Autoras negras ampliam representação na literatura de Juiz de Fora

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Autoras livro Vozes Negras na Literatura de Juiz de Fora Divulgacao
Da esquerda para a direita, na primeira fila: Denise, Naiara, Ana, Helenice, Lucimar Brasil. Na segunda fila: Ariele, Vanda, Rosa, Lucimar Silvério e Nilva (Foto: Divulgação)

Promovendo um encontro entre histórias, corpos e tempos, o livro “Vozes Negras na Literatura de Juiz de Fora”, com lançamento neste sábado (29), às 18h30 no Anfiteatro AICE no Mercado Municipal, reúne dez mulheres que transformam suas vivências em palavra e criação.

A proposta é incentivar uma leitura que valorize o poder das palavras na construção da existência, da resistência e da reinvenção de percursos. A coletânea apresenta textos de diferentes gêneros e, embora seja marcada pela ficção, toma as vivências das escritoras como referência, inclusive nas narrativas ficcionais. “Tem muita ficção também, mas acaba tendo um pouquinho da vivência da mulher negra ali, e aí traz muito a partir do que elas vivenciam também”, afirma Ana Torquato, curadora da obra.

Ao completar dez anos de carreira, Ana conta que decidiu comemorar a trajetória dividindo, pela primeira vez, as páginas de um livro com outras mulheres. Ela relata que sentia uma cobrança pessoal por não participar de coletivos e, diante das perguntas recorrentes sobre sua ligação com esse tipo de grupo, passou a amadurecer a ideia de organizar a coletânea. Dessa inquietação, nasceu a obra composta por textos de mulheres negras.

A autora também explica que o tema ganhou ainda mais força a partir de de seu livro “Essência Menina Mulher Preta”, lançado em 2022, inspirado em sua família e construído a partir da escuta de suas histórias. Com a repercussão positiva do título, consolidou-se o desejo de reunir outras mulheres negras para que elas mesmas escrevessem e registrassem suas narrativas, em vez de terem suas histórias contadas por outras pessoas.

Com o grupo criado em junho de 2024, Ana conta que os convites surgiram a partir de amizades e reencontros proporcionados pelas redes sociais. O que antes era apenas um plano, ganhou forma e vida. O projeto foi viabilizado pela Lei Murilo Mendes. 

Embora todas as autoras sejam residentes de Juiz de Fora, Ana acredita que a obra ultrapassa as fronteiras do município e amplia o debate. “Justamente pelo fato de serem mulheres negras. Se a gente olhar para a história, a negritude foi impedida de existir. Não se enxerga a população negra como capaz de produzir um livro. Foi impedida de escrever, de ler. Então, esse livro conversa não só com a população de Juiz de Fora, mas, de maneira geral, como uma possibilidade de que as pessoas também podem existir na escrita, independente da cor da pele, na literatura”, afirma.

Capa livro Divulgacao

Trajetórias que se encontram na mesma página

Com Ana Torquato, Ariele Sousa, Denise Nascimento, Helenice Ana Lopes, Lucimar Brasil, Lucimar Silvério, Mutala Ambizu (Naiara Santos), Nilva Regina de Souza, Rosa Maria Pereira Penna e Vanda Ferreira, a coletânea reúne vozes de diferentes trajetórias, mas com pontos de encontro semelhantes.

Com mais de 30 anos de carreira no jornalismo e na produção de crônicas e textos em seu blog, Lucimar Brasil destaca que participar da criação de um livro marca um momento singular em sua trajetória. “De fato, essa é a minha primeira experiência em livro e fazê-la coletivamente ganha ainda mais sentido”, afirma. A autora explica que o texto que assina na obra, “O curioso caso de uma estranha criatura”, é resultado das muitas mulheres que já foi e que, juntas, celebram 20 anos de um “novo tempo”, inaugurado a partir de um mergulho profundo, doloroso e amoroso em suas próprias raízes.

Ela conta que sempre teve curiosidade em descobrir quem era essa “criatura original” que chegou ao mundo antes de ser moldada por crenças familiares, sociais e religiosas. Nesse processo, compara si mesma a alguém que vai retirando camadas para alcançar o que é primordial, num exercício exigente, mas recompensador pelas descobertas que surgem no caminho. Hoje, diz se reconhecer nesse encontro consigo mesma e com o sentimento que a move: “Hoje, feliz, posso dizer que conheço o amor, esse insumo sustentável, resiliente, paciente e indispensável sem o qual nada existiria.” 

Identidade em sala de aula

A também autora Rosa Pena afirma que recebeu o convite para participar do projeto com sentimento de honra e alegria. Professora da rede pública estadual, ela sempre gostou de ler e escrever, mas nunca havia pensado em publicar um texto. Diante da oportunidade, chegou a duvidar se mostraria ou não seu trabalho, mas hoje define a experiência como transformadora. Do lugar de educadora, observa que a literatura trabalhada nas escolas muitas vezes não dialoga com a realidade dos alunos. Por isso, enxerga o livro como uma possibilidade de aproximação: uma obra que provoca reflexão, permite pensar, ser e agir a partir de outros referenciais. “Porque , enquanto professora, a gente observa que a literatura não conecta os alunos. É uma literatura historicamente branca e elitizada por um grupo de pessoas. Então os alunos falam: ‘Professora, não tem nada a ver essa leitura, não sei o quê’. Há essa cultura. Então eu acho que esse livro tem essa importância das pessoas terem a possibilidade de conhecer e de a gente pensar, de ser, de agir.”

Rosa avalia que o projeto funcionou como ponte entre as autoras e acredita que fará o mesmo com quem lê. Ela diz que sempre sentiu falta, na própria trajetória acadêmica, de leituras que a conectassem diretamente com seu espaço, sua gente e sua realidade. Lembra que, historicamente, a população negra foi colocada “fora do lugar”: marcada pelo processo de escravização, pelo preconceito e pela ideia de não pertencimento. A invisibilidade social, aponta, faz com que muitas pessoas negras não se sintam participantes do meio em que vivem. 

Ao refletir sobre o impacto da obra, Rosa destaca que ela também é fruto de um processo de resistência. Relata que, ao longo da vida, aprendeu a nomear episódios de racismo que antes silenciava, como a mudança de tratamento quando descobrem que ela é professora. Situações como essa, afirma, seguem frequentes e evidenciam como pessoas negras ainda são constantemente deslegitimadas. Para ela, o livro reafirma a presença e a capacidade dessas mulheres: “a gente está aí, mostrando quem somos e o que podemos fazer”, sintetiza, ressaltando que o fato de estarem unidas fortalece o grupo e ajuda a construir, passo a passo, uma sociedade melhor.

Na análise de Rosa, a escola é um ambiente que ainda reproduz o racismo estrutural presente nas relações econômicas, políticas, sociais e subjetivas. Ao mesmo tempo, ela reconhece avanços em algumas instituições por onde passou, que vêm promovendo debates, discutindo intelectualidade negra e trazendo referências positivas em diferentes áreas do conhecimento, inclusive na literatura.

As falas dos alunos também revelam a dimensão desse cenário. Rosa relata que muitos deles dizem evitar usar capuz à noite ou correr na rua com medo de “virar estatística”, numa referência ao risco constante de violência. Para a professora, relatos como esse reforçam a urgência de mudanças profundas – e fazem do livro mais do que uma coletânea: um instrumento de conexão, consciência e enfrentamento ao racismo.

Entre retrocessos e conquistas: a cidade que resiste

Ana afirma que o lançamento do livro em novembro, mês da Consciência Negra, ocorreu por coincidência. Rosa considera a data uma “feliz coincidência”, embora avalie que a luta continue e que ainda haja pouco a celebrar. “Eu acho que ser um feriado é uma coisa boa. Eu fiz parte de todo o processo na Câmara, na luta pelo feriado do dia 20, não conseguimos, e Juiz de Fora só tem esse feriado porque foi uma lei nacional. Então, só para poder mostrar como a gente vive em Juiz de Fora, muito racista. Você pode olhar a arquitetura, as ruas e tudo mais, você não vê referencial. Agora que tem um pouco de referência ali, na antiga Funalfa, que foi uma conquista de muitos anos.”

Rosa lembra que a Câmara Municipal de Juiz de Fora rejeitou o projeto de lei que buscava instituir o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, como feriado municipal. A votação, realizada em novembro de 2023, terminou com dez votos contrários, sete favoráveis e uma ausência.

Ela também destaca como avanço a criação do novo espaço da Secretaria Especial da Igualdade Racial (SEIR), localizado na Avenida Rio Branco 2234, no Centro, no antigo prédio da Funalfa.

“A gente tem muito que batalhar para uma sociedade muito racista, muito, muito mesmo. Então, eu não comemoro o dia 20. Eu acho que é um dia de reflexão e de a gente reafirmar a luta, a luta por uma sociedade melhor. Mas eu acho que, de qualquer forma, o livro saindo nesse período reafirma todas as iniciativas que acontecem em Juiz de Fora por esse grupo negro que resiste e que vai fazendo a cidade perceber que somos muitos aqui em Juiz de Fora e contribuímos muito para essa história”, conclui Rosa.

*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel

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Autoras negras ampliam representação na literatura de Juiz de Fora

Autoras livro Vozes Negras na Literatura de Juiz de Fora Divulgacao
Da esquerda para a direita, na primeira fila: Denise, Naiara, Ana, Helenice, Lucimar Brasil. Na segunda fila: Ariele, Vanda, Rosa, Lucimar Silvério e Nilva (Foto: Divulgação)

Promovendo um encontro entre histórias, corpos e tempos, o livro “Vozes Negras na Literatura de Juiz de Fora”, com lançamento neste sábado (29), às 18h30 no Anfiteatro AICE no Mercado Municipal, reúne dez mulheres que transformam suas vivências em palavra e criação.

A proposta é incentivar uma leitura que valorize o poder das palavras na construção da existência, da resistência e da reinvenção de percursos. A coletânea apresenta textos de diferentes gêneros e, embora seja marcada pela ficção, toma as vivências das escritoras como referência, inclusive nas narrativas ficcionais. “Tem muita ficção também, mas acaba tendo um pouquinho da vivência da mulher negra ali, e aí traz muito a partir do que elas vivenciam também”, afirma Ana Torquato, curadora da obra.

Ao completar dez anos de carreira, Ana conta que decidiu comemorar a trajetória dividindo, pela primeira vez, as páginas de um livro com outras mulheres. Ela relata que sentia uma cobrança pessoal por não participar de coletivos e, diante das perguntas recorrentes sobre sua ligação com esse tipo de grupo, passou a amadurecer a ideia de organizar a coletânea. Dessa inquietação, nasceu a obra composta por textos de mulheres negras.

A autora também explica que o tema ganhou ainda mais força a partir de de seu livro “Essência Menina Mulher Preta”, lançado em 2022, inspirado em sua família e construído a partir da escuta de suas histórias. Com a repercussão positiva do título, consolidou-se o desejo de reunir outras mulheres negras para que elas mesmas escrevessem e registrassem suas narrativas, em vez de terem suas histórias contadas por outras pessoas.

Com o grupo criado em junho de 2024, Ana conta que os convites surgiram a partir de amizades e reencontros proporcionados pelas redes sociais. O que antes era apenas um plano, ganhou forma e vida. O projeto foi viabilizado pela Lei Murilo Mendes. 

Embora todas as autoras sejam residentes de Juiz de Fora, Ana acredita que a obra ultrapassa as fronteiras do município e amplia o debate. “Justamente pelo fato de serem mulheres negras. Se a gente olhar para a história, a negritude foi impedida de existir. Não se enxerga a população negra como capaz de produzir um livro. Foi impedida de escrever, de ler. Então, esse livro conversa não só com a população de Juiz de Fora, mas, de maneira geral, como uma possibilidade de que as pessoas também podem existir na escrita, independente da cor da pele, na literatura”, afirma.

Capa livro Divulgacao

Trajetórias que se encontram na mesma página

Com Ana Torquato, Ariele Sousa, Denise Nascimento, Helenice Ana Lopes, Lucimar Brasil, Lucimar Silvério, Mutala Ambizu (Naiara Santos), Nilva Regina de Souza, Rosa Maria Pereira Penna e Vanda Ferreira, a coletânea reúne vozes de diferentes trajetórias, mas com pontos de encontro semelhantes.

Com mais de 30 anos de carreira no jornalismo e na produção de crônicas e textos em seu blog, Lucimar Brasil destaca que participar da criação de um livro marca um momento singular em sua trajetória. “De fato, essa é a minha primeira experiência em livro e fazê-la coletivamente ganha ainda mais sentido”, afirma. A autora explica que o texto que assina na obra, “O curioso caso de uma estranha criatura”, é resultado das muitas mulheres que já foi e que, juntas, celebram 20 anos de um “novo tempo”, inaugurado a partir de um mergulho profundo, doloroso e amoroso em suas próprias raízes.

Ela conta que sempre teve curiosidade em descobrir quem era essa “criatura original” que chegou ao mundo antes de ser moldada por crenças familiares, sociais e religiosas. Nesse processo, compara si mesma a alguém que vai retirando camadas para alcançar o que é primordial, num exercício exigente, mas recompensador pelas descobertas que surgem no caminho. Hoje, diz se reconhecer nesse encontro consigo mesma e com o sentimento que a move: “Hoje, feliz, posso dizer que conheço o amor, esse insumo sustentável, resiliente, paciente e indispensável sem o qual nada existiria.” 

Identidade em sala de aula

A também autora Rosa Pena afirma que recebeu o convite para participar do projeto com sentimento de honra e alegria. Professora da rede pública estadual, ela sempre gostou de ler e escrever, mas nunca havia pensado em publicar um texto. Diante da oportunidade, chegou a duvidar se mostraria ou não seu trabalho, mas hoje define a experiência como transformadora. Do lugar de educadora, observa que a literatura trabalhada nas escolas muitas vezes não dialoga com a realidade dos alunos. Por isso, enxerga o livro como uma possibilidade de aproximação: uma obra que provoca reflexão, permite pensar, ser e agir a partir de outros referenciais. “Porque , enquanto professora, a gente observa que a literatura não conecta os alunos. É uma literatura historicamente branca e elitizada por um grupo de pessoas. Então os alunos falam: ‘Professora, não tem nada a ver essa leitura, não sei o quê’. Há essa cultura. Então eu acho que esse livro tem essa importância das pessoas terem a possibilidade de conhecer e de a gente pensar, de ser, de agir.”

Rosa avalia que o projeto funcionou como ponte entre as autoras e acredita que fará o mesmo com quem lê. Ela diz que sempre sentiu falta, na própria trajetória acadêmica, de leituras que a conectassem diretamente com seu espaço, sua gente e sua realidade. Lembra que, historicamente, a população negra foi colocada “fora do lugar”: marcada pelo processo de escravização, pelo preconceito e pela ideia de não pertencimento. A invisibilidade social, aponta, faz com que muitas pessoas negras não se sintam participantes do meio em que vivem. 

Ao refletir sobre o impacto da obra, Rosa destaca que ela também é fruto de um processo de resistência. Relata que, ao longo da vida, aprendeu a nomear episódios de racismo que antes silenciava, como a mudança de tratamento quando descobrem que ela é professora. Situações como essa, afirma, seguem frequentes e evidenciam como pessoas negras ainda são constantemente deslegitimadas. Para ela, o livro reafirma a presença e a capacidade dessas mulheres: “a gente está aí, mostrando quem somos e o que podemos fazer”, sintetiza, ressaltando que o fato de estarem unidas fortalece o grupo e ajuda a construir, passo a passo, uma sociedade melhor.

Na análise de Rosa, a escola é um ambiente que ainda reproduz o racismo estrutural presente nas relações econômicas, políticas, sociais e subjetivas. Ao mesmo tempo, ela reconhece avanços em algumas instituições por onde passou, que vêm promovendo debates, discutindo intelectualidade negra e trazendo referências positivas em diferentes áreas do conhecimento, inclusive na literatura.

As falas dos alunos também revelam a dimensão desse cenário. Rosa relata que muitos deles dizem evitar usar capuz à noite ou correr na rua com medo de “virar estatística”, numa referência ao risco constante de violência. Para a professora, relatos como esse reforçam a urgência de mudanças profundas – e fazem do livro mais do que uma coletânea: um instrumento de conexão, consciência e enfrentamento ao racismo.

Entre retrocessos e conquistas: a cidade que resiste

Ana afirma que o lançamento do livro em novembro, mês da Consciência Negra, ocorreu por coincidência. Rosa considera a data uma “feliz coincidência”, embora avalie que a luta continue e que ainda haja pouco a celebrar. “Eu acho que ser um feriado é uma coisa boa. Eu fiz parte de todo o processo na Câmara, na luta pelo feriado do dia 20, não conseguimos, e Juiz de Fora só tem esse feriado porque foi uma lei nacional. Então, só para poder mostrar como a gente vive em Juiz de Fora, muito racista. Você pode olhar a arquitetura, as ruas e tudo mais, você não vê referencial. Agora que tem um pouco de referência ali, na antiga Funalfa, que foi uma conquista de muitos anos.”

Rosa lembra que a Câmara Municipal de Juiz de Fora rejeitou o projeto de lei que buscava instituir o dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, como feriado municipal. A votação, realizada em novembro de 2023, terminou com dez votos contrários, sete favoráveis e uma ausência.

Ela também destaca como avanço a criação do novo espaço da Secretaria Especial da Igualdade Racial (SEIR), localizado na Avenida Rio Branco 2234, no Centro, no antigo prédio da Funalfa.

“A gente tem muito que batalhar para uma sociedade muito racista, muito, muito mesmo. Então, eu não comemoro o dia 20. Eu acho que é um dia de reflexão e de a gente reafirmar a luta, a luta por uma sociedade melhor. Mas eu acho que, de qualquer forma, o livro saindo nesse período reafirma todas as iniciativas que acontecem em Juiz de Fora por esse grupo negro que resiste e que vai fazendo a cidade perceber que somos muitos aqui em Juiz de Fora e contribuímos muito para essa história”, conclui Rosa.

*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel

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FONTE: GOOGLE NOTÍCIAS