Prisão de Zinho abre pistas para mandantes da morte de Marielle e sela palanque do Rio em 2024 | Política

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A prisão de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, na noite de Natal não se encerra na disputa pela liderança das milícias do Rio. Pode ter desdobramentos no esclarecimento dos mandantes da morte da vereadora Marielle Franco de seu motorista Anderson Gomes, na reaproximação entre o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), e o bolsonarismo e ainda na sucessão no Ministério da Justiça.

Ao fazer o balanço de sua gestão na Pasta no dia 21, o ministro Flávio Dino disse, assertivo, que o Brasil estava mais próximo de conhecer os mandantes: “Afirmo, com a autoridade de quem acompanha a evolução neste ano pretérito, que haverá solução do caso Marielle e Anderson. Demos a diretriz e ela será cumprida. A Polícia Federal tem uma equipe dedicada a isso”.

Naquele momento, o Ministério da Justiça já tinha informações de que as negociações entre a Polícia Federal e o miliciano para sua entrega já havia se iniciado. Não foi o único indício, mas as tratativas reforçaram, na cúpula do MJ, a visão de que o esclarecimento da morte esteja mais próximo.

Por isso, a segurança de Zinho, que está na penitenciária de Bangu I, onde outros milicianos estão presos, é hoje a maior preocupação do governo. A transferência para um presídio de federal não está descartada, mas a decisão depende dos interrogatórios que estão em curso. Zinho passou hoje pela audiência de custódia. O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Ricardo Capelli, diz que só o fato de o miliciano ter permanecido no Rio ao longo dos cinco anos em que está foragido, já demonstra o quanto tem a falar: “Ele não estava na Tailândia. Durante a maior parte desse tempo estava na casa dele. Só a rede de proteção de que desfrutou ao longo desse tempo mostra o quanto tem a falar”.

A morte de seu irmão, Wellington da Silva, o “Ecko”, e de seu sobrinho, Matheus Rezende, o “Faustão”, também lideranças da milícia, por policiais do Rio, também é vista por Capelli como decisiva para as tratativas que levaram o miliciano a se entregar à PF. Colaborou ainda para esta decisão o avanço das investigações sobre o braço político das milícias com a prisão, também por policiais federais, da deputada estadual Lúcia Helena Pinto de Barros (PSD).

Entre os milicianos de seu grupo que haviam sido presos nos últimos dias há um policial militar reformado, Antônio Lázaro, que já havia sido investigado pela morte da vereadora e de seu motorista pela participação em reuniões do “Escritório do Crime”, milícia do Rio à qual Ronnie Lessa e Elcio Queiroz, presos pela execução dos assassinatos, pertenciam. O ex-PM do grupo de Zinho foi preso, também pela PF, na operação do dia 19 que investigou a cobrança, pela milícia, de “taxas de segurança” por construtoras da zona Oeste do Rio.

A investida da Polícia Federal contra a milícia do Rio também levou a uma reconfiguração do cenário político do Rio. O governador Claudio de Castro, que, no início do governo, ensaiou uma aproximação com o governo Luiz Inácio Lula da Silva, foi resgatado pelo bolsonarismo. O lançamento da pré-candidatura à Prefeitura do Rio do ex-delegado da PF, ex-diretor da Agência Brasileira de Informação (Abin) e hoje deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), selou esta reaproximação.

O candidato do ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentará a candidatura à reeleição do prefeito do Rio, Eduardo Paes, que tem o PT do presidente da República na sua base de apoio. É a partir desta recondução ao cargo que Paes pretende se lançar ao governo do Estado em 2026.

A prisão de Zinho sela a atuação de forças federais no embate contra o crime organizado no Rio que, até então, havia sido marcado pela decretação da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos portos e aeroportos do Rio. A operação marca uma inflexão do governo em relação ao afastamento das Forças Armadas na segurança interna decidida a partir da tentativa de golpe de 8 de janeiro, quando houve leniência militar com a atuação dos vândalos.

Capelli, que assumiu a Secretaria de Segurança do Distrito Federal numa federalização alternativa a uma GLO, antecipa que o legado desta operação no Rio, que vai até maio deste ano, será a integração de instâncias civis e militares no combate ao crime organizado — Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, Marinha, Aeronáutica e Exército.

A capitulação do governo federal à GLO dos portos e aeroportos se deu em função das restrições fiscais que impedem a expansão dos efetivos da Polícia Federal. Nas contas de Capelli, a soma do efetivo da PF e da PRF dá 25 mil homens, o que corresponde à metade da Polícia Militar do Rio. Apesar da contingência fiscal que levou a esta operação, o secretário-executivo sugere que o modelo, que avalia bem-sucedido, pode ser estendido a regiões de fronteira.

Capelli foi destacado por Dino para coordenar as reuniões das forças civis e militares que atuam na GLO do Rio e também, pelo revezamento estabelecido com o ministro, está à frente da Pasta no recesso do fim de ano. É dele também a atribuição de montar o ato que marcará o primeiro ano da invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro. O secretário-executivo do MJ ganha protagonismo num momento decisivo para a sucessão de Flavio Dino.

Um ano atrás, na tarde de domingo em que os vândalos subiram a rampa do Palácio do Planalto, o presidente Lula estava desembarcando em Araraquara para visitar as vítimas de uma enchente na cidade. Desde esta terça-feira, quando a Polícia Federal faz a maior ofensiva para o desbaratamento das milícias e o esclarecimento do crime que, há seis anos, mobiliza o país, o presidente repousa na Base Naval da Restinga de Marambaia, que é separada por um braço de mar de Mangaratiba, praia em que a milícia da zona oeste do Rio lava dinheiro.

Miliciano Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho — Foto: Divulgação
Miliciano Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho — Foto: Divulgação

FONTE: GLOBO.COM