G20 na India: China e Rússia endurecem posição sobre a Ucrânia | Assis Moreira

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O presidente da China, Xi Jinping, não planeja comparecer à cúpula do G20 na semana que vem, em Nova Deli, conforme as últimas indicações. O presidente russo Vladimir Putin, isolado na cena internacional, já tinha avisado que não iria à capital indiana.

Os relatos são, de um lado, que a China tem feito tudo para não facilitar os trabalhos e evitar que a India venha a colher triunfo na presidência rotativa do G20, ilustrando o tamanho da deterioração das relações entre Pequim e Nova Deli.

Por sua vez, Putin corria o risco de, ao sentar na mesa dos líderes, ver os representantes do G-7 (EUA, Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália e Canadá, alem da União Europeia) abandonarem a sala de reuniões. Isso ocorreu repetidas vezes em reuniões ministeriais em protesto contra a invasão da Ucrânia pelas forças russas.

Xi Jinping, Vladimir Putin — Foto: Mark Schiefelbein/AP
Xi Jinping, Vladimir Putin — Foto: Mark Schiefelbein/AP

Desta vez, a dez dias da cúpula que está se esvaziando, os países que formam esse grupo sequer começaram a negociação dos parágrafos do comunicado sobre justamente a guerra na Ucrânia, que só será publicado se houver consenso entre os líderes.

Em novembro do ano passado, em Bali (Indonésia), na primeira cúpula do G20 desde o começo da guerra na Ucrânia, houve um comunicado dos líderes, para surpresa de muitos.

Agora, porém, a linguagem acordada em Bali não é mais base aceitável para a Rússia e a China e rejeitam termos dos parágrafos 3 e 4 do comunicado dos líderes em Bali com duras críticas à invasão russa.

No parágrafo 3, o comunicado, que teve o sinal verde da Rússia e da China, deplorava ‘nos termos mais fortes a agressão da Federação Russa contra a Ucrânia e exige sua retirada completa e incondicional do território da Ucrânia. A maioria dos membros condenou veementemente a guerra na Ucrânia e enfatizou que ela está causando imenso sofrimento humano e exacerbando as fragilidades existentes na economia global – restringindo o crescimento, aumentando a inflação, interrompendo as cadeias de suprimentos, aumentando a insegurança energética e alimentar e elevando os riscos à estabilidade financeira. Havia outros pontos de vista e diferentes avaliações da situação e das sanções. Reconhecendo que o G20 não é o fórum para resolver questões de segurança, reconhecemos que as questões de segurança podem ter consequências significativas para a economia global’.

O parágrafo 4 reiterava que era ‘essencial defender o direito internacional e o sistema multilateral que protege a paz e a estabilidade. Isso inclui a defesa de todos os propósitos e princípios consagrados na Carta das Nações Unidas e a adesão ao direito humanitário internacional, incluindo a proteção de civis e da infraestrutura em conflitos armados. O uso ou a ameaça de uso de armas nucleares é inadmissível. A resolução pacífica de conflitos, os esforços para lidar com crises, bem como a diplomacia e o diálogo, são vitais. A era atual não deve ser de guerra’.

A Rússia e a China dizem agora que a situação mudou, sem entrar em detalhes.

Na verdade, no G20 a surpresa não é porque a Rússia rejeita os mesmos termos do comunicado do ano passado. A grande pergunta é porque concordou com o texto em Bali, quando Putin também estava ausente e foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

Há muita especulação, por exemplo sobre braço de ferro naquele momento no interior do regime de Putin.

Em Nova Deli, negociações previstas para durar de segunda a quarta-feira vão focar principalmente na questão da Ucrânia. Mas as chances de declaração consensual, como chegou a ocorrer no ano passado, parecem diminuir ainda mais.

A expectativa sobre o G20 é grande, mas o grupo das maiores economias do mundo não negocia nada. Seus líderes dão o impulso político para certos temas, o que de toda maneira já não é pouco.

Em Nova Deli, deverá ser criado um grupo de trabalho para empoderamento das mulheres. E a União Africana deverá ser anunciada como novo membro do grupo, que passa assim de 20 a 21, como a coluna já revelou. Outros temas serão reciclados.

A guerra na Ucrânia tende a concentrar boa parte das atenções também no ano da presidência do Brasil no G20 a partir de dezembro.

FONTE: GLOBO.COM