Na revanche Biden-Trump, as duas opções são ruins para a China | Mundo

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A guerra comercial de Donald Trump com a China desgastou os laços econômicos entre as duas superpotências globais. Seus planos para um segundo mandato poderão cortá-los totalmente.

O ex-presidente está propondo uma tarifa de 60% sobre todas as importações chinesas. Isso reduziria o fluxo comercial de US$ 575 bilhões para praticamente nada, segundo mostram análises da Bloomberg Economics. E esta não é a única escalada que Trump tem em mente, se ele conseguir converter uma pequena vantagem nas pesquisas de intenção de voto sobre o atual presidente Joe Biden em uma vitória em novembro.

Para a economia da China e seu mercado de ações em queda — mais de 40% desde o pico alcançado em 2021 —, isso é uma má notícia. A retórica de Trump poderá aumentar a pressão sobre Biden para que ele adote medidas mais duras antes do dia das eleições.

O presidente sabe que a China vai influir nos votos e que uma posição dura em relação ao país é algo que comprovadamente rende votos. Biden pode não estar propondo nada tão drástico quanto as tarifas de Trump e seu governo já disse que não quer uma dissociação. Mas ele tem uma série de novas restrições sobre tudo que vai de fluxos de dados a veículos elétricos para escolher, e não terá de esperar até que os americanos compareçam às urnas antes de implementá-las.

Seja como for, três meses depois que a reunião de cúpula de Biden com seu colega chinês Xi Jinping em São Francisco baixou a temperatura nas relações, as eleições nos EUA significam que ela voltou a subir. Para os investidores, as propostas mais recentes de Trump poderão provocar flashbacks de seu primeiro mandato — quando os anúncios de política comercial postados a qualquer hora no Twitter podiam sacudir os mercados no mundo todo.

Em Pequim, autoridades afirmam não ter uma preferência clara sobre quem vai assumir o poder nos EUA. Embora Trump seja imprevisível e frequentemente agressivo, ele também gosta de firmar acordos e poderia minar os esforços de Biden para trabalhar com os aliados dos EUA, segundo disseram autoridades chinesas que pediram para ficar no anonimato por se tratar de um assunto sensível.

“Os dois são uma grande ameaça”, diz Sang Baichuan, professor da Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Pequim, e assessor do Ministério do Comércio da China.

A postura de Trump que coloca os EUA em primeiro lugar poderia criar oportunidades para “romper o círculo econômico anti-China”, diz Sang, citando a capacidade de Biden de alijar a China das cadeias de abastecimento tecnológicas. Mas de qualquer forma, Pequim enfrentará um presidente americano cuja estratégia geral é “excluir e conter o desenvolvimento da China”.

Respondendo na semana passada a uma pergunta sobre seu plano de tarifa de 60%, Trump disse que o objetivo é “trazer as empresas de volta para os EUA”. As tarifas de 25% no primeiro mandato já provocaram um buraco na receita que os exportadores da China obtêm com os mercados americanos. Tarifas de 60% transformariam esse buraco em uma cratera. Usando um modelo de economia global, a Bloomberg Economics estima que elas reduziriam a parcela das importações dos EUA que vêm da China — que atingiram o pico de cerca de 22% antes do começo da guerra comercial — para perto de zero.

O maior impacto recairia sobre os setores têxtil e eletrônico, que a China hoje domina e onde as reduzidas margens de lucro tornam impossível para as fábricas absorver o impacto da tarifa. O modelo da Bloomberg Economics mostra que o Sudeste da Ásia e o México absorveriam a maior parte desse desvio no comércio, com o deslocamento dos fluxos comerciais em torno das linhas geopolíticas. As empresas americanas de produtos eletrônicos sofreriam um golpe, uma vez que muitas delas fabricam seus produtos na China. E as companhias e os consumidores americanos acabariam pagando preços mais altos pelas importações.

As tarifas podem ser a proposta econômica mais apelativa da campanha de Trump, mas elas não são a única. O ex-presidente está sinalizando para novas proibições em ambas as direções dos investimentos EUA-China — uma área em que Biden já vem endurecendo as regras —, prometendo manter a China fora dos “setores essenciais” dos EUA e garantindo que o dinheiro americano não impulsionará a ascensão da China.

A China está “tomando nossas empresas em níveis que ninguém jamais viu”, disse Trump na quinta-feira. Sobre o plano de tarifas em um segundo mandato ele disse: “Ao fazer isso, traremos as empresas de volta, a produção de volta para os Estados Unidos”.

Em seguida, ele acusou o governo Biden, que manteve as restrições à China e acrescentou mais, de permitir que os ganhos americanos diminuíssem. “Agora, eles estão estragando tudo”, disse ele.

Promessas de campanha, especialmente quando seus impactos sobre o mundo real podem ser tão devastadores, nem sempre se traduzem em política de governo. Mesmo assim, se há uma lição do primeiro mandato de Trump, é que essa retórica contra a China tende a fazer exatamente isso.

Para Xi, a possibilidade de uma intensificação do conflito econômico com os EUA surge em um mau momento. Pequim já enfrenta um colapso do setor imobiliário que transformou o maior motor do crescimento em um grande obstáculo, e uma queda do mercado de ações que eliminou US$ 7 trilhões em riqueza. As autoridades econômicas de Xi recentemente intensificaram os intercâmbios com os seus colegas americanos e pretendem receber a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, em Pequim este ano, numa tentativa de estabilizar as relações com seu maior mercado de exportação.

Com Trump perto de garantir a nomeação republicana e à frente de Biden em importantes Estados indecisos, os investidores já se preparam para o impacto.

A ameaça de tarifa de 60% de Trump levou a uma grande queda nos preços das ações na China, de varejistas de preços baixos a fabricantes de painéis solares. Economistas do Goldman Sachs relatam que as implicações de uma vitória de Trump estão entre as perguntas mais frequentes de investidores em Pequim e Xangai.

Uma revanche entre Trump e Biden colocará o presidente que começou a guerra comercial contra aquele que ampliou seu alcance. Os dois argumentam que foram os mais duros com a China. Uma diferença importante é que a abordagem de Trump foi mais transacional — ele buscou um acordo comercial com a China programado para ajudar a sua campanha pela reeleição — e muitas vezes pareceu mais um esforço individual. Ele iniciou contenciosos comerciais com aliados americanos e também com adversários, e tem planos de adotar medidas punitivas para a Europa em um segundo mandato.

Por outro lado, Biden formou uma coalizão mais ampla para as suas políticas, invocando um interesse comum em evitar que a China seja capaz de minar a liderança mundial exercida pelos EUA. Ele conseguiu convencer as autoridades na Holanda e no japão a ajudarem a restringir o acesso da China à tecnologia de semicondutores, limitando as vendas para o país de produtos de empresas importantes como a ASML Holdings, a gigante holandesa que fabrica maquinário para a produção de chips.

O alinhamento da China com a Rússia antes e durante a invasão da Ucrânia ajudou a fortalecer o argumento dos EUA. Os aliados europeus, que até então viam a China mais como uma oportunidade de mercado do que uma ameaça geopolítica, começaram a prestar mais atenção nos alertas dos EUA — incluindo o risco de uma invasão de Taiwan.

Alguns aspectos do impacto são mensuráveis. A Bloomberg Economics estima que as exportações da China para os EUA estão US$ 160 bilhões abaixo do que estariam se as tarifas de Trump nunca tivessem sido impostas. Outros, como o efeito sobre a confiança, são mais difíceis de avaliar.

O efeito geral, porém, é claro e negativo, contribuindo para a queda do crescimento da China e para a piora da avaliação nos conselhos de administração das empresas e das ações em Wall Street. (Tradução de Mario Zamarian)

Donald Trump e Joe Biden — Foto: Patrick Semansky/AP Photo
Donald Trump e Joe Biden — Foto: Patrick Semansky/AP Photo

FONTE: GLOBO.COM