Três vezes mais risco: como a desigualdade social agrava os transtornos mentais

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Ansiedade, depressão e sintomas psicóticos são mais frequentes entre os mais pobres, revelam relatório da ONU e estudo brasileiro, que reforçam o vínculo entre sofrimento psíquico e falta de direitos básicos

Um relatório da Organização das Nações Unidas, chamado “Economia do Burnout: Pobreza e Saúde Mental”, revela que pessoas em situação de vulnerabilidade têm três vezes mais chances de desenvolver transtornos como ansiedade e depressão.

O documento aponta a desigualdade social como um dos principais fatores por trás do adoecimento mental, afetando não apenas os mais pobres, mas também gerando insegurança entre as classes médias, que vivem sob constante medo de queda econômica.

De acordo com Olivier De Schutter, relator especial da ONU e autor do relatório, a obsessão pelo crescimento econômico e a precarização das relações de trabalho levam a jornadas exaustivas e instabilidade profissional.

Trabalhadores de aplicativos, por exemplo, enfrentam rotinas imprevisíveis, que dificultam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional – um ambiente propício ao desenvolvimento de quadros de ansiedade e depressão.

Outro ponto de atenção é a chamada ansiedade climática. Eventos extremos, como inundações e secas, afetam diretamente a subsistência de famílias em áreas de risco, o que amplia a insegurança financeira e emocional.

Exclusão social e transtornos psicóticos

No Brasil, os impactos da desigualdade na saúde mental foram analisados em profundidade por um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na revista Nature Cities, liderado por Fernando Malinowski e orientado pelo professor Ary Gadelha.

Na pesquisa, são observados os fatores de agravamento de sintomas psicóticos, como os da esquizofrenia, entre moradores de favelas paulistanas. A exclusão social, segundo os autores, é um fator relevante para a piora dos quadros clínicos.

Violência, ausência de infraestrutura, falta de serviços básicos e estigma social intensificam o sofrimento psíquico e contribuem para o desenvolvimento de transtornos mentais mais graves: “O problema não é morar na favela, mas, sim, as condições a que essas pessoas estão submetidas e como a sociedade se relaciona com esses territórios”, explica Malinowski.

O estudo aponta que, mesmo ao isolar variáveis como renda, escolaridade e raça, os resultados seguem estatisticamente significativos, indicando haver uma urgência em políticas públicas voltadas para o cuidado em saúde mental nas comunidades marginalizadas.

Caminhos possíveis para o cuidado

Diante deste cenário, uma das propostas discutidas pelo relatório da ONU é a implementação de políticas estruturantes, como a renda básica universal e o fortalecimento da economia solidária. Além disso, destaca-se a importância da ampliação dos serviços de saúde mental em regiões socialmente excluídas.

Neste contexto, alternativas como o atendimento com um psicólogo online se mostram uma solução mais viável que oferece suporte acessível e flexível a quem não consegue custear sessões presenciais ou se deslocar com frequência.

A modalidade pode ser essencial para democratizar o acesso ao cuidado psicológico, sobretudo em locais com baixa oferta de profissionais especializados. Mesmo assim, especialistas alertam para a necessidade de uma abordagem integrada, que envolva atenção primária, serviços especializados e articulação com políticas sociais.

Urgência de um novo olhar

As evidências científicas e os relatórios internacionais convergem em um ponto central: a saúde mental não pode ser dissociada das condições sociais e econômicas. Em tempos de crise, são os mais pobres que adoecem primeiro – e com mais intensidade. Saúde mental é um direito, e o acesso a ela deve ser universal. Garantir o acesso é, antes de tudo, uma questão de justiça social.