Como fazer uma boa gestão de pessoas? | Carreira

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>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

“Trabalho em uma multinacional há alguns anos e acabei de ser promovida a gerente. É a primeira vez que ocupo esse cargo e tenho bastante experiência na minha área, mas não tanto com pessoas. Quais seriam as primeiras ações a colocar em prática em relação à gestão de pessoas?” Engenheira, 34 anos

Quero começar meu texto dizendo que amei essa pergunta! Sinto que terei a oportunidade de contribuir com o desenvolvimento de pessoas que, assim como eu, não fizeram parte de um programa de trainee ou algo parecido.

Um ponto importante a ser dito é que inevitavelmente trarei minha experiência pessoal nas linhas a seguir…

Me lembro claramente de um momento de catarse que tive alguns dias após ser promovida como gerente de RH. Tinha acabado de sair de uma reunião com o meu chefe na época, diretor administrativo e RH. A conversa não foi das melhores: ele só me fez cobranças sobre o time, operação, deadlines, políticas, etc. Não tive nenhuma orientação, apenas cobranças!

Saí da sala dele com todas as anotações feitas e de-ses-pe-ra-da para responder às cobranças o mais rápido possível. Afinal, rapidez é uma skill muito exigida para os cargos de gestão. Durante o caminho da sala do meu chefe até a minha mesa, precisei fazer uma parada no banheiro para respirar e, enquanto estava na cabine respirando fundo, me fiz uma das perguntas mais honestas da minha carreira: “Qual é a vantagem de ser promovida?”.

Dani Jesus lembra que é preciso lembrar que as pessoas partem de diferentes pontos e que o líder pode ser o grande amplificador de oportunidades que contribuam para que elas se desenvolvam — Foto: Freepik
Dani Jesus lembra que é preciso lembrar que as pessoas partem de diferentes pontos e que o líder pode ser o grande amplificador de oportunidades que contribuam para que elas se desenvolvam — Foto: Freepik

Ok! Sabemos que quando uma promoção para gerência acontece, você tem um percentual de reajuste salarial que pode variar até 40%. A empresa geralmente oferece um pacote de benefícios tangíveis, além de dar acesso ao plano de desenvolvimento de leadership. E, claro, você terá o tão sonhado – por alguns – “status” dentro da companhia. Até aí, show de bola! Mas o que ninguém conta é o quão desafiador é deixar de gerenciar a si mesmo para gerenciar outras pessoas e processos.

E é nesse trecho da travessia que muitas pessoas se perdem como excelentes especialistas e acabam se transformando em más gestoras.

No momento em que eu respirava fundo na cabine do banheiro, me veio forte a seguinte frase: “O real não está na saída e nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, Guimarães Rosa.

Então, a partir desse pensamento, tomei a decisão de empreender minha jornada como líder e, assim, responder honestamente à minha pergunta.

Podemos considerar que essa travessia como líder me gerou alguns aprendizados:

1. Líder e gerente são dois bichos diferentes

A habilidade de gerenciar processos, objetos, patrimônio, dinheiro, entre outros, pode ser desempenhada por qualquer um com um pouco de treino e prática. Mas o talento de liderar pessoas requer além de treino e prática, que você tenha fé nas pessoas que fazem parte do seu time.

Você precisa acreditar que as pessoas que trabalham contigo serão capazes de romper o cercadinho das suas limitações e adentrar o mundo das suas potências. E é sobre fé justamente porque as pessoas partem de diferentes pontos. Afinal de contas, vivemos num país que – ainda – não consegue promover igualdade de oportunidades. E você como líder – e não somente como gerente – poderá ser o grande amplificador de oportunidades que contribuam para que essas pessoas desenvolvam as entregas mais extraordinárias de suas vidas.

O trabalho deveria ser o lugar de maior reafirmação de potência das pessoas.

Minha premissa básica é: só trabalho com quem confio!

Eu sou uma estudiosa das filosofias africanas, e a confiança é um ponto comum na cultura de vários grupos étnicos. Vejam a filosofia Ubuntu, por exemplo. “Eu sou porque nós somos”. Ela não seria tangível se a confiança pelo outro não fosse o fio condutor.

Construir confiança com as pessoas que estão no seu time perpassa por entender o currículo oculto delas, escutar sobre o que elas desejam, e compartilhar as vulnerabilidades – suas e delas. A vulnerabilidade aproxima as pessoas, justamente por serem humanos interagindo.

O ecossistema Futuro da Coisas deu um spoiler no 1º de maio de 2023 dizendo que a próxima revolução do trabalho será a da sensibilidade. E, particularmente, concordo muito!

Estamos caminhando para um mundo muito automatizado e digital. Líderes que se conectem com o sentir serão valiosos no mercado e na vida.

Se conectar com o futuro exigirá desse líder compreender quais competências precisarão ser desenvolvidas no perfil das pessoas do seu time.

Com base em tendências e análises sócio culturais, e na cultura da própria empresa, esse líder pode identificar características, que não necessariamente, apenas técnicas.

Em um mundo cada vez mais digital e integrado será necessário que as pessoas sejam mais nexialistas, ou seja, capazes de estabelecer as conexões necessárias para resolver problemas que surjam no dia a dia.

4. Alguém já navegou por essas águas antes

Aprendemos muito com a vivência do outro, por isso é importante buscar ferramentas disponíveis para acelera a nossa construção como líder.

Escolher um mentor ajustado ao seu propósito de carreira te servirá como uma bússola. Ele sempre terá um ponto de vista de um lugar que você ainda não chegou e contribuirá demais com seus próximos passos. É como ganhar vantagens numa fase mais desafiadora do videogame.

Pode até parecer “démodé”, mas os livros trazem também um “step by step” muito útil. Em uma era de 15 segundos de atenção, indicar dois livros pode parecer uma afronta – , mas bora lá com os que me ajudaram muito na minha transição para a Wieden + Kennedy como head de RH:

  • Os primeiros 90 dias, de Michael Watkins.
  • Pipeline de liderança, de Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel.

Por último, e não menos importante: faça terapia! Seja especialista sobre as suas questões para que, assim, você possa liderar suas emoções.

A autoliderança está intimamente ligada ao sucesso da condução da sua carreira e da sua vida.

Daniele Jesus é psicóloga, ativista, criadora do Currículo Oculto e apaixonada por cultura, gestão de pessoas, diversidade, equidade e inclusão.

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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

FONTE: GLOBO.COM