Brasil manteve cobrança e China se irritou em negociação no Brics | Assis Moreira

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A negociação entre ministros para ampliação do Brics teve momento de irritação da China quando o Brasil reiterou posição pela reforma do Conselho de Segurança da ONU, levando o assunto para ser resolvido pelos presidentes, conforme a coluna apurou.

Quando as delegações desembarcaram em Joanesburgo para a cúpula encerrada nessa quinta-feira, a maioria dos membros do grupo já tinha capitulado à pressão da China para incluir novos membros. Para o Brasil, que sempre defendeu participação maior para os países em desenvolvimento nos foros internacionais, a conclusão foi de que àquela altura não fazia sentido bloquear o consenso no grupo.

Na pressão da China pela expansão, os relatos são de que o governo Lula viu oportunidade de arrancar compromissos envolvendo a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que continua sendo uma prioridade da política externa. A estratégia brasileira em Joanesburgo foi calcada nisso.

Na primeira reunião ministerial, a China apareceu querendo carimbar logo os acordos de expansão do grupo. Foi quando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, retrucou lembrando a importância de critérios e insistindo que os cinco membros precisavam antes, portanto, discutir temas em aberto.

O parágrafo 7 do esboço de comunicado dos líderes tinha uma frase em colchetes, indicando falta de consenso, de proposta do Brasil que era chave para apoio à reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Nos parágrafos 44 e 45, a divergência era sobre a ideia de encarregar os presidentes de bancos centrais e/ou ministros de finanças a apresentar uma posição sobre o uso de moedas no comércio e transações financeiras já na cúpula do ano que vem, que ocorrerá na Rússia.

O tempo foi passando e os chineses, sem mandato de Xi Jinping para negociar, não aceitavam se mover. A tensão cresceu. Diante da resistência à sua pressão para fechar acordo, a delegação chinesa se irritou na reunião ministerial. Mauro Vieira manteve a posição brasileira. Os temas foram então levados para os líderes, que se reuniram só entre eles em seguida.

Ministro Mauro Vieira — Foto: Rafael Beltrami/MRE

Segundo relatos, Lula, com sua experiência dos tempos de sindicalista, saiu do encontro com a linguagem resolvida sobre o Conselho de Segurança.

Já a questão de moedas locais ficou pendente. A India é que se opunha enquanto a China, Brasil e Rússia estavam a favor. Rússia e China já tem boa parte do intercâmbio bilateral em moedas locais.

O impasse para abrir o ‘diálogo técnico’ sobre moedas nacionais, na expressão de um negociador, só foi solucionado pelos ministros no dia seguinte, pouco antes da conferencia de imprensa dos presidentes.

Na definição dos países que seriam convidados a se tornarem membros do grupo, a Rússia tomou a iniciativa de propor o Irã, segundo uma fonte. A India, ao contrário do que alguns imaginavam, não vetou os iranianos.

Por sua vez, a Indonésia confirmou que preferia não entrar agora no grupo, porque tem outras tarefas regionais.

Por sua vez, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, fez um apelo para ser incluído no Brics um país da África subsariana. A escolha ficou então entre o Senegal e a Etiópia. A decisão foi de convidar a Etiópia, que abriga a sede da União Africana, ponto central da diplomacia no continente. O país tem a China e a Rússia como seus maiores parceiros comerciais.

O Brasil defendeu a entrada da Argentina como representante da América Latina. Os outros países da região que pediram para entrar são a Venezuela, Cuba, Honduras e Bolívia.

Ao final da cúpula, a declaração dos líderes trás no seu paragrafo 7: ‘Apoiamos uma reforma abrangente da ONU, incluindo seu Conselho de Segurança, com o objetivo de torná-la mais democrática, representativa, eficaz e eficiente, e de aumentar a representação dos países em desenvolvimento entre os membros do Conselho, para que ele possa responder adequadamente aos desafios globais predominantes e apoiar as aspirações legítimas dos países emergentes e em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina, incluindo o Brasil, a Índia e a África do Sul, de desempenhar um papel mais importante nos assuntos internacionais, em particular nas Nações Unidas, incluindo seu Conselho de Segurança’.

O lado brasileiro comemorou como um avanço a menção ao Brasil, India e Africa do Sul de desempenhar papel mais importante na ONU ‘incluindo seu Conselho de Segurança’.

Já para certos negociadores, isso não significa que a China mudou de posição. Uma fonte conta que os chineses barraram recentemente até uma torre em Xangai em que haveria um logo em forma esférica que viram como parecida à bandeira do Japão. Mandaram que fosse substituída para algo mais quadrado.

Quando o então presidente dos EUA, Barack Obama, visitou a India, deixou claro que Washington apoiaria a entrada da India no Conselho de Segurança. Só que, como a China é contra a expansão do conselho, os EUA tem todos os benefícios de dar apoio, sem onus, porque sabe do veto chinês.

O paragrafo 45 da declaração dos líderes afirma: ‘Reconhecemos os benefícios generalizados de sistemas de pagamento rápidos, baratos, transparentes, seguros e inclusivos. Aguardamos com expectativa o relatório da Força-Tarefa de Pagamentos do Brics (BPTF) sobre o mapeamento dos vários elementos do Roteiro do G20 sobre Pagamentos Transfronteiriços nos países do Brics. Acolhemos o compartilhamento de experiências dos membros do Brics sobre infraestruturas de pagamento, incluindo a interligação de sistemas de pagamento transfronteiriços. Acreditamos que isso aumentará ainda mais a cooperação entre os países do Brics e incentivará mais diálogos sobre instrumentos de pagamento para facilitar os fluxos de comércio e investimento entre os membros do Brics, bem como entre outros países em desenvolvimento. Ressaltamos a importância de incentivar o uso de moedas locais no comércio internacional e nas transações financeiras entre os Brics e seus parceiros comerciais. Também incentivamos o fortalecimento das redes de correspondentes bancários entre os países do Brics e a viabilização de liquidações nas moedas locais’.

O paragrafo seguinte diz: ‘Encarregamos nossos Ministros das Finanças e/ou Governadores de Bancos Centrais, conforme apropriado, de considerar a questão das moedas locais, instrumentos e plataformas de pagamento e nos informar até a próxima Cúpula’.

FONTE: GLOBO.COM