Após comandar a Americanas por duas décadas, Miguel Gutierrez deixou a varejista em dezembro do ano passado e foi substituído por Sérgio Rial — executivo que, um mês depois, veio a público declarar a ‘descoberta’ de “inconsistências contábeis” da ordem de R$ 20 bilhões na companhia. Segundo Rial, o rombo era uma “prática antiga”, dando margem para que acionistas, fornecedores, executivos e bancos questionassem os números da gestão anterior.
Agora, um relatório preliminar feito por assessores jurídicos da empresa — com base em trechos de documentos do comitê independente formado para investigação do caso e de dados não auditados —confirmou que a tal prática era, na verdade, uma fraude contábil de cerca de R$ 25 bilhões. O intuito era melhorar os resultados da varejista e, em última instância, aumentar a distribuição de bônus e proventos.
O relatório divulgado na terça-feira (13) também apontou a participação de sete membros da ex-diretoria, dois bancos (Itaú e Santander) e duas últimas auditorias (KPMG e PwC) no esquema fraudulento. No fato relevante, são citados Gutierrez, os ex-diretores Anna Christina Ramos Saicali, José Timotheo de Barros e Márcio Cruz, e os ex-executivos Fábio Abrate, Flávia Carneiro e Marcelo Nunes.
O ponto é que, segundo fontes próximas, Gutierrez não foi ainda ouvido no processo de apuração do comitê independente. Ele teria feito ao menos três solicitações para prestar esclarecimentos, mas foi informado que ainda não era hora de ouvi-lo e que seria chamado em momento oportuno.
Procurados pelo Valor, Gutierrez, Saicali e Barros não comentaram. Os demais diretores não foram localizados até o fechamento da edição.
Perfil discreto e executor duro
A saída de Gutierrez da Americanas teria sido combinada desde 2019, e a expectativa era que ele prepararia um sucessor, provavelmente um dos diretores estatutários de sua confiança. Mas o acerto foi pelo ex-presidente do Santander.
Ter seu nome nos holofotes vai na direção contrária de tudo o que construiu em sua carreira. Gutierrez é uma pessoa discreta, fechada e objetiva, segundo pessoas que conviveram com o executivo. Chegou na empresa poucos anos depois de a varejista ter sido adquirida pelo trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, antes de criarem a gestora 3G, que abarca muitos de seus negócios.
Poucos executivos do varejo o conheceram de fato, apesar de a Americanas ter figurado como uma das maiores varejistas do país. Nos bastidores, o comentário era que Gutierrez se voltava apenas ao público da companhia e que era um ótimo executor — característica que os donos da varejista buscavam no início da década de 1990.
No dia a dia no comando da empresa, seu contato direto era com Sicupira, o nome forte da varejista desde a aquisição pelo trio. Sicupira, que já presidiu a Americanas e nos últimos anos ocupava uma cadeira no conselho de administração, ia pouco à companhia presencialmente. Quando visitava, ficava trancado numa sala com o CEO e não costumava circular na empresa — Gutierrez também não era dado a andar pela companhia.
Há quem diga que ele não tomava uma decisão sem antes tratar do assunto com Sicupira. No entanto, essa leitura não é unânime. Uma pessoa próxima da companhia disse que sempre houve liberdade na tomada de decisões. “Beto era, sim, o líder do projeto, mas não havia ingerência”, disse. A famosa frase, sempre repetida por Gutierrez, “vou ver com o Beto” podia ser apenas uma estratégia do executivo para encerrar conversas indesejadas, diz a fonte.
Internamente, Gutierrez tinha uma gestão considerada “antiga”, ou seja, de difícil trato e com conversas muitas vezes que terminavam em gritos, algo que perdeu espaço nas corporações. “Era o cara que botava pressão”, diz uma fonte, que já trabalhou com o executivo. Fazia reunião todos os dias. “Quem participava sabia que ele ‘tacava o pau’. Nunca nada estava bom”, disse outra fonte, na condição de anonimato.
Outra fonte confirmou que Gutierrez era duro, mas não a ponto de ser desrespeitoso. Era seco nas suas interações, algo que poderia ser confundido com um tratamento mais rude.
Apesar do tempo de casa, não se mostrava aberto a conversas tanto que, nas reuniões que presidia, não costumava abrir chances para perguntas. “Ele dava o recado e ia embora”, disse uma fonte. Tampouco tinha o hábito de visitar frequentemente lojas ou centros de distribuição.
Casado e pai de três filhos, Gutierrez sempre foi discreto em sua vida pessoal. Por vezes, foi visto saindo da empresa usando um boné azul e preto, provavelmente para não ser reconhecido. O executivo não costumava participar de eventos que contavam com o patrocínio da Americanas. “Ele nunca ia a uma festa”, resume uma fonte.
Nascido em 1961 no Brasil (e com cidadania espanhola), Gutierrez teve praticamente toda sua formação acadêmica e a vida profissional no Rio de Janeiro, com exceção de uma passagem por Harvard. Na universidade americana, fez parte de um programa voltado para formação de lideranças, conhecido como Owner/President Management (OPM). Graduado em engenharia mecânica pela UFRJ e em economia pela UERJ, também possui uma pós-graduação em marketing pela Coppead. Na escola de engenharia, estudou na mesma turma de Carlos Brito, que foi executivo da Ambev e comandou a AB InBev, uma das principais empresas do portfólio da 3G Capital.
Como executivo, também foi gerente de produção da Michelin entre 1986 e 1988. A partir do ano seguinte, na Casa da Moeda, foi superintendente de recursos humanos e diretor técnico. Saiu de lá em 1993 para a Americanas, onde atuou em diversas áreas e cargos. Teria sido contratado pela sua experiência na área financeira, tanto que foi gerente do departamento de controle financeiro. Em 1995, tornou-se superintendente de operações, e dois anos depois passou a diretor executivo de logística. A partir de 1998 foi nomeado diretor estatutário, para em 2001 assumir o cargo de diretor superintendente.
Na Americanas, era bastante admirado por uma parte dos funcionários, especialmente os que originalmente eram da Lojas Americanas – a empresa foi fundada em Niterói (RJ) em 1929 por empresários americanos. O que se falava era que o executivo foi responsável pela melhora dos resultados da empresa, que eram ruins antes de sua chegada.







