A onda de remakes e remasters de jogos continua firme e vai ser forte neste ano de 2023, com alguns títulos de terror/ação que estão a caminho. Mas agora é o momento de Dead Sapce brilhar, quinze anos depois da versão original, com um remake muito bem feito para a atual geração de consoles.
De volta a USG Ishimura
A desenvolvedora Motive Studios levou ao pé da letra a ideia de “refazer” Dead Space, se mantendo fiel em quase tudo ao reconstruir o jogo original usando o motor gráfico Frostbite — este, originalmente, criado pela produtora DICE para a franquia Battlefield, mas agora o motor gráfico é usado em vários jogos da Electronic Arts.

A ambientação, o clima e as mecânicas são praticamente as mesmas, mas com ajustes de qualidade de vida para tornar a experiência mais dinâmica e atual. Sim, tá igual, mas também diferente. A trama segue o mesmo modelo: você é Isaac Clarke, um engenheiro mecânico espacial levado por uma equipe para atender ao chamado de emergência da espaçonave de mineração planetária USG Ishimura.
Isaac também tem um motivo pessoal, que é reencontrar sua amada Nicole, uma das cientistas da nave. É claro que as coisas dão errado quando a equipe faz uma aterrissagem forçada e descobre que todo mundo da Ishimura desapareceu e criaturas bizarras se esgueiram por todos os cantos.

O desenrolar continua bom e envolvente, mas desta vez Isaac fala e reage às coisas ao seu redor. Vale lembrar que no jogo original, o protagonista seguia a linha do “herói mudo”, tão comum em jogos de RPG tradicionais e outros gêneros do passado. O ator Gunner Wright, que deu voz a Isaac a partir de Dead Space 2 (2011), repete seu trabalho aqui.
Por outro lado, confesso que isso me incomodou um pouco, pelo fato de que algumas das novas falas e manifestações de medo parecem não condizer com a expressão corporal do personagem. Às vezes Isaac fica desesperado nas falas, mas fisicamente ele está normal até demais, criando essa incoerência. Mas calma, não é nada grave… só um incômodo mesmo.

O jogo recebeu uma camada de história adicional, com novas linhas de diálogos e muita informação extra para personagens secundários que ficaram mais interessantes. E por falar em secundário, agora você tem missões extras, novos arquivos de áudio, texto e vídeo. Esse conteúdo adicional faz ajustes e correções, deixando a trama mais consistente e coesa com os outros dois jogos. Mas a maior estrela nessa repaginada é o visual reformulado.
Lá em 2008 o jogo já era bonito e esbanjava um trabalho elegante, mostrando uma das melhores interfaces de usuário já vista em um videogame. E ela continua magnífica nessa versão de 2023! Assim, quando o jogo é bom, a parte visual é um detalhe. Mas se o jogo for bom e bonito, melhor ainda. E no caso desse remake, o trabalho de melhoria gráfica foi crucial para manter sua atmosfera… e o jogo ficou ridiculamente bonito! Agora recheado de detalhes que enriquecem os ambientes, os personagens e torna tudo mais imersivo.

Vários pequenos elementos foram incorporados aos cenários, permitindo muita interação, seja quebrando, derrubando ou movendo coisas com uma naturalidade incrível. O trabalho com iluminação, névoa e partículas é sensacional e faz uma gigantesca diferença, principalmente se você estiver jogando em uma boa TV/monitor para perceber plenamente os detalhes durante a ação ou exploração. Sério, é um espetáculo.
E ainda que o clima de solidão e claustrofobia o acompanhe, foram feitas melhorias no sistema de encontros dinâmicos. Esse sistema é responsável por aqueles momentos em que você está andando por um local e, repentinamente, um Necromorfo brota de uma tubulação e você dá aquela mordida no assento da cadeira com a bunda de susto. Não há tantos momentos de sossego em suas andanças.

Esse sistema de encontros dinâmicos contribui para que monstros apareçam quando você revisitar áreas. Explorar? Sim. Relaxar? Jamais! Existem mais de 1200 desses encontros aleatórios, que podem gerar situações. Jogue de luz apagada e com fones de ouvido e pronto, clima perfeito para diversão de alto nível… ou ter um pânico, se você for do tipo cagão medroso.
Era bom, ficou melhor
Em se tratando de jogabilidade, o jogo bebeu alguns recursos de Dead Space 2 para deixar as mecânicas mais envolventes. Uma delas é o módulo de Cinese, que permite pegar objetos e arremessá-los. Com isso, a possibilidade de cravar um inimigo na parede com cano de ferro, barras ou o braço-garra de um Necromorfo estão presentes. Também dá para jogar as hélices dos tubos de ventilação quebradas para fatiar alguns bichos, ou só puxar itens a uma certa distância, mover caixas ou objetos menores para abrir caminhos. Outra brincadeira presente agora são os disjuntores, que servem para direcionar energia de um recurso para outro, como abrir portas, ativar elevadores e por aí vai.

Dentre as melhorias, o sistema de evolução de equipamentos foi repaginado e possui mais pontos de aprimoramento. Algumas armas ganharam novos tiros secundários e melhorias que, honestamente, achei boas demais a ponto de deixar certas armas o cúmulo da apelação suprema. Quer criar uma barreira de raios que pode matar inimigos que tentem cruzá-la? Ou lançar uma espécie de mini-buraco negro que suga o inimigo, torcendo e arrebentando o corpo dele até não restar nada? É, pode ostentar esse sorrisinho de alegria. Dá para fazer isso agora.

Os ambientes de gravidade zero também mudaram bastante, pois agora Isaac pode flutuar livremente e explorar áreas mais abertas. E “voar” é bem legal e intuitivo. Um novo extra para dar mais substância à exploração foram os acessos de segurança. Para é preciso ter o acesso necessário para abrir portas, armários e caixas de nível 1, 2 e 3, além de um acesso de nível máximo para abrir portas identificadas por uma estrela amarela, principalmente se quiser pegar acessórios para suas armas.
A nave Ishimura continua igual no geral, inclusive sua estrutura de exploração e grandes áreas segmentadas. Mas, agora, não existem mais telas de carregamento cortando a ação. O jogo acontece num único plano sequência ininterrupto, como o visto em God of War em 2018. Você ainda transita entre áreas distintas na nave usando o transporte, mas ele funciona como “viagem rápida”. A Ishimura ganhou áreas que se conectam, permitindo fazer uma transição a pé. É bem legal.

Quanto aos Necromorfos, eles ganharam uma melhoria absurda no visual, tornando-os mais medonhos para desgraçar sua cabeça. Ou seja: estão ótimos! O sistema de desmembramento ganhou melhorias e dependendo do tipo de arma e onde você acerta o inimigo, pode destroçar seus corpos das maneiras mais grotescas como arrancar a pele, rasgar músculos a ponto de deixar braços pendurados — se usar a Cinese, pode arrancar o membro e usá-lo contra o próprio inimigo —, ver a carne derreter, expor a estrutura óssea do monstro e, claro, ver sangue e entranhas voando.
Sob pressão… no espaço
Além de se manter fiel ao clássico, Dead Space Remake conseguiu integrar essas pequenas mudanças que não quebram a rotina da experiência do original. Mas, por outro lado, o jogo sofre com pequenos problemas de “nova geração”, ao menos no caso do PlayStation 5, quando se joga em modo Desempenho (com 60 quadros de animação que deixa a movimentação muito mais fluida e incrível) ou Qualidade (30 quadros de animação e efeito de ray tracing, com efeitos de neblina e iluminação ainda mais rebuscados).

Apesar da beleza, o modo Desempenho deixa escapar texturas serrilhadas, principalmente quando você abre o inventário ou faz a troca de arma usando o direcional digital. Já no modo Qualidade, o jogo não parece segurar os 4K constantes e nem sustentar a taxa de quadros, principalmente em lugares com muitos elementos na tela, quando você está agindo rápido.
E tem a questão da física de corpos, principalmente a de monstros mortos. Vez ou outra o corpo de um Necromorfo pode “enroscar” nas suas pernas a ponto de causar problemas de colisão ao passar por portas ou objetos em corredores estreitos. São coisas que não incomodam tanto, exceto quando você tá no desespero no meio de uma luta e inventa de fugir.

Fora isso, ainda é um jogo impressionante, especialmente nas batalhas contra monstros gigantes, que receberam um tratamento estético que os deixaram mais incríveis do que eu lembrava. Para apimentar o valor replay, a Motive Games adicionou um colecionável inédito no pós-game: achar 12 fragmentos de um objeto para assistir ao final alternativo.
E o trabalho na parte sonora é fantástico. Certamente este remake é uma excelente porta de entrada para quem nunca jogou o original, pois vai pegar uma fórmula mais refinada e robusta, que usa o poder da atual geração de videogames para criar uma experiência de alto nível, apesar do preço do jogo (inicialmente) não ser muito atrativo também.

Por outro lado, essa toda essa fidelidade do remake, exceto as novidades e melhorias, também provou que o Dead Space original no PC e, principalmente, na retrocompatibilidade com o Xbox Series S/X (com as melhorias automáticas de qualidade de vida que o console da Microsoft aplica) continua sensacional. Ter aquele conhecimento prévio do que fazer ou como fazer elimina qualquer surpresa e minimizou aquela sensação de jogar pela primeira vez.

Não me entenda errado, gostei demais do remake, só me batia aquela sensação “é o mesmo jogo, só que mais bonito”. Acho que eu esperava alguma adição mais ousada para sentir alguma migalha de ineditismo na experiência. Ainda assim, Dead Space Remake é um jogão!







