Em meio à alta de tratamentos farmacológicos contra obesidade, com os medicamentos GLP-1 atuando na redução da ingestão calórica, um estudo de 2023, que restaura as funções metabólicas perdidas com o envelhecimento, está sendo retomado por fazer o caminho inverso.
Diferentemente de Ozempic, Wegovy ou outras canetas emagrecedoras, o estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Cornell, nos EUA, aposta no aumento do gasto energético ao resolver um dos maiores enigmas da medicina: por que perdemos a capacidade de queimar gordura conforme envelhecemos?
A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, descobriu como reverter um processo característico do envelhecimento, em que células especiais ao redor dos vasos sanguíneos produzem excesso de uma proteína (Pdgfrβ) que bloqueia a formação de gordura bege, tecido que costuma queimar calorias para gerar calor.
Em outras palavras, o trabalho identifica um mecanismo específico e farmacologicamente viável capaz de restaurar a capacidade termogênica que perdemos com o envelhecimento. A descoberta oferece a possibilidade de novas terapias contra a obesidade, especialmente em populações mais velhas.
Embora atuem por vias completamente opostas (os medicamentos GLP-1 regulando a entrada de energia e a proteína Pdgfrβ estimulando a saída de energia), os mecanismos apresentam um potencial sinérgico, pois uma possível combinação dos dois criaria um déficit calórico duplo no corpo.
Entendendo os três tipos de gordura corporal

Quando falamos de gordura corporal, tanto da nossa quanto da dos mamíferos em geral, nos referimos, principalmente, a dois tipos de tecido adiposo — o branco (TAB) e o marrom (TAM). O primeiro tem como função principal armazenar energia, enquanto o TAM queima energia para gerar calor e regular a temperatura corporal (termogênese).
A partir de 2008, pesquisas revelaram a existência de um terceiro tipo de célula que forma gordura no corpo, dispersa em meio aos depósitos de tecido adiposo branco. Como tinha capacidade de adquirir propriedades do TAM, o adipócito foi chamado de tecido adiposo bege.
Desencadeada normalmente por exposição prolongada ao frio, a chamada TABg funciona como célula termogênica que queima calorias dentro dos depósitos de gordura branca. Para isso, ela reduz o açúcar no sangue e decompõe os ácidos graxos que provocam endurecimento das artérias e doenças cardíacas.
Com o envelhecimento, a resposta ao frio diminui drasticamente, deixando o corpo favorecer a produção de gordura branca. O sistema perde aos poucos sua capacidade de formar essas células queimadoras de energia, contribuindo para o declínio metabólico característico da idade avançada.
Ou seja, embora ocorram mudanças sazonais na gordura bege em humanos jovens, “uma pessoa mais velha teria que ficar do lado de fora na neve de cueca para obter os mesmos efeitos termogênicos”, brinca o coautor Daniel Berry, professor da Divisão de Ciências Nutricionais, em um comunicado divulgado na época do estudo.
A bioquímica da gordura no envelhecimento
Para a autora sênior do estudo, Abigail Benvie, o objetivo final da pesquisa foi responder à questão: “Sem ter que sujeitar as pessoas à exposição ao frio por períodos prolongados de tempo, existem vias metabólicas que podemos estimular que podem produzir o mesmo efeito?”.
Após identificar a Pdgfrβ como uma espécie de “freio molecular” que impede a transformação das células especiais ao redor dos vasos sanguíneos em gordura bege, eles usaram os medicamentos imatinib (aprovado para leucemia) e SU16f para bloquear a ação da proteína em ratos idosos durante cinco dias.
Tratados com bloqueadores de Pdgfrβ, os camundongos foram expostos ao frio por uma semana. Surpreendentemente, os animais idosos recuperaram o potencial de formar gordura bege, uma função que haviam perdido naturalmente com o envelhecimento progressivo.
O mecanismo funciona através de uma cascata molecular: o bloqueio da Pdgfrβ aumenta a produção de IL-33, uma substância que ativa células imunológicas especiais. Esses linfócitos então estimulam a transformação das células progenitoras em verdadeiras “fornalhas celulares” queimadoras de energia.
Depois que os ratos idosos passaram a queimar energia como jovens, trabalhos mais recentes sugerem que reverter a sinalização também reativa células do sistema imunológico que são essenciais para a manutenção desse tecido. Conectadas ao mesmo processo, novas moléculas relacionadas à gordura bege foram identificadas.
No contexto atual, dominado pela semaglutida, tirzepatida e outros compostos presentes nas canetas emagrecedoras, a linha de pesquisa que aumenta a queima de energia no próprio tecido adiposo pode ser explorada como um tratamento eficaz para pessoas idosas, em que o declínio da termogênese das gorduras bege e marrom torna o controle de peso mais difícil.







