Posso redigir uma carta de recomendação usando o ChatGPT? | Carreira

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Com o avanço da inteligência artificial e a criação de ferramentas que processam a linguagem natural, será que é possível usar a IA para fazer uma referência profissional e enviar para vagas de emprego? Para João Marcio Souza, CEO da Talenses Executive e fundador do Talenses Group, do setor de recrutamento executivo, a IA pode ser usada para criar carta de recomendação profissional, otimizando o trabalho do RH e dos gestores.

O uso, no entanto, deve ser feito apenas por empresas e não por candidatos. Segundo o especialista, o candidato não deve criar uma carta de recomendação usando IA, mesmo que seja para unir textos de locais onde trabalhou. Souza explica que isso seria uma alteração da referência original da companhia, e modificar o conteúdo em uma IA é manipular a informação.

Apesar de poucas vagas exigirem atualmente carta de recomendação durante as seleções, alguns especialistas explicam que algumas empresas ainda solicitam o documento como uma das etapas do processo seletivo.

De acordo com a professora de gestão de pessoas da Fundação Getulio Vargas (FGV), Vanessa Cepellos, a carta serve para identificar o desempenho do profissional em relação às competências requeridas em uma experiência de trabalho anterior.

Souza explica que, de forma geral, o processo comum para vagas de todos os níveis pode usar a carta de recomendação profissional, enquanto o envio de referências profissionais ainda está muito ligado aos cargos de liderança, como gerência, diretoria, presidência.

Gestores podem usar IAs para criar carta de recomendação, mas uso deve ser moderado — Foto: Pexels
Gestores podem usar IAs para criar carta de recomendação, mas uso deve ser moderado — Foto: Pexels

“A partir da carta de recomendação, o contratante irá verificar a aplicação dos conhecimentos, habilidades e atitudes do candidato. [Por meio do documento] é possível ter acesso a informações sobre as competências técnicas, comportamentais, emocionais e, até mesmo, de relacionamento. A carta de recomendação certifica que o candidato cumpre os requisitos da vaga, portanto confere mais credibilidade”, explica Cepellos.

A emissão da carta ainda é uma conduta aplicada, na maioria das vezes, em casos de demissões amigáveis, como explica Souza. “Por exemplo, quando uma companhia precisa reduzir o quadro e demite um talento, a empresa se coloca à disposição e faz a carta”, relata. Cepellos descreve o documento como uma forma de a empresa apoiar o ex-funcionário em um processo de recolocação.

No caso de vagas que não solicitam a carta de recomendação, o envio é dispensável, de acordo com Souza. “É uma prática, mas deve ser utilizada quando solicitada. A carta serve como um endosso da boa reputação de mercado e da boa referência que o profissional poderia ter. Se não, fica parecendo autopromoção”, alerta.

Para uma carta de recomendação efetiva, Bruno Martins, CEO da consultoria Trilha Carreira Interativa, sugere que os profissionais tenham referências de pelo menos dois subordinados, dois pares e dois gestores. “O contratante ou a consultoria que está fazendo a seleção desse executivo vai entrar em contato com essas referências, que são checadas ao final do processo seletivo”, diz.

Ele ressalta que o mais importante da carta de recomendação é que ela traga os principais pontos positivos do profissional e que foram um diferencial para aquela empresa onde ele trabalhou. Além disso, é interessante dar destaque para algum projeto em que o profissional teve uma participação importante ou que acrescentou à estratégia da empresa.

Recomendações via LinkedIn

Atualmente, existem outras formas de conseguir “validação” de competências, como é o caso do LinkedIn. “Você vai investigar [o LinkedIn] para trazer bons candidatos para a mesa, já que é um grande banco de dados. Como é uma rede de relacionamento, você consegue encontrar referências na página do candidato como skills, habilidades comportamentais. São validações do candidato que você está avaliando”, explica Martins.

“Nós estamos na era da reputação. Além do LinkedIn, a verificação é ampliada, incluindo até o Instagram da pessoa para ver o comportamento digital”, lembra.

Na análise do especialista, as recomendações via LinkedIn melhoram o perfil do profissional e o valorizam, “mas não necessariamente o contratante vai buscar essa informação na rede”. Segundo ele, o que tem mais peso para o contratante é o contato por telefone que ele faz com as referências sugeridas pelo candidato para validar como realmente foi o trabalho do profissional naquela outra empresa. “Isso [a referência no LinkedIn] ajuda mais do ponto de vista profissional do que no processo de contratação”, esclarece.

Uso de IA – recomendado ou não?

No caso do RH que precisar fornecer uma carta de recomendação, as ferramentas de inteligência artificial sugerem templates, e é possível adaptar, pontua Souza. “É uma ferramenta de apoio para não precisar criar do zero. Isso agiliza o processo”.

Mas a criação usando IA exige cautela. Cepellos ressalta que o conteúdo da carta é altamente pessoal, e que é importante evitar o uso do Chat GPT ou outras IAs no momento de expressar a relação estabelecida entre o profissional que está solicitando a carta e quem está escrevendo, porque a IA não será capaz de reproduzir a vivência de forma genuína. Já em outras etapas do desenvolvimento da carta, o uso do ChatGPT e outras IAs podem contribuir, de acordo com a professora.

Alguns itens não podem faltar em uma carta de recomendação, em especial: como conheceu o candidato, em que situação trabalharam juntos, como foi o relacionamento de trabalho, quais foram as atividades realizadas pelo candidato na ocasião, como ele desenvolveu essas atividades, quais são os pontos fortes do candidato”, detalha Cepellos. “Em seguida, deve haver uma declaração sobre o motivo pelo qual o candidato é uma boa opção para a vaga. Por fim, é preciso inserir informações de contato de quem escreveu a carta, caso outras dúvidas surjam acerca do candidato.”

“A inteligência artificial pode contribuir nessa etapa da carta de recomendação, para que as informações inseridas possam ser apresentadas em um formato adequado. O ChatGPT contribui ao oferecer uma estrutura, um modelo”, continua.

Uma das cautelas, alerta a professora em relação ao uso da IA, é sobre o tom que a carta vai ganhar com a ferramenta. Ela explica que quando a carta é escrita por uma pessoa, expressa com mais assertividade a relação entre as partes e apresenta situações específicas que não seriam evidenciadas caso tivesse sido escrita pelo ChatGPT.

Para os especialistas, o uso da ferramenta pode tornar a carta genérica e impessoal, em termos de conteúdo e não explicitar com profundidade as experiências do candidato.

Cepellos sugere que a ferramenta pode ser utilizada após a carta ter sido escrita pela pessoa, para correção de gramática ou sugestões de como o texto pode ser apresentado em termos de estrutura para facilitar a leitura.

Já Martins pontua que é preciso compreender que a tecnologia é o pontapé inicial, mas que ajustes devem ser feitos. “A ferramenta ajuda a dar a velocidade na realização de projetos, mas é preciso que o documento retrate a realidade, seja personalizado para aquele candidato e represente fielmente o que o funcionário realizou na empresa”, adverte.

Para quem optar por usar IA na elaboração da carta de recomendação profissional, os especialistas elencaram dicas para um bom uso:

1. Inclua a narrativa sobre o período

Pontue quem está dando a referência, cargo, contatos, qual a relação de trabalho entre a referência e o referenciado, e o tempo da relação de trabalho; descreva a função do profissional, detalhe o período e se coloque à disposição para ser contatado;

Menos é mais. Procure escrever um texto de até uma página, com dois ou três parágrafos.

3. Verifique as informações

Verifique se os pontos que você destacou estão corretos, se as informações estão coerentes e condizentes com a relação estabelecida com o candidato e se a carta está expressando, de fato, as competências do candidato. Caso contrário, o texto poderá prejudicá-lo com informações que não fazem sentido e não expressam de forma fidedigna suas habilidades.

*Sob supervisão de Stela Campos.

FONTE: GLOBO.COM