Pela primeira vez na história, uma seleção da África disputa as semifinais de uma Copa do Mundo. Quis o destino que Marrocos e França se encontrassem no Catar em 2022.
Os dois países trazem para a partida o fardo histórico da colonização francesa a Marrocos, que durou quase meio século, além do fluxo migratório que faz com que as duas nações se “interliguem” em alguns instantes, até mesmo nesse Mundial.
Regragui e seus comandados
O século XXI é marcado por um verdadeiro “boom” de jogadores de futebol filhos de imigrantes. Esse fenômeno começou antes e, no caso de Marrocos, é personificado pelo atual treinador.
Hoalid Regragui nasceu na França, em 1975, e fez carreira como jogador majoritariamente no próprio país. Ele defendeu clubes como o Toulouse, o Ajaccio, e o Grenoble, e possui a nacionalidade marroquina e também a francesa.
“Eu nasci na França e tenho dupla nacionalidade. Não estou super feliz por enfrentar a França, mas isso é futebol. Tenho que cumprir meu dever como técnico da seleção nacional”, declarou Regragui em entrevista antes do jogo com França.
Além de seu comandante, o plantel de Marrocos nesta Copa conta com dois atletas nascidos na França. O zagueiro Romain Saiss, atualmente no Besiktas, iniciou a carreira no futebol francês, e já defendeu também o Wolverhampton.
Já o atacante Sofiane Boufal, um dos destaques marroquinos no Mundial, nasceu em Paris e veste a camisa do Angers. Ele ainda defendeu o Lille, o Southampton e o Celta de Vigo.
História antiga
Os laços entre Marrocos e França perduram desde os primórdios da Copa do Mundo. E não é qualquer laço. O maior artilheiro francês em Copas nasceu em Marrakech no ano de 1933.
Just Fontaine é filho de um colono francês e de mãe nascida na Espanha. Naquele período, Marrocos fazia parte do chamado “Protetorado Francês”, e o atacante deu seus primeiros passos como jogador no Union Sportive Marrocaine.
Contratado pelo Nice e depois Stade de Reims, Fontaine assombrou o mundo na Copa de 1958 ao marcar 13 gols em seis partidas disputadas. Até hoje, ele é o maior artilheiro em uma só edição de Copa e maior goleador da França em Mundiais.
Chegamos a 2022 e, em uma seleção francesa extremamente multicultural, há a presença de um jogador com descendência marroquina. O meio-campista Matteo Guendouzi chegou a ser convidado para defender Marrocos, quando atuava nas categorias de base, mas optou por rejeitar o convite.
A Copa da Globalização
Na Copa do Mundo de 2022, apenas quatro seleções tiveram lista de convocados em que todos os jogadores nasceram no país que representam na disputa. A Argentina, o Brasil, a Arábia Saudita e a Coreia do Sul.
Essa globalização trouxe momentos marcantes para a história dos Mundiais como, por exemplo, jogadores que marcaram gols diante de seus países de nascimento.
Foram os casos do atacante Breel Embolo e Wahbi Khazri, que anotaram os gols da vitória para Suíça e Tunísia, mas são nascidos respectivamente em Camarões e França.
Até mesmo a fase de mata-mata não escapou dessas curiosas histórias. Nascido na Suíça, o goleiro Diogo Costa eliminou os helvéticos atuando pela seleção de Portugal na fase de oitavas de final.
Já Marrocos conta com duas eliminações com expatriados no elenco. Amallah, Chair e El Khannous eliminaram a Bélgica, onde nasceram, e Hakimi e Mohamadi, nascidos na Espanha, eliminaram a Fúria nas quartas.
Quem quer que seja o vencedor da semifinal desta quarta-feira (14), marroquinos e franceses colocam em campo séculos de história. E ela será escrita mais uma vez, agora com o futebol como palco.







