tão audaciosos que tentaram até mesmo fazerem emuladores comerciais, isto é, vender programas capaz de rodar jogos de outros sistemas. Era o caso do Bleem!, que prometia executar com perfeição jogos de Playstation, o console mais poderoso da época. Obviamente, foram combatidos – com bastante agressividade, devo ressaltar – pelos advogados da Sony, que processaram os responsáveis com multas milionárias e queriam até mandar prender os criadores do emulador.

Por um lado, é realmente injusto se apropriar indevidamente do trabalho alheio e disponibilizá-lo de graça para quem quiser, fazendo as empresas e as pessoas que se dedicaram a criar aqueles jogos não receberem seu merecido dinheiro em troca de sua obra. Mas por outro, é bem possível que a história dos games como um todo fosse perdida completamente com o tempo, sem que ninguém pudesse fazer nada para impedir.
De acordo com Frank Cifaldi, curador da empresa Digital Eclipse, mais da metade dos filmes feitos antes de 1950 se perderam para sempre. E o mesmo poderia acontecer com os games, que sem a possibilidade de serem comprados ou até mesmo conhecidos, simplesmente sumiriam nas areias do tempo. Não existiria uma curadoria, um grupo responsável por guardar toda essa história. E por causa dos “piratas de software” responsáveis pelos emuladores, hoje isso é feito, deixando a história desse mercado e todo o seu legado protegidos.
Virando o jogo
Com o tempo, a perseguição aos emuladores foi se tornando cada vez mais uma discussão ética, sobre esta ser uma prática válida ou pura pirataria. E essas empresas foram se tornando mais tolerantes à ideia de ter seus sistemas e jogos mais antigos copiados e distribuídos por aí.
Hoje, os emuladores saíram dos gabinetes dos PCs e estão em todos os lugares, dos dispositivos mobile a até mesmo os próprios consoles. As versões mini do Super Nintendo e do Nintendinho, nada mais são do que emuladores embalados em belas carcaças em miniatura de seus consoles bem-sucedidos do passado. O Playstation Classic, um lançado em 2018 pela Sony, usa o PCSX, um emulador de código aberto, para rodar seus jogos, um símbolo de que a empresa reconhece que um programa supostamente amador pode ser tão válido quanto o sistema oficial. O próprio Virtual Console, serviço que disponibiliza jogos retrô nos vídeo games da Nintendo, não passam de emuladores oficiais.

Sem a emulação, talvez toda a adoração aos games retrô que vemos hoje em dia não existisse. O público mais novo, sem acesso aos consoles antigos, não teriam o menor interesse neles, e títulos como Final Fantasy VII, The Legend of Zelda: A Link to the Past e Super Mario Bros. 3 seriam só lembranças distantes e enevoadas de um tempo que não volta mais, presentes apenas nas mentes de quem estava lá em sua época para jogá-los. Muitas joias escondidas ou subestimadas desapareceriam para sempre, como um tesouro lendário perdido em algum lugar do mundo, esperando um Indiana Jones da vida para encontrá-lo.
A discussão entre pirataria deslavada ou a proteção de todo um legado continuará por um bom tempo, mas acho que podemos concordar que, sem os emuladores, talvez nós nem gostássemos mais de games tanto assim.







