Natural de Mercês – a 98 quilômetros de Juiz de Fora –, a corredora Amanda Oliveira, campeã pan-americana de maratona, vencedora da Volta Internacional da Pampulha e dona de títulos em provas nacionais, foi a entrevistada desta quarta-feira (21) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. Aos 29 anos, a atleta, que iniciou a carreira de alto rendimento em Juiz de Fora, já representou a Seleção Brasileira em diferentes modalidades e participou de corridas em 12 países.
Durante a conversa, Amanda relembrou as dificuldades enfrentadas no início da carreira, a importância de Juiz de Fora em sua formação e a vitória na Volta da Pampulha, que considera a conquista mais marcante de sua trajetória. A corredora também criticou a falta de valorização financeira dos atletas de elite nas provas da cidade e abordou os obstáculos para alcançar o índice olímpico, seu principal objetivo. Ela ainda falou sobre a rotina de treinamentos, a relação com a família, os planos para 2027 e a necessidade de competir no exterior para melhorar suas marcas na maratona.
Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: Amanda, para começar, queria voltar ao início da sua trajetória. Quem é a Amanda Oliveira e como surgiu a ideia de começar a correr, ainda pequena, em Mercês? Você teve alguma inspiração familiar ou de amigos? Como foi esse caminho até chegar ao alto rendimento?
Amanda Oliveira: Meu primeiro contato com a corrida foi na minha cidade, a convite de um policial. Eu tinha 13 anos e sempre fiz esporte. O esporte sempre esteve presente na minha vida. Dançava, jogava futsal, corria na rua. Aceitei o convite dele, que foi feito nas escolas. Minha primeira corrida foi de três quilômetros, na categoria de 13 a 15 anos. Corri os três quilômetros e, para surpresa de todo mundo, ganhei até dos homens. Tinham umas 25 pessoas correndo. Foi aí que vi que tinha talento para a corrida e comecei a participar de provas na região, sempre com grandes resultados.
Tribuna: Mercês é uma cidade de aproximadamente 10 mil habitantes e hoje você compete fora do país e tem reconhecimento nacional. Como foi lidar com essa mudança ao longo da carreira? Quais foram os principais desafios dessa trajetória?
Amanda: Para chegar onde estou hoje, tive que ter muita força de vontade e muita coragem para não desistir no meio do caminho, porque nunca é fácil e nunca vai ser fácil. Tive falta de apoio no início, cansei de ir para as competições de moto, mas isso nunca me deixou abalar. Eu sempre soube o que queria, queria chegar lá em cima. Depois recebi uma proposta para ir a Juiz de Fora, com 17 para 18 anos, fazer faculdade no Granbery. Foi onde conheci a pista de atletismo, fui federada, fiz muitas amizades e comecei minha vida no alto rendimento. Morei quatro anos em Juiz de Fora. Ao longo do caminho, foram muitos altos e baixos, muita falta de apoio, mas sempre tive muita vontade e foco para evoluir. Com os treinos e a dedicação, fui evoluindo cada vez mais, até conseguir minha primeira convocação para a Seleção Brasileira, em 2018, no cross-country. Daí para frente foi só evolução.
Tribuna: Quantos anos você tinha quando foi convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira?
Amanda: Acho que tinha uns 22 anos, por aí.
Tribuna: Foi pouco depois do período em que você morou em Juiz de Fora. Como foi essa passagem da formação no atletismo para as primeiras conquistas nacionais e internacionais?
Amanda: Quando fui para Juiz de Fora, competi no sub-23, nos 5 mil e 10 mil metros, e fui campeã brasileira em Porto Alegre, na pista. Foi quando comecei a treinar especificamente, com planilha e tudo, quando entrei para a faculdade. Eu treinava, estudava e trabalhava, mas nunca reclamava, porque sempre gostei do que fazia. Quando a gente gosta, faz com amor, com prazer. Só tenho a agradecer tudo o que venho conquistando. Através da corrida, já conheci 12 países, andei de avião pela primeira vez e representei a Seleção Brasileira em cinco modalidades diferentes. Isso, para mim, não tem preço. É muito gratificante, mas ainda temos muitos sonhos para conquistar.
Tribuna: Você já representou o Brasil em cinco modalidades diferentes e conquistou títulos em provas de várias distâncias. Como concilia a preparação para os 5 mil e 10 mil metros com a maratona, que tem 42 quilômetros? Os treinamentos são diferentes ou a preparação para uma distância também ajuda nas outras?
Amanda: Na verdade, a prova de que mais gosto é a de 21 quilômetros, mas os 21 quilômetros e o cross-country são modalidades que não estão nas Olimpíadas. Então, não têm tanto espaço em competições sul-americanas e pan-americanas. As provas olímpicas são os 5 mil, 10 mil metros e a maratona. Dessas três, gosto mais dos 10 mil metros na rua, mas, nas Olimpíadas, a prova é na pista. Então tive que escolher a maratona. É uma prova que não é fácil, exige muito de você e muita preparação, mas ganhou meu coração. Eu me encontrei na maratona, me dei muito bem. Cada distância tem uma preparação diferente, sim. Nos 5 mil e 10 mil metros, você faz uma preparação voltada para mais velocidade, mais intensidade e um volume bem menor do que na maratona. Na maratona, é muito volume, muitas rodagens, muitos tiros mais longos. É bem diferente uma da outra. Mas, neste ano, estou entre as melhores do ranking nas três modalidades, nos 5 mil, 10 mil e na maratona. Meu foco principal vai ser mais voltado para a maratona, porque temos muitos objetivos para 2027.
Tribuna: Como é sua rotina atualmente? Você consegue viver exclusivamente da corrida? Quantas vezes treina por dia e como organiza os treinamentos, a recuperação e os demais cuidados necessários para manter o alto rendimento?
Amanda: Hoje vivo somente da corrida, que já é um grande trabalho. Para ser atleta de alto rendimento, o foco é totalmente dia e noite. Treino duas vezes por dia, geralmente umas três vezes na semana. Concilio os treinos moderados, os fortes, os mais leves e a musculação. Treino pela manhã, às 6h, e depois à tarde, às 16h ou 17h. Às vezes faço musculação e corrida à tarde também. Tem toda a base do atleta. Hoje precisamos fazer fisioterapia pelo menos uma vez na semana, porque é muito impacto. Se você não tiver esse cuidado e só procurar tratamento quando se lesionar, isso prejudica um ciclo muito grande da carreira. Então é viver o esporte o tempo todo. Alimentação, descanso e treino precisam estar alinhados e andar juntos.
Tribuna: Essa rotina exige muita dedicação e também algumas renúncias. Existe algo que você gostaria de fazer com mais frequência, mas precisa deixar de lado por causa dos treinos e das competições? Como lida com os momentos em que precisa escolher entre a vida pessoal e a carreira esportiva?
Amanda: Hoje meu foco total é a corrida, mas, nos momentos em que tenho descanso e posso ficar com as pessoas, gosto muito de estar com minha família, meus pais, minhas irmãs e minhas sobrinhas. Acho que a família é a base da minha vida, de tudo o que sou hoje. Às vezes temos que abdicar de muita coisa, de alguma festa em família, de momentos dos quais queremos participar e não podemos estar juntos. Mas eu escolhi isso. Amo o que faço e todo o tempo que tenho para ficar com quem amo, eu aproveito, porque a família, como sempre falo, é tudo o que a gente tem.
Tribuna: Falando de Juiz de Fora, você voltou recentemente para participar da Corrida das Ascomcer, prova que já venceu seis vezes. Como avalia o Ranking de Corridas de Rua da cidade em comparação com outras competições do Brasil? O que considera positivo e o que ainda precisa melhorar, principalmente para os atletas de elite?
Amanda: Sempre corri as provas do ranking, desde quando comecei, quando representava a equipe do Granbery e fazia faculdade. Hoje acho que ele deixou muito a desejar. Na verdade, desde quando comecei a correr, nunca valorizaram muito a premiação para os atletas de elite. Principalmente em Juiz de Fora, a maioria dos atletas de elite trabalha e treina. Sei que isso não é fácil, porque passei muito tempo fazendo isso. Treinar também é um trabalho, porque, se você não treinar, não vai chegar ao pódio. Acho que, por ser uma cidade grande, Juiz de Fora deixa um pouco a desejar nessa parte de valorizar mais os atletas de elite. É disso que precisamos para evoluir, porque, se não temos investimento, como vamos crescer e continuar? Mas amo correr em Juiz de Fora. Fiz muitas amizades, tenho muitos amigos de verdade, pessoas que me apoiaram quando fui para a cidade e não tinha incentivo. Só tenho a agradecer, mas acho que poderiam melhorar muita coisa. Estar na Corrida da Ascomcer, para mim, é muito gratificante, porque é uma causa muito bonita, ligada à saúde, ao bem-estar e ao autocuidado. É o Outubro Rosa, um momento de lembrar que as mulheres precisam se prevenir, cuidar da saúde e do bem-estar. Temos que fazer nossa parte, porque, se não fizermos, ninguém faz.
Tribuna: Mesmo com tantas conquistas nacionais e internacionais, você continua participando das provas de Juiz de Fora, reencontrando amigos e prestigiando eventos da região. O que motiva esse retorno, mesmo diante das dificuldades de valorização que você mencionou?
Amanda: No meu início, quando corria, quase não havia provas com premiação em Juiz de Fora. Eu também ia correr nas cidades da região com meus amigos. Corria porque tinha meu trabalho de representar a equipe, como fazia no Granbery. Mas não tenho nada a reclamar, só agradecer mesmo. Acho que já fui campeã do ranking umas três ou quatro vezes, não me recordo exatamente. Mas isso não acontece só em Juiz de Fora. Acho que a região Sudeste, às vezes, deixa muito a desejar. São poucas as provas que têm premiação. Lá para o Nordeste, temos muitas corridas com premiações. Acho que poderiam melhorar nesse requisito, porque hoje o que precisamos é de apoio.
Tribuna: Você é uma atleta da região, começou sua carreira no alto rendimento em Juiz de Fora e hoje tem reconhecimento nacional. Como é receber o carinho dos corredores e das pessoas que acompanham sua trajetória? Já aconteceu alguma situação inusitada com admiradores ou colegas de esporte que tenha marcado você?
Amanda: Fico muito feliz porque hoje muitas pessoas se inspiram no meu trabalho, gostam de mim, da pessoa que sou, das minhas origens. Tudo o que sou hoje também vem da minha família e dos ensinamentos dos meus pais. Foi uma festa na Corrida da Ascomcer. Muitas pessoas chegaram perto de mim para tirar foto, encontrei muitos amigos. Até o senhor Jeová, um senhorzinho de 80 anos, que conheci na minha primeira corrida internacional, na Argentina. Eu me lembro de que fui a primeira da nossa excursão a terminar a prova. Depois começou a chover muito e fui conseguir uma capa de chuva para cobri-lo. Ele se lembra disso até hoje e tem um carinho enorme por mim. Toda vez que chega perto, fala: “Eu rezo para você todo dia. Você é minha inspiração, você é forte”. Isso é muito gratificante. E ver ele, com 80 anos, correndo até hoje, mostra que nunca podemos dizer que é tarde para começar no esporte. Também é muito gratificante inspirar minhas sobrinhas, tantas pessoas, jovens e crianças que chegaram para tirar foto comigo. Isso não tem preço. Saber que nosso trabalho está colhendo bons frutos e inspirando tantas pessoas me deixa muito feliz. Quero continuar firme, com muita coragem e força nos treinos, para conquistar muita coisa que ainda sonhamos. Não é fácil, nunca vai ser fácil, porque é uma rotina cansativa. Tem dia que é mais difícil, mais sofrido, mas, quando a gente ama, suporta tudo.
Tribuna: Uma pessoa importante na sua trajetória em Juiz de Fora é Zirlene dos Santos, que foi sua treinadora e também trabalhou com outros nomes do atletismo da cidade, como Aline Barbosa. O que a Zirlene representou para sua formação e como é a relação de vocês atualmente?
Amanda: A Leninha foi minha primeira treinadora fixa, com quem comecei a seguir certinho as planilhas de treino. Por tudo o que sou hoje, só tenho a agradecer a ela. Conquistamos muita coisa juntas, fomos campeãs no sub-23, no cross-country. É uma pessoa que levo comigo para sempre. Até hoje conversamos, somos amigas, e ela é minha maior fã, minha maior torcedora. Está sempre nos comentários falando que tenho muito talento, que sou forte, corajosa, que não desisto fácil. Mesmo diante de tudo o que enfrentamos nos dias difíceis, na falta de apoio, não desanimei. Muita gente desanimou no meio do caminho, mas continuo aqui e ainda quero colher muitos frutos para ser motivo de orgulho para ela. Ela fala que já sou um orgulho. É uma pessoa incrível, só tenho a agradecer por tantos ensinamentos. Uma profissional espetacular. Muito obrigada mesmo.
Tribuna: Você começou a correr aos 13 anos e hoje, aos 29, já passou mais da metade da vida envolvida com o atletismo. A corrida se tornou sua profissão e ocupa grande parte da sua rotina. Você consegue separar quem é a Amanda atleta de quem é a Amanda fora do esporte? E consegue imaginar o que estaria fazendo se nunca tivesse começado a correr?
Amanda: Desde pequena, sempre fiz esporte. A corrida sempre esteve presente na minha vida, desde os 13 anos, mas eu já brincava na rua, de pique-pega, sempre fui muito esperta. Quando comecei a viver o alto rendimento, a corrida mudou. Não era mais uma coisa só de brincar, porque o alto rendimento é muito diferente do amador. Você é mais cobrada e isso exigiu mais de mim. Hoje me dedico só à corrida, mas também amo minha profissão, que é a Educação Física, ensinar as pessoas e transformar vidas. Trabalhei bastante tempo depois que me formei, comecei a montar meu estúdio de treinamento funcional na minha casa. Ainda faço um pouquinho da minha profissão, mas minha maior profissão hoje é a corrida, a dedicação total a isso. É uma vida inteira dedicada ao esporte, são anos e anos. Não é de um dia para o outro que vamos conquistar o que queremos. Temos que lutar e ter constância para chegar cada dia mais longe. É muita dedicação e muita abdicação.
Tribuna: Então, mesmo se não tivesse seguido carreira como corredora, você acredita que estaria trabalhando com esporte?
Amanda: Acho que sim. Hoje em dia, a corrida é um esporte que cresceu muito no mundo, está todo mundo correndo. Não sei se ela entraria na minha vida de outra forma depois, mas, se eu não estivesse na corrida, estaria em alguma coisa ligada ao esporte, porque sou apaixonada por esporte. Nunca gostei de nada parado, sempre fui muito ativa. Ficar parada não faz parte de mim.
Tribuna: Você já conquistou títulos na Meia Maratona do Rio, na Meia Maratona de São Paulo, na Maratona de São Paulo, no Pan-Americano de Maratona e na Volta Internacional da Pampulha, além de ter sido a segunda melhor brasileira na São Silvestre. Entre tantos resultados, qual foi o mais especial? Existe alguma conquista que tenha um significado pessoal maior para você?
Amanda: No ano passado foram duas. Quando fui campeã pan-americana de maratona, foi um título muito importante na minha carreira. Ser campeã e recordista da prova pan-americana, representando a Seleção Brasileira, foi algo incrível. É uma maratona que ficou muito marcada. A do Rio de Janeiro também, porque fui quatro anos consecutivos a melhor brasileira. Ela faz parte da minha vida completamente. Tenho um carinho enorme pelo Rio, pelas torcidas de lá. Mas a mais tocante foi a Volta Internacional da Pampulha. Correr em casa, ser mineira e quebrar uma hegemonia de dez anos sem uma brasileira ganhar a prova. Foi uma disputa mental do início ao fim. Toda hora as meninas faziam fartlek (técnica de treinamento que alterna ritmos de corrida, com períodos de maior e menor intensidade), mas eu estava treinada para isso e fui até o final. Na subida, Deus me preparou para ter muita perna e cheguei muito bem. As meninas chegaram bem destruídas, deitando no chão. Naquele dia, vi que nada é impossível, que a gente só tem que treinar. O que faz a gente chegar e evoluir é o treinamento certo e o descanso. Quando cruzamos a linha de chegada e vemos que somos capazes, é muito gratificante. Com certeza foi a corrida mais marcante da minha vida até hoje. Foi emocionante.
Tribuna: O que você sentiu no momento em que cruzou a linha de chegada da Volta da Pampulha e confirmou a vitória?
Amanda: Foi emocionante. Foi um orgulho saber que todo o meu trabalho, toda a minha dedicação, colheram aquele fruto de vencer a prova. É uma corrida muito famosa, uma das mais faladas de Minas. Foi muito gratificante, emocionante e arrepiante. A gente até arrepia quando fica vendo os vídeos.
Tribuna: Na Volta da Pampulha, a segunda colocada terminou apenas um segundo atrás de você. Como foram os momentos decisivos da prova? Em algum instante você teve receio de ser ultrapassada tão perto da chegada?
Amanda: Na verdade, estávamos juntas até o início do morro. Foi ali que a prova foi decidida. Na hora em que arranquei na subida, estava me sentindo muito forte. Falei assim: “Não, hoje essa daqui é minha. A conquista é minha”. Quando você começa a subir, está com gás e vê que a outra ficou para trás, sabe que não vai perder mais. Eu sabia que tinha aquele fôlego final. Então falei: “Hoje ela é minha”. Foi incrível.
Tribuna: Depois de tantas conquistas, quais serão suas próximas provas neste final de ano? E o que você já está planejando para 2027?
Amanda: Agora vou participar da Volta da Pampulha de novo, em dezembro. Também vou fazer a Meia Maratona de São Paulo, que tem 21 quilômetros e é uma prova famosa, só de mulheres. Esses são os principais focos para o final do ano, porque no ano que vem já vamos começar com um planejamento para a maratona, no início do ano.
Tribuna: Você falou sobre a subida decisiva na Volta da Pampulha. Em provas de longa distância, existem momentos em que o desgaste físico aumenta e pode comprometer o ritmo. Ao longo da carreira, você desenvolveu alguma estratégia mental para superar essas dificuldades e conseguir manter o desempenho até a chegada?
Amanda: Na verdade, é o mental. O mental manda muito, porque você precisa saber administrar o que treinou e entender o que seu corpo está suportando, se aquele ritmo foi treinado e se você está adaptada. É acreditar em você. Acho que temos que acreditar no que treinamos, porque não vamos fazer nada diferente no dia da prova. É o que treinamos que vamos colocar em prática. Então é acreditar que você é capaz, que também pode conseguir, e não desistir. A linha de chegada só chega na hora que a gente passa. Tudo pode acontecer. É força do início ao fim.
Tribuna: Hoje você já é uma referência para muitos corredores de Juiz de Fora, de Minas Gerais e do Brasil. Mas quem são as suas próprias referências no atletismo? Existe alguma atleta que você admira especialmente e que ainda serve de inspiração para sua carreira?
Amanda: Sempre me inspirei em uma atleta que ainda é a recordista brasileira da maratona, a Adriana Aparecida da Silva. Ela até tem meu sobrenome. Já a conheci, já fui à casa dela na época com a Leninha, minha treinadora. Hoje ela também torce muito por mim. É uma inspiração, uma pessoa que sempre teve uma vida difícil e treinou muito duro. Também tenho outras referências no Brasil, atletas que admiro, colegas e amigas. Temos que admirar quem é do Brasil, torcer pelas brasileiras também, porque todo mundo treina, se dedica e passa por momentos difíceis. Também me inspiro em homens, colegas meus. Tenho um amigo que foi o melhor brasileiro na São Silvestre, com uma história de vida de quem trabalhava com lixo e hoje está entre os melhores do Brasil. São histórias que arrepiam. Todo mundo tem sua história de desafios e dificuldades. O atletismo é um esporte muito desvalorizado, não tem o apoio que o futebol tem. Mas não é só o atletismo. Acho que no Brasil falta incentivo em todos os outros esportes. Quando chegamos às Olimpíadas, vemos o quadro de medalhas dos Estados Unidos lá em cima e o do Brasil bem abaixo. Acredito que isso também seja falta de apoio para que mais pessoas consigam chegar ao esporte. Antigamente tínhamos mais medalhas na natação e em outros esportes. Mas continuamos fazendo nossa parte, treinando com o apoio que temos e sem desanimar.
Tribuna: Antes da entrevista, você comentou sobre o sonho olímpico e as dificuldades que as brasileiras enfrentam para conseguir uma vaga nas provas de longa distância. Mesmo com o crescimento da corrida no país, a falta de investimento ainda é um obstáculo. O que precisaria mudar para que o Brasil tivesse mais atletas disputando essas provas nas Olimpíadas?
Amanda: Os índices olímpicos estão cada vez mais altos. Hoje temos nas Olimpíadas as provas que faço, os 5 mil, 10 mil metros e a maratona. Na pista são os 5 mil e 10 mil metros, e na rua é só a maratona. Acho que falta apoio para pegar os melhores do Brasil no ranking dos 5 mil e 10 mil metros e investir neles. Fazer uma temporada fora, por exemplo, para incentivar mais o atleta a cumprir um ciclo olímpico. Às vezes o atleta fica competindo muito porque precisa ganhar dinheiro em algumas provas maiores e não consegue fazer o ciclo de preparação necessário para chegar às Olimpíadas. Se tivéssemos mais incentivo, poderíamos ter mais pessoas representando o Brasil. Nas duas últimas edições, não tivemos representantes na maratona feminina. É uma prova em que acredito que tenho condições de buscar a vaga, mas os índices estão muito difíceis e altos. Mesmo assim, nada é impossível. Temos que correr atrás.
Tribuna: Você comentou que fazer uma temporada internacional seria importante para buscar o índice olímpico. Por que competir no exterior pode oferecer melhores condições para alcançar as marcas necessárias, especialmente na maratona?
Amanda: Aqui no Brasil, a maioria das maratonas tem subida e descida. Temos Curitiba e São Paulo, que são provas mais pesadas. Temos o Rio de Janeiro e Porto Alegre, que é considerada a mais rápida do Brasil. Mas não são as maratonas ideais para fazer a melhor marca, porque faz calor e os percursos não são totalmente planos. Fora do país, temos maratonas consideradas mais rápidas, mais planas e que oferecem uma pontuação maior para Olimpíadas e Mundiais. É isso que estou buscando. Agora fui a Berlim, fui a melhor brasileira, melhorei minha marca, mas sei que tenho muito a melhorar ainda. Para o ano que vem, já tenho uma maratona no calendário, no início do ano. Vamos continuar firmes para conseguir grandes objetivos.
Tribuna: As Olimpíadas são seu maior sonho, mas você também conhece as dificuldades para conquistar uma vaga. Como mantém esse objetivo vivo e o que pretende fazer nos próximos anos para tentar representar o Brasil nos Jogos?
Amanda: Meu maior sonho, e acho que o de todos os atletas profissionais, é chegar às Olimpíadas. O caminho não é fácil, mas também não é impossível. Vou continuar fazendo o que tem que ser feito, focar mais nas provas-alvo, nas provas maiores, e nos treinamentos para conseguir chegar ao meu objetivo principal, que é estar nas Olimpíadas. Fazer as pontuações, escolher as provas certas e não desistir. Sei que não vai ser fácil chegar lá, mas também não é impossível. Vamos continuar focados.
Tribuna: Você fala muito sobre foco e disciplina, características que parecem fazer parte da sua personalidade. Mesmo depois de tantos anos competindo e de tantas conquistas, ainda existe alguma coisa que provoca medo ou insegurança antes de uma prova? Como você lida com esses sentimentos?
Amanda: A gente que é atleta de alto rendimento, e os amadores também, todo mundo sente um friozinho na barriga em algumas provas-alvo, principalmente nas mais importantes. Mas tentamos controlar isso, precisamos nos acalmar para entrar concentrados e buscar nossos objetivos. Sempre falo que temos que fazer por nós, focar no que queremos e fazer força. Quando temos um objetivo, precisamos focar e fazer força do início ao fim.
Tribuna: Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para as pessoas de Juiz de Fora, de Mercês e para todos que acompanham sua trajetória? A quem dedica as conquistas que alcançou até hoje?
Amanda: Primeiramente, dedico a Deus, por sempre me dar força e coragem para atingir meus objetivos. À minha família maravilhosa, aos meus amigos e fãs que se inspiram e torcem de verdade por mim, aos meus patrocinadores e apoiadores, porque sozinhos não chegamos a lugar nenhum. Precisamos do apoio da família, dos amigos e da nossa equipe multidisciplinar. O recado que dou para vocês é que, quando queremos alguma coisa, temos que lutar e acreditar, porque na vida nada é impossível quando queremos conquistar. Então faça sempre a sua parte.
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Natural de Mercês – a 98 quilômetros de Juiz de Fora –, a corredora Amanda Oliveira, campeã pan-americana de maratona, vencedora da Volta Internacional da Pampulha e dona de títulos em provas nacionais, foi a entrevistada desta quarta-feira (21) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. Aos 29 anos, a atleta, que iniciou a carreira de alto rendimento em Juiz de Fora, já representou a Seleção Brasileira em diferentes modalidades e participou de corridas em 12 países.
Durante a conversa, Amanda relembrou as dificuldades enfrentadas no início da carreira, a importância de Juiz de Fora em sua formação e a vitória na Volta da Pampulha, que considera a conquista mais marcante de sua trajetória. A corredora também criticou a falta de valorização financeira dos atletas de elite nas provas da cidade e abordou os obstáculos para alcançar o índice olímpico, seu principal objetivo. Ela ainda falou sobre a rotina de treinamentos, a relação com a família, os planos para 2027 e a necessidade de competir no exterior para melhorar suas marcas na maratona.
Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: Amanda, para começar, queria voltar ao início da sua trajetória. Quem é a Amanda Oliveira e como surgiu a ideia de começar a correr, ainda pequena, em Mercês? Você teve alguma inspiração familiar ou de amigos? Como foi esse caminho até chegar ao alto rendimento?
Amanda Oliveira: Meu primeiro contato com a corrida foi na minha cidade, a convite de um policial. Eu tinha 13 anos e sempre fiz esporte. O esporte sempre esteve presente na minha vida. Dançava, jogava futsal, corria na rua. Aceitei o convite dele, que foi feito nas escolas. Minha primeira corrida foi de três quilômetros, na categoria de 13 a 15 anos. Corri os três quilômetros e, para surpresa de todo mundo, ganhei até dos homens. Tinham umas 25 pessoas correndo. Foi aí que vi que tinha talento para a corrida e comecei a participar de provas na região, sempre com grandes resultados.
Tribuna: Mercês é uma cidade de aproximadamente 10 mil habitantes e hoje você compete fora do país e tem reconhecimento nacional. Como foi lidar com essa mudança ao longo da carreira? Quais foram os principais desafios dessa trajetória?
Amanda: Para chegar onde estou hoje, tive que ter muita força de vontade e muita coragem para não desistir no meio do caminho, porque nunca é fácil e nunca vai ser fácil. Tive falta de apoio no início, cansei de ir para as competições de moto, mas isso nunca me deixou abalar. Eu sempre soube o que queria, queria chegar lá em cima. Depois recebi uma proposta para ir a Juiz de Fora, com 17 para 18 anos, fazer faculdade no Granbery. Foi onde conheci a pista de atletismo, fui federada, fiz muitas amizades e comecei minha vida no alto rendimento. Morei quatro anos em Juiz de Fora. Ao longo do caminho, foram muitos altos e baixos, muita falta de apoio, mas sempre tive muita vontade e foco para evoluir. Com os treinos e a dedicação, fui evoluindo cada vez mais, até conseguir minha primeira convocação para a Seleção Brasileira, em 2018, no cross-country. Daí para frente foi só evolução.
Tribuna: Quantos anos você tinha quando foi convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira?
Amanda: Acho que tinha uns 22 anos, por aí.
Tribuna: Foi pouco depois do período em que você morou em Juiz de Fora. Como foi essa passagem da formação no atletismo para as primeiras conquistas nacionais e internacionais?
Amanda: Quando fui para Juiz de Fora, competi no sub-23, nos 5 mil e 10 mil metros, e fui campeã brasileira em Porto Alegre, na pista. Foi quando comecei a treinar especificamente, com planilha e tudo, quando entrei para a faculdade. Eu treinava, estudava e trabalhava, mas nunca reclamava, porque sempre gostei do que fazia. Quando a gente gosta, faz com amor, com prazer. Só tenho a agradecer tudo o que venho conquistando. Através da corrida, já conheci 12 países, andei de avião pela primeira vez e representei a Seleção Brasileira em cinco modalidades diferentes. Isso, para mim, não tem preço. É muito gratificante, mas ainda temos muitos sonhos para conquistar.
Tribuna: Você já representou o Brasil em cinco modalidades diferentes e conquistou títulos em provas de várias distâncias. Como concilia a preparação para os 5 mil e 10 mil metros com a maratona, que tem 42 quilômetros? Os treinamentos são diferentes ou a preparação para uma distância também ajuda nas outras?
Amanda: Na verdade, a prova de que mais gosto é a de 21 quilômetros, mas os 21 quilômetros e o cross-country são modalidades que não estão nas Olimpíadas. Então, não têm tanto espaço em competições sul-americanas e pan-americanas. As provas olímpicas são os 5 mil, 10 mil metros e a maratona. Dessas três, gosto mais dos 10 mil metros na rua, mas, nas Olimpíadas, a prova é na pista. Então tive que escolher a maratona. É uma prova que não é fácil, exige muito de você e muita preparação, mas ganhou meu coração. Eu me encontrei na maratona, me dei muito bem. Cada distância tem uma preparação diferente, sim. Nos 5 mil e 10 mil metros, você faz uma preparação voltada para mais velocidade, mais intensidade e um volume bem menor do que na maratona. Na maratona, é muito volume, muitas rodagens, muitos tiros mais longos. É bem diferente uma da outra. Mas, neste ano, estou entre as melhores do ranking nas três modalidades, nos 5 mil, 10 mil e na maratona. Meu foco principal vai ser mais voltado para a maratona, porque temos muitos objetivos para 2027.
Tribuna: Como é sua rotina atualmente? Você consegue viver exclusivamente da corrida? Quantas vezes treina por dia e como organiza os treinamentos, a recuperação e os demais cuidados necessários para manter o alto rendimento?
Amanda: Hoje vivo somente da corrida, que já é um grande trabalho. Para ser atleta de alto rendimento, o foco é totalmente dia e noite. Treino duas vezes por dia, geralmente umas três vezes na semana. Concilio os treinos moderados, os fortes, os mais leves e a musculação. Treino pela manhã, às 6h, e depois à tarde, às 16h ou 17h. Às vezes faço musculação e corrida à tarde também. Tem toda a base do atleta. Hoje precisamos fazer fisioterapia pelo menos uma vez na semana, porque é muito impacto. Se você não tiver esse cuidado e só procurar tratamento quando se lesionar, isso prejudica um ciclo muito grande da carreira. Então é viver o esporte o tempo todo. Alimentação, descanso e treino precisam estar alinhados e andar juntos.
Tribuna: Essa rotina exige muita dedicação e também algumas renúncias. Existe algo que você gostaria de fazer com mais frequência, mas precisa deixar de lado por causa dos treinos e das competições? Como lida com os momentos em que precisa escolher entre a vida pessoal e a carreira esportiva?
Amanda: Hoje meu foco total é a corrida, mas, nos momentos em que tenho descanso e posso ficar com as pessoas, gosto muito de estar com minha família, meus pais, minhas irmãs e minhas sobrinhas. Acho que a família é a base da minha vida, de tudo o que sou hoje. Às vezes temos que abdicar de muita coisa, de alguma festa em família, de momentos dos quais queremos participar e não podemos estar juntos. Mas eu escolhi isso. Amo o que faço e todo o tempo que tenho para ficar com quem amo, eu aproveito, porque a família, como sempre falo, é tudo o que a gente tem.
Tribuna: Falando de Juiz de Fora, você voltou recentemente para participar da Corrida das Ascomcer, prova que já venceu seis vezes. Como avalia o Ranking de Corridas de Rua da cidade em comparação com outras competições do Brasil? O que considera positivo e o que ainda precisa melhorar, principalmente para os atletas de elite?
Amanda: Sempre corri as provas do ranking, desde quando comecei, quando representava a equipe do Granbery e fazia faculdade. Hoje acho que ele deixou muito a desejar. Na verdade, desde quando comecei a correr, nunca valorizaram muito a premiação para os atletas de elite. Principalmente em Juiz de Fora, a maioria dos atletas de elite trabalha e treina. Sei que isso não é fácil, porque passei muito tempo fazendo isso. Treinar também é um trabalho, porque, se você não treinar, não vai chegar ao pódio. Acho que, por ser uma cidade grande, Juiz de Fora deixa um pouco a desejar nessa parte de valorizar mais os atletas de elite. É disso que precisamos para evoluir, porque, se não temos investimento, como vamos crescer e continuar? Mas amo correr em Juiz de Fora. Fiz muitas amizades, tenho muitos amigos de verdade, pessoas que me apoiaram quando fui para a cidade e não tinha incentivo. Só tenho a agradecer, mas acho que poderiam melhorar muita coisa. Estar na Corrida da Ascomcer, para mim, é muito gratificante, porque é uma causa muito bonita, ligada à saúde, ao bem-estar e ao autocuidado. É o Outubro Rosa, um momento de lembrar que as mulheres precisam se prevenir, cuidar da saúde e do bem-estar. Temos que fazer nossa parte, porque, se não fizermos, ninguém faz.
Tribuna: Mesmo com tantas conquistas nacionais e internacionais, você continua participando das provas de Juiz de Fora, reencontrando amigos e prestigiando eventos da região. O que motiva esse retorno, mesmo diante das dificuldades de valorização que você mencionou?
Amanda: No meu início, quando corria, quase não havia provas com premiação em Juiz de Fora. Eu também ia correr nas cidades da região com meus amigos. Corria porque tinha meu trabalho de representar a equipe, como fazia no Granbery. Mas não tenho nada a reclamar, só agradecer mesmo. Acho que já fui campeã do ranking umas três ou quatro vezes, não me recordo exatamente. Mas isso não acontece só em Juiz de Fora. Acho que a região Sudeste, às vezes, deixa muito a desejar. São poucas as provas que têm premiação. Lá para o Nordeste, temos muitas corridas com premiações. Acho que poderiam melhorar nesse requisito, porque hoje o que precisamos é de apoio.
Tribuna: Você é uma atleta da região, começou sua carreira no alto rendimento em Juiz de Fora e hoje tem reconhecimento nacional. Como é receber o carinho dos corredores e das pessoas que acompanham sua trajetória? Já aconteceu alguma situação inusitada com admiradores ou colegas de esporte que tenha marcado você?
Amanda: Fico muito feliz porque hoje muitas pessoas se inspiram no meu trabalho, gostam de mim, da pessoa que sou, das minhas origens. Tudo o que sou hoje também vem da minha família e dos ensinamentos dos meus pais. Foi uma festa na Corrida da Ascomcer. Muitas pessoas chegaram perto de mim para tirar foto, encontrei muitos amigos. Até o senhor Jeová, um senhorzinho de 80 anos, que conheci na minha primeira corrida internacional, na Argentina. Eu me lembro de que fui a primeira da nossa excursão a terminar a prova. Depois começou a chover muito e fui conseguir uma capa de chuva para cobri-lo. Ele se lembra disso até hoje e tem um carinho enorme por mim. Toda vez que chega perto, fala: “Eu rezo para você todo dia. Você é minha inspiração, você é forte”. Isso é muito gratificante. E ver ele, com 80 anos, correndo até hoje, mostra que nunca podemos dizer que é tarde para começar no esporte. Também é muito gratificante inspirar minhas sobrinhas, tantas pessoas, jovens e crianças que chegaram para tirar foto comigo. Isso não tem preço. Saber que nosso trabalho está colhendo bons frutos e inspirando tantas pessoas me deixa muito feliz. Quero continuar firme, com muita coragem e força nos treinos, para conquistar muita coisa que ainda sonhamos. Não é fácil, nunca vai ser fácil, porque é uma rotina cansativa. Tem dia que é mais difícil, mais sofrido, mas, quando a gente ama, suporta tudo.
Tribuna: Uma pessoa importante na sua trajetória em Juiz de Fora é Zirlene dos Santos, que foi sua treinadora e também trabalhou com outros nomes do atletismo da cidade, como Aline Barbosa. O que a Zirlene representou para sua formação e como é a relação de vocês atualmente?
Amanda: A Leninha foi minha primeira treinadora fixa, com quem comecei a seguir certinho as planilhas de treino. Por tudo o que sou hoje, só tenho a agradecer a ela. Conquistamos muita coisa juntas, fomos campeãs no sub-23, no cross-country. É uma pessoa que levo comigo para sempre. Até hoje conversamos, somos amigas, e ela é minha maior fã, minha maior torcedora. Está sempre nos comentários falando que tenho muito talento, que sou forte, corajosa, que não desisto fácil. Mesmo diante de tudo o que enfrentamos nos dias difíceis, na falta de apoio, não desanimei. Muita gente desanimou no meio do caminho, mas continuo aqui e ainda quero colher muitos frutos para ser motivo de orgulho para ela. Ela fala que já sou um orgulho. É uma pessoa incrível, só tenho a agradecer por tantos ensinamentos. Uma profissional espetacular. Muito obrigada mesmo.
Tribuna: Você começou a correr aos 13 anos e hoje, aos 29, já passou mais da metade da vida envolvida com o atletismo. A corrida se tornou sua profissão e ocupa grande parte da sua rotina. Você consegue separar quem é a Amanda atleta de quem é a Amanda fora do esporte? E consegue imaginar o que estaria fazendo se nunca tivesse começado a correr?
Amanda: Desde pequena, sempre fiz esporte. A corrida sempre esteve presente na minha vida, desde os 13 anos, mas eu já brincava na rua, de pique-pega, sempre fui muito esperta. Quando comecei a viver o alto rendimento, a corrida mudou. Não era mais uma coisa só de brincar, porque o alto rendimento é muito diferente do amador. Você é mais cobrada e isso exigiu mais de mim. Hoje me dedico só à corrida, mas também amo minha profissão, que é a Educação Física, ensinar as pessoas e transformar vidas. Trabalhei bastante tempo depois que me formei, comecei a montar meu estúdio de treinamento funcional na minha casa. Ainda faço um pouquinho da minha profissão, mas minha maior profissão hoje é a corrida, a dedicação total a isso. É uma vida inteira dedicada ao esporte, são anos e anos. Não é de um dia para o outro que vamos conquistar o que queremos. Temos que lutar e ter constância para chegar cada dia mais longe. É muita dedicação e muita abdicação.
Tribuna: Então, mesmo se não tivesse seguido carreira como corredora, você acredita que estaria trabalhando com esporte?
Amanda: Acho que sim. Hoje em dia, a corrida é um esporte que cresceu muito no mundo, está todo mundo correndo. Não sei se ela entraria na minha vida de outra forma depois, mas, se eu não estivesse na corrida, estaria em alguma coisa ligada ao esporte, porque sou apaixonada por esporte. Nunca gostei de nada parado, sempre fui muito ativa. Ficar parada não faz parte de mim.
Tribuna: Você já conquistou títulos na Meia Maratona do Rio, na Meia Maratona de São Paulo, na Maratona de São Paulo, no Pan-Americano de Maratona e na Volta Internacional da Pampulha, além de ter sido a segunda melhor brasileira na São Silvestre. Entre tantos resultados, qual foi o mais especial? Existe alguma conquista que tenha um significado pessoal maior para você?
Amanda: No ano passado foram duas. Quando fui campeã pan-americana de maratona, foi um título muito importante na minha carreira. Ser campeã e recordista da prova pan-americana, representando a Seleção Brasileira, foi algo incrível. É uma maratona que ficou muito marcada. A do Rio de Janeiro também, porque fui quatro anos consecutivos a melhor brasileira. Ela faz parte da minha vida completamente. Tenho um carinho enorme pelo Rio, pelas torcidas de lá. Mas a mais tocante foi a Volta Internacional da Pampulha. Correr em casa, ser mineira e quebrar uma hegemonia de dez anos sem uma brasileira ganhar a prova. Foi uma disputa mental do início ao fim. Toda hora as meninas faziam fartlek (técnica de treinamento que alterna ritmos de corrida, com períodos de maior e menor intensidade), mas eu estava treinada para isso e fui até o final. Na subida, Deus me preparou para ter muita perna e cheguei muito bem. As meninas chegaram bem destruídas, deitando no chão. Naquele dia, vi que nada é impossível, que a gente só tem que treinar. O que faz a gente chegar e evoluir é o treinamento certo e o descanso. Quando cruzamos a linha de chegada e vemos que somos capazes, é muito gratificante. Com certeza foi a corrida mais marcante da minha vida até hoje. Foi emocionante.
Tribuna: O que você sentiu no momento em que cruzou a linha de chegada da Volta da Pampulha e confirmou a vitória?
Amanda: Foi emocionante. Foi um orgulho saber que todo o meu trabalho, toda a minha dedicação, colheram aquele fruto de vencer a prova. É uma corrida muito famosa, uma das mais faladas de Minas. Foi muito gratificante, emocionante e arrepiante. A gente até arrepia quando fica vendo os vídeos.
Tribuna: Na Volta da Pampulha, a segunda colocada terminou apenas um segundo atrás de você. Como foram os momentos decisivos da prova? Em algum instante você teve receio de ser ultrapassada tão perto da chegada?
Amanda: Na verdade, estávamos juntas até o início do morro. Foi ali que a prova foi decidida. Na hora em que arranquei na subida, estava me sentindo muito forte. Falei assim: “Não, hoje essa daqui é minha. A conquista é minha”. Quando você começa a subir, está com gás e vê que a outra ficou para trás, sabe que não vai perder mais. Eu sabia que tinha aquele fôlego final. Então falei: “Hoje ela é minha”. Foi incrível.
Tribuna: Depois de tantas conquistas, quais serão suas próximas provas neste final de ano? E o que você já está planejando para 2027?
Amanda: Agora vou participar da Volta da Pampulha de novo, em dezembro. Também vou fazer a Meia Maratona de São Paulo, que tem 21 quilômetros e é uma prova famosa, só de mulheres. Esses são os principais focos para o final do ano, porque no ano que vem já vamos começar com um planejamento para a maratona, no início do ano.
Tribuna: Você falou sobre a subida decisiva na Volta da Pampulha. Em provas de longa distância, existem momentos em que o desgaste físico aumenta e pode comprometer o ritmo. Ao longo da carreira, você desenvolveu alguma estratégia mental para superar essas dificuldades e conseguir manter o desempenho até a chegada?
Amanda: Na verdade, é o mental. O mental manda muito, porque você precisa saber administrar o que treinou e entender o que seu corpo está suportando, se aquele ritmo foi treinado e se você está adaptada. É acreditar em você. Acho que temos que acreditar no que treinamos, porque não vamos fazer nada diferente no dia da prova. É o que treinamos que vamos colocar em prática. Então é acreditar que você é capaz, que também pode conseguir, e não desistir. A linha de chegada só chega na hora que a gente passa. Tudo pode acontecer. É força do início ao fim.
Tribuna: Hoje você já é uma referência para muitos corredores de Juiz de Fora, de Minas Gerais e do Brasil. Mas quem são as suas próprias referências no atletismo? Existe alguma atleta que você admira especialmente e que ainda serve de inspiração para sua carreira?
Amanda: Sempre me inspirei em uma atleta que ainda é a recordista brasileira da maratona, a Adriana Aparecida da Silva. Ela até tem meu sobrenome. Já a conheci, já fui à casa dela na época com a Leninha, minha treinadora. Hoje ela também torce muito por mim. É uma inspiração, uma pessoa que sempre teve uma vida difícil e treinou muito duro. Também tenho outras referências no Brasil, atletas que admiro, colegas e amigas. Temos que admirar quem é do Brasil, torcer pelas brasileiras também, porque todo mundo treina, se dedica e passa por momentos difíceis. Também me inspiro em homens, colegas meus. Tenho um amigo que foi o melhor brasileiro na São Silvestre, com uma história de vida de quem trabalhava com lixo e hoje está entre os melhores do Brasil. São histórias que arrepiam. Todo mundo tem sua história de desafios e dificuldades. O atletismo é um esporte muito desvalorizado, não tem o apoio que o futebol tem. Mas não é só o atletismo. Acho que no Brasil falta incentivo em todos os outros esportes. Quando chegamos às Olimpíadas, vemos o quadro de medalhas dos Estados Unidos lá em cima e o do Brasil bem abaixo. Acredito que isso também seja falta de apoio para que mais pessoas consigam chegar ao esporte. Antigamente tínhamos mais medalhas na natação e em outros esportes. Mas continuamos fazendo nossa parte, treinando com o apoio que temos e sem desanimar.
Tribuna: Antes da entrevista, você comentou sobre o sonho olímpico e as dificuldades que as brasileiras enfrentam para conseguir uma vaga nas provas de longa distância. Mesmo com o crescimento da corrida no país, a falta de investimento ainda é um obstáculo. O que precisaria mudar para que o Brasil tivesse mais atletas disputando essas provas nas Olimpíadas?
Amanda: Os índices olímpicos estão cada vez mais altos. Hoje temos nas Olimpíadas as provas que faço, os 5 mil, 10 mil metros e a maratona. Na pista são os 5 mil e 10 mil metros, e na rua é só a maratona. Acho que falta apoio para pegar os melhores do Brasil no ranking dos 5 mil e 10 mil metros e investir neles. Fazer uma temporada fora, por exemplo, para incentivar mais o atleta a cumprir um ciclo olímpico. Às vezes o atleta fica competindo muito porque precisa ganhar dinheiro em algumas provas maiores e não consegue fazer o ciclo de preparação necessário para chegar às Olimpíadas. Se tivéssemos mais incentivo, poderíamos ter mais pessoas representando o Brasil. Nas duas últimas edições, não tivemos representantes na maratona feminina. É uma prova em que acredito que tenho condições de buscar a vaga, mas os índices estão muito difíceis e altos. Mesmo assim, nada é impossível. Temos que correr atrás.
Tribuna: Você comentou que fazer uma temporada internacional seria importante para buscar o índice olímpico. Por que competir no exterior pode oferecer melhores condições para alcançar as marcas necessárias, especialmente na maratona?
Amanda: Aqui no Brasil, a maioria das maratonas tem subida e descida. Temos Curitiba e São Paulo, que são provas mais pesadas. Temos o Rio de Janeiro e Porto Alegre, que é considerada a mais rápida do Brasil. Mas não são as maratonas ideais para fazer a melhor marca, porque faz calor e os percursos não são totalmente planos. Fora do país, temos maratonas consideradas mais rápidas, mais planas e que oferecem uma pontuação maior para Olimpíadas e Mundiais. É isso que estou buscando. Agora fui a Berlim, fui a melhor brasileira, melhorei minha marca, mas sei que tenho muito a melhorar ainda. Para o ano que vem, já tenho uma maratona no calendário, no início do ano. Vamos continuar firmes para conseguir grandes objetivos.
Tribuna: As Olimpíadas são seu maior sonho, mas você também conhece as dificuldades para conquistar uma vaga. Como mantém esse objetivo vivo e o que pretende fazer nos próximos anos para tentar representar o Brasil nos Jogos?
Amanda: Meu maior sonho, e acho que o de todos os atletas profissionais, é chegar às Olimpíadas. O caminho não é fácil, mas também não é impossível. Vou continuar fazendo o que tem que ser feito, focar mais nas provas-alvo, nas provas maiores, e nos treinamentos para conseguir chegar ao meu objetivo principal, que é estar nas Olimpíadas. Fazer as pontuações, escolher as provas certas e não desistir. Sei que não vai ser fácil chegar lá, mas também não é impossível. Vamos continuar focados.
Tribuna: Você fala muito sobre foco e disciplina, características que parecem fazer parte da sua personalidade. Mesmo depois de tantos anos competindo e de tantas conquistas, ainda existe alguma coisa que provoca medo ou insegurança antes de uma prova? Como você lida com esses sentimentos?
Amanda: A gente que é atleta de alto rendimento, e os amadores também, todo mundo sente um friozinho na barriga em algumas provas-alvo, principalmente nas mais importantes. Mas tentamos controlar isso, precisamos nos acalmar para entrar concentrados e buscar nossos objetivos. Sempre falo que temos que fazer por nós, focar no que queremos e fazer força. Quando temos um objetivo, precisamos focar e fazer força do início ao fim.
Tribuna: Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para as pessoas de Juiz de Fora, de Mercês e para todos que acompanham sua trajetória? A quem dedica as conquistas que alcançou até hoje?
Amanda: Primeiramente, dedico a Deus, por sempre me dar força e coragem para atingir meus objetivos. À minha família maravilhosa, aos meus amigos e fãs que se inspiram e torcem de verdade por mim, aos meus patrocinadores e apoiadores, porque sozinhos não chegamos a lugar nenhum. Precisamos do apoio da família, dos amigos e da nossa equipe multidisciplinar. O recado que dou para vocês é que, quando queremos alguma coisa, temos que lutar e acreditar, porque na vida nada é impossível quando queremos conquistar. Então faça sempre a sua parte.
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