A decisão dos auditores da BDO RCS de abster-se de opinião sobre as demonstrações financeiras da Americanas foi baseada em dois pontos principais: as dúvidas em relação à continuidade operacional da companhia e à impossibilidade dos profissionais confirmarem alguns dos dados do balanço.
A avaliação é de Eliseu Martins, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP). “No relatório, os auditores afirmam que há muitos saldos de contas, de ativos e passivos, que eles não conseguiram informações suficientes”, diz.
A leitura que pode ser feita, segundo Martins, é que os controles internos não foram suficientes para dar a base de informação necessária para eles terem uma opinião. “Isso não significa que os auditores acreditam que está tudo errado. Se fosse isso, eles teriam que dar uma opinião adversa”, diz.
Segundo Martins, é esperado que em casos como o da Americanas os auditores se mostrem “ainda mais prudentes e conservadores”, considerando a situação delicada da companhia. “O auditor, por definição, deve ser mais cético que a empresa e é isso que nós vemos. A administração se sentiu confiante nos números para apresentá-los, mas o auditor não chegou a esse ponto.”
No relatório que acompanha as demonstrações financeiras, os auditores afirmam que não foi possível reunir evidências para concluir “se a utilização do pressuposto de continuidade operacional é apropriada”, tampouco quais seriam os efeitos sobre os saldos dos ativos, passivos e elementos componentes das demonstrações financeiras se esse pressuposto não fosse considerado.
A auditoria também diz que não pôde confirmar os estoques. A tarefa se tornou mais difícil porque a BDO RCS foi contratada após 2022 e não acompanhou o procedimento de contagem física. No relatório, o auditor afirma que não foi possível concluir essa checagem por “meios alternativos”.
A auditoria para confirmação de saldos de 2022 foi feita por meio de consultas a instituições financeiras, que não enviaram todas as respostas.
Em relação aos números de 2021, a auditoria afirma que não foram apresentadas composições e análises suficientes nem documentos e base de dados que permitissem a reunião de evidências sobre os dados de fornecedores, adiantamentos recebidos de clientes, outros passivos circulantes e outros passivos não circulantes.
Procurada pela reportagem, a BDO disse que não comenta assuntos relacionados a clientes. A Americanas afirmou que a abstenção de opinião que foi apresentada “se dá pela companhia estar essencialmente em recuperação judicial” e que “a regulamentação, nesses casos, exige abstenção de opinião enquanto a companhia não aprovar seu plano de recuperação judicial”.
“Com exceção do estoque, que contém ressalvas pelo fato da contratação do auditor ter acontecido em período subsequente e será regularizado em dezembro de 2023, todos demais pontos de 2022 foram auditados sem ressalvas”, diz a varejista em nota.
A norma de auditoria que trata da continuidade operacional (NBC TA 570) não exige que, em caso de RJ, haja abstenção de opinião.
Essa norma requer que o auditor avalie se as divulgações requeridas pelas normas de contabilidade (CPCs e IFRS) estão sendo atendidas e geralmente nesses casos o relatório do auditor inclui uma seção separada sob o título “Incerteza significativa relacionada com a continuidade operacional”, sem necessidade modificar sua opinião.
No entanto, essa norma também prevê que, em situações que envolvem múltiplas incertezas que são significativas para as demonstrações contábeis como um todo, o auditor pode considerar apropriado, em casos extremamente raros, expressar uma abstenção de opinião. A norma NBC TA 705, sobre modificações na opinião do auditor, diz se tratar de “uma questão de julgamento profissional do auditor” que deve ser avaliada caso a caso.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/U/t/UpYvTKRb26ZjNlOUxXog/foto05emp-101-americanas-b6.jpg)







