No Brasil desde 1977, o arquiteto argentino Pablo Slemenson assina projetos imobiliários icônicos em São Paulo, como o complexo de luxo Cidade Jardim, na Zona Sul. “Foi o primeiro uso misto da cidade depois do Conjunto Nacional, nos anos 1950”, diz. Slemenson tem demonstrado preocupação com os efeitos do Plano Diretor na cidade e alerta para a necessidade de o planejamento urbano começar pelo desenho e estimular a integração entre os espaços público e privado.
Complexo de uso misto é uma tendência que veio para ficar em São Paulo?
Pablo Slemenson — Uso misto é você poder morar, trabalhar, ter lazer e acessar serviços básicos a “walking distance” — não necessariamente dentro do mesmo empreendimento. A cidade tem de ser de uso misto, não apenas o edifício.
O Plano Diretor Estratégico da capital estimulou esse tipo de projeto. Que avaliação faz da lei neste aspecto?
Sem dúvida, o plano de 2014, com a criação dos eixos de transformação urbana, deu um grande passo. Foi fantástico, definiu um marco regulatório, mas não teve uma preocupação pós-implantação e com o desdobramento dos projetos nos espaços. Basicamente, olha mais para o edifício — o tamanho das janelas, do recuo e da área permeável — e menos para a cidade. A interface entre a cidade e o prédio tem sido negligenciada. Não há uma ferramenta de gestão pública que alinhe interesses da iniciativa privada — moradores antigos, lojistas, inquilinos e incorporadores com “timings” diferentes de implantação de seus projetos —, das concessionárias de serviços e o planejamento urbano.
A revisão do Plano Diretor, aprovada em maio, não trouxe avanço nesse sentido?
Acho que não. Tem a visão de desenvolver novos negócios, criar condições para as pessoas morarem, mas sem uma determinação clara sobre como aumentar a qualidade do espaço urbano resultante. É preciso agregar valor para que o ambiente urbano se desenvolva bem. Entender como melhorar o tratamento urbanístico, paisagístico e arquitetônico das ruas. E o Estado não pode transferir para a esfera privada a responsabilidade de transformação do espaço público.
Penso que não se faz boa arquitetura urbana por lei escrita apenas, sem visualizar aquilo que se pretende para cada espaço. É preciso mudar o processo de planejamento: não se faz desenho urbano eficiente sem desenhar.
Veja o que acontece na Avenida Rebouças hoje: tem fachada ativa que funciona, outras não. Uma rua de comércio, em qualquer lugar do mundo, tem 300, 500, 1.000 metros no máximo. Não se pode idealizar que todos os eixos de transformação urbana de São Paulo sejam uma grande continuidade de lojas.
Cidade Jardim — Foto: PSA ARQUITETURA / DIVULGAÇÃO
O Complexo Cidade Jardim é um multiúso de alto padrão. Você acredita que ele cumpre seu papel?
O Cidade Jardim mudou a escala de intervenção urbana de um empreendimento. Foi o primeiro projeto de uso misto na cidade desde o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, de 1956, e trouxe de volta a fruição, permite que o público entre no espaço privado. Foi uma visão genial do Zeco Auriemo (José Auriemo Neto, atual Chairman do grupo JHSF), ao escolher esse conceito. Foi um projeto desafiador também. Era um terreno improvável, com um desnível de 35 metros. Resolvemos a questão da integração dos programas residencial, comercial e corporativo. E tem sido um aprendizado para todos: com o complexo implantado, ficou evidente a necessidade de ações para integrar os edifícios ao bairro e à cidade. No momento, há um trabalho junto à associação de moradores vizinhos para a revitalização do entorno, buscando melhorar a qualidade do espaço urbano e trazer mais vida para a região.
O que define a arquitetura residencial de alto padrão?
Temos feito projetos assim em várias capitais do país, e cada um tem sua particularidade. No Nordeste, por exemplo, é preciso ter ventilação cruzada para amenizar o calor. No Sul, é obrigatório ter uma churrasqueira no apartamento.
Mas há leis universais. Primeiro, o design deve ser atemporal, sem ser ditado por tendências. Na moda, você pode deixar de usar uma roupa que caiu em desuso; na arquitetura, não.
As áreas comuns precisam ser completas, porém, bem dimensionadas e elegantes. O cliente de alto padrão tem casa de praia ou campo, não precisa morar em um condomínio-clube. E dentro das unidades, os espaços devem ser generosos. O morador não pode bater a canela na quina da cama quando entra no quarto.
Casa Brasileira — Foto: PSA ARQUITETURA / DIVULGAÇÃO
Qual o bairro mais interessante para morar em São Paulo?
Acho que os Jardins são o pulmão da cidade, mas acredito que o melhor lugar para morar é perto de onde se trabalha, da escola dos filhos e com bastante oferta de serviços. E se ainda tiver um ambiente urbano de qualidade ao redor, a pessoa estará no céu.
E qual cidade é mais bonita: São Paulo ou Buenos Aires?
Olha… Buenos Aires. E é um exemplo também. A cidade tem menos da metade do PIB paulistano, mas conseguiu reformular totalmente a mobilidade dos trens urbanos em oito anos. Parte das linhas foi elevada, outras viraram subterrâneas, com infraestrutura de centros comerciais, escritórios públicos e parques. Isto é desenho urbano e visão de longo prazo, com vontade política para realizar.







