Há uma crise silenciosa atravessando a sociedade contemporânea, e ela não se resume à política, às instituições ou às transformações culturais. Trata-se de uma crise dos limites. Em nome de uma compreensão distorcida de liberdade, passou-se a suspeitar de toda norma, a rejeitar toda autoridade e a interpretar qualquer contenção como opressão. O que antes era reconhecido como condição da convivência – regras, responsabilidades – aparece agora como obstáculo à afirmação individual.
Tal fenômeno torna-se especialmente visível na escola. Não por acaso, o espaço educativo converteu-se em um dos lugares mais agudos da crise de autoridade de nosso tempo. A dificuldade crescente de sustentar regras básicas de convivência, a resistência de estudantes a qualquer forma de correção, a fragilidade do respaldo institucional aos educadores e a tendência de converter toda exigência em violência simbólica revelam algo maior que um problema disciplinar: revelam uma mutação cultural.
Durante muito tempo, educar significou também introduzir o sujeito na experiência do limite: aprender a esperar, escutar, responder, respeitar, frustrar-se. Hoje, porém, sob o impacto de uma cultura marcada pelo imediatismo, pela lógica do consumo e pela validação constante do eu, o limite tende a ser percebido como negação do desejo. Mas sem a experiência do limite não há formação ética.
Essa erosão dos limites atinge a vida social em profundidade. Quando toda norma é negociável, toda autoridade é desacreditada e todo dever é percebido como ameaça à autonomia, o espaço público perde consistência. A convivência passa a ser regulada menos pelo reconhecimento mútuo e mais pela disputa entre vontades.
É aqui que o velho debate iluminista retorna com força. John Locke afirmava que onde não há lei, não há liberdade. Montesquieu sustentava que a liberdade consiste em fazer o que as leis permitem, não o que o desejo impõe. E Jean-Jacques Rousseau via na submissão à lei justa não uma perda, mas a própria forma política da liberdade.
A crise contemporânea não está enraizada no excesso de regras, mas carência de referências. E, talvez, uma das tarefas mais urgentes da educação seja precisamente reabilitar o sentido do limite, não como repressão, mas como condição da liberdade, da convivência e do humano. Porque quando os limites desaparecem, não se amplia necessariamente a liberdade; frequentemente se dissolve o mundo comum que a torna possível.
*Robson Ribeiro é professor, teólogo e filósofo
Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para a seção serão recebidos por e-mail (leitores@tribunademinas.com.br). Para a versão impressa devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.
O post Quando os limites desaparecem, há uma erosão social da vida comum apareceu primeiro em Tribuna de Minas.

Há uma crise silenciosa atravessando a sociedade contemporânea, e ela não se resume à política, às instituições ou às transformações culturais. Trata-se de uma crise dos limites. Em nome de uma compreensão distorcida de liberdade, passou-se a suspeitar de toda norma, a rejeitar toda autoridade e a interpretar qualquer contenção como opressão. O que antes era reconhecido como condição da convivência – regras, responsabilidades – aparece agora como obstáculo à afirmação individual.
Tal fenômeno torna-se especialmente visível na escola. Não por acaso, o espaço educativo converteu-se em um dos lugares mais agudos da crise de autoridade de nosso tempo. A dificuldade crescente de sustentar regras básicas de convivência, a resistência de estudantes a qualquer forma de correção, a fragilidade do respaldo institucional aos educadores e a tendência de converter toda exigência em violência simbólica revelam algo maior que um problema disciplinar: revelam uma mutação cultural.
Durante muito tempo, educar significou também introduzir o sujeito na experiência do limite: aprender a esperar, escutar, responder, respeitar, frustrar-se. Hoje, porém, sob o impacto de uma cultura marcada pelo imediatismo, pela lógica do consumo e pela validação constante do eu, o limite tende a ser percebido como negação do desejo. Mas sem a experiência do limite não há formação ética.
Essa erosão dos limites atinge a vida social em profundidade. Quando toda norma é negociável, toda autoridade é desacreditada e todo dever é percebido como ameaça à autonomia, o espaço público perde consistência. A convivência passa a ser regulada menos pelo reconhecimento mútuo e mais pela disputa entre vontades.
É aqui que o velho debate iluminista retorna com força. John Locke afirmava que onde não há lei, não há liberdade. Montesquieu sustentava que a liberdade consiste em fazer o que as leis permitem, não o que o desejo impõe. E Jean-Jacques Rousseau via na submissão à lei justa não uma perda, mas a própria forma política da liberdade.
A crise contemporânea não está enraizada no excesso de regras, mas carência de referências. E, talvez, uma das tarefas mais urgentes da educação seja precisamente reabilitar o sentido do limite, não como repressão, mas como condição da liberdade, da convivência e do humano. Porque quando os limites desaparecem, não se amplia necessariamente a liberdade; frequentemente se dissolve o mundo comum que a torna possível.
*Robson Ribeiro é professor, teólogo e filósofo
Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para a seção serão recebidos por e-mail (leitores@tribunademinas.com.br). Para a versão impressa devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.
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