Como gerir os sentimentos durante uma mudança de carreira? | Carreira no Divã

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“Acabei de mudar de emprego depois de anos trabalhando na mesma empresa. Porém, tenho passado por uma montanha russa de emoções desde que fui contratada. Em alguns momentos, me sinto muito ansiosa; em outros, fico animada com as novas possibilidades. Também tenho sentido angústia por, talvez, ter tomado uma decisão errada ao fazer essa mudança. E, outras vezes, me sinto confiante. Como lidar com esses altos e baixos durante uma transição de carreira?” Gerente de contas, 30 anos

A primeira informação que você precisa ter é que essa “montanha russa de emoções” é absolutamente normal. A mudança de trabalho é um “luto não reconhecido” pela sociedade e assim se caracteriza por não haver espaço para expressão e validação dos sentimentos desencadeados pelo rompimento de um vínculo tão importante, como um emprego de tantos anos.

Você deixou um “mundo conhecido” e tem agora o desafio de (re)construir uma nova identidade profissional e um novo círculo social. Há, obviamente, a expectativa de reconhecimento pelo seu trabalho, diferentemente do que acontecia no antigo emprego, onde a sua reputação e os vínculos já estavam mais consolidados.

Outro aspecto importante a ser levado em consideração é a circunstância do seu processo de desligamento na empresa anterior, bem como a forma como ele aconteceu, que podem ser fatores determinantes para o resgate da sua autoestima e confiança no seu processo de retorno ao mercado de trabalho, mesmo que essa decisão tenha sido sua, por livre e espontânea vontade.

Escolhas geram perdas. Você tomou uma decisão porque enxergou benefícios, mas isso não invalida seus questionamentos existenciais. Aposto que você já se perguntou por que se sente assim. Será que vou me arrepender? Que medos afloram? Uma certa dose de ansiedade, medo e angústia pode trazer informações importantes sobre este novo momento. O que te deixa ansiosa em relação ao futuro? O que essa angústia sinaliza sobre você e sobre a sua carreira? O que te ameaça? Do que você sente falta?

Colunista escreve que a circunstância do processo de desligamento na empresa anterior também deve ser levada em consideração para o resgate da autoestima e confiança no processo de retorno ao mercado de trabalho — Foto: Freepik
Colunista escreve que a circunstância do processo de desligamento na empresa anterior também deve ser levada em consideração para o resgate da autoestima e confiança no processo de retorno ao mercado de trabalho — Foto: Freepik

Qualquer quebra de vínculo pode nos exigir tanto quanto a morte de um ente querido, um luto reconhecido pela sociedade. Afeta todas as nossas dimensões: cognitiva, emocional, física, social, comportamental e espiritual. A maioria das nós não recebeu letramento emocional para reconhecer e acolher emoções, principalmente aquelas “classificadas” como negativas, como a insegurança esperada de um trabalho novo, a urgência de se “provar” e ser reconhecida num ambiente desconhecido, com desafios, colegas e responsabilidades diferentes.

Além disso, é importante lembrar que vivemos em uma sociedade que incentiva uma felicidade e uma positividade tóxicas, incompatíveis com a nossa condição humana, alimentando tabus e adoecimentos mentais, sobretudo no contexto organizacional

Logo, sempre que a angústia e a ansiedade surgirem, se acolha e exercite a auto-observação. Assim você será capaz de “normalizar” esses sentimentos, se proteger das duras autocríticas e, também, ganhar tempo para despressurizar e acalmar esses incômodos. A autorregulação emocional preserva nossa saúde mental diante das inevitáveis situações de estresse e impermanência do mundo corporativo.

Mariana Clark é psicóloga, especialista em saúde mental, perdas e luto no contexto organizacional e escolar.

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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

FONTE: GLOBO.COM