Presidente do conselho de administração da Bardella, do setor de bens de capital, Claudio Bardella morreu na sexta-feira (3), aos 85 anos. O empresário também foi um dos fundadores e conselheiro do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Bardella assumiu a presidência da Bardella Indústrias Mecânicas no princípio dos anos 1970, quando seu pai, Aldo, adoeceu. Já havia alguns anos, ainda antes de formar-se em engenharia, era diretor na empresa fundada em 1911 pelo avô, Antonio Bardella.
Sob sua liderança, a fabricante de bens de capital tornou-se nome de destaque no setor, com acentuada projeção nos anos 1970. É quando ele se torna presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base – Abdib (hoje, Associação Brasileira da Infraestrutura e das Indústrias de Base), cargo em que permaneceu de 1973 a 1977. Foi um período assinalado pela formulação e execução do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), em que a entidade, onde se reuniam figuras importantes do empresariado, exerceu forte influência política em defesa da indústria brasileira.
A Bardella tinha sido uma das sete empresas fundadoras da Abdid, em 1955. A entidade vinha crescendo desde o princípio dos anos 1960. Em 1964, tinha 35 associados. Dez anos depois, eram 89 as empresas filiadas.
Iniciou-se com o II PND um período de ainda mais estreita identificação das elites empresariais com o governo militar, materializada na articulação de interesses em torno dos programas de substituição de importações, financiados por farto crédito oficial oferecido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), que em 1982 ganharia o “S”, de social, tornando-se o BNDES. Os fabricantes de bens de capital podiam, assim, atender à demanda de máquinas e equipamentos resultante dos investimentos de empresas estatais, baseados, por sua vez, em intensa captação de recursos externos.
Em seu livro “Brazilian Industrialists and Democracy Change” (Johns Hopkins University, 1994), Leigh A. Payne procura mostrar que as elites industriais brasileiras, ao apoiar o golpe militar de 1964, não estavam necessariamente inclinadas a manter essa sustentação a qualquer custo. Queriam a estabilidade política, em linha com tendência antiga, fosse qual fosse o regime, desde que tivessem seus interesses atendidos. Não por outra razão, anos depois, deram apoio à transição para a democracia, reposicionamento que transparece na história da Abdib e ajuda a explicar atitudes de Bardella e outros empresários reunidos na entidade.
O relacionamento da Bardella com o BNDE vinha de bem antes da cooperação fundamentada no II PND. “Nós iniciamos os contatos a partir da data em que o BNDE começou a trabalhar com empresas privadas, em junho de 1964. Apresentamos um plano de viabilidade de expansão da Bardella, que nunca tinha recorrido a créditos oficiais para sua expansão”, segundo depoimento, em dezembro de 1982, para o livro “Memórias do Desenvolvimento”, do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.
Em 1974, Bardella foi convidado a integrar o conselho da Embramec – Mecânica Brasileira, subsidiária criada naquele ano para fornecer capital de risco a empresas do setor, mediante participação acionária. Estariam a seu lado, entre outros membros do conselho, os empresários Paulo Villares (Indústria Villares), Giordano Romi (Indústrias Romi) e Luís Eulálio Bueno Vidigal (Cobrasma). Naquele ano, o BNDE criou outras duas subsdiárias: a Ibrasa – Investimentos Brasileiros e a Fibase – Financiamentos e Insumos Básicos, ambas para aportes de capital de giro, de cujos conselhos participavam outros importantes empresários brasileiros. Completava-se, assim, a base de sustentação financeira do II PND (a Agência Especial de Financiamento Industrial – Finame, que também teria papel relevante, havia sido criada em 1965).
Não foi sempre harmoniosa, porém, a convivência entre empresários e governo. Divergências vieram à tona, especialmente em aspectos relacionados à ausência de medidas mais expressivas de proteção à indústria nacional, que se acentuaram com a redução dos investimentos em infraestrutura e revisão de metas do II PND. É quando a Abdib avança nas críticas às políticas governamentais e as estende à contestação do regime político.
Nesse cenário conturbado, Bardella foi eleito líder principal do setor privado no Fórum Gazeta Mercantil, em julho de 1977, primeiro ano em que a revista “Balanço Anual”, recém-criada, realizava a escolha de nomes de liderança reconhecida entre os empresários de vários segmentos.
Meses depois, discursando na IV Conferência Nacional das Classes Produtoras, realizada no Rio de Janeiro, que tinha sido aberta pelo presidente Ernesto Geisel, Bardella disse que queria uma democracia e um liberalismo sem adjetivos (para Geisel, a democracia deveria ser “a possível” e “responsável”). Defendeu relações mais estreitas entre o empresariado e outros setores da sociedade e reivindicou participação de todos nos processos decisórios do governo.
Eleito em segundo lugar, Severo Gomes (ex-ministro da Indústria e do Comércio, conhecido por suas posições nacionalistas, demitido em fevereiro daquele mesmo ano por Geisel), afirmou em seu discurso: “Importa que a sociedade possa controlar o Estado e não vice-versa, como é o caso no momento. E, se assim deve ser, há apenas um caminho – a correção da política. A democracia é a única solução”. José Mindlin defendeu o direito dos trabalhadores à greve.
O clima de insatisfação culminou com a divulgação, em julho de 1978, do “Documento dos Oito”, manifesto em que Bardella e outros sete líderes empresariais do Fórum Gazeta Mercantil teciam críticas à política econômica, reclamavam participação ativa na formulação de uma política industrial que fortalecesse a empresa nacional e faziam a defesa do respeito a princípios inerentes à democracia (no ano anterior, o governo editara um conjunto de medidas de restrição eleitoral, o “pacote de abril”, com que procurava garantir maioria, no Congresso, a seu partido, a Arena). Os outros signatários eram Antônio Ermírio de Morais, Paulo Villares, Jorge Gerdau Johanpeter, José Mindlin, Laerte Setubal Filho, Paulo Vellinho e Severo Gomes.
Em agosto de 1983, em mais um momento político crítico, quando o movimento por eleições diretas ganhava as ruas, Bardella estava entre empresários do Fórum Gazeta Mercantil que assinaram um documento, entregue ao presidente da República em exercício, Aureliano Chaves, contendo propostas para a superação da crise econômica, com retomada do crescimento e do emprego. Era acompanhado de signatários do manifesto de 1978 — Antonio Ermírio de Moraes, Laerte Setúbal filho, Jorge Gerdau Johanpeter, José Mindlin, Paulo Vellinho, Paulo Villares, Severo Gomes – mais José Ermírio de Moraes Filho e Manoel da Costa Santos e Abílio Diniz.
Em 1989, Bardella foi um dos fundadores do Iedi. Em nota divulgada neste sábado (40, os conselheiros do Iedi externaram o seu pesar pela morte de Bardella, descrito como “destacado empresário do País e grande formulador de ações e políticas para o desenvolvimento da economia brasileira e da indústria nacional”.







