Dizer que Hogwarts Legacy teve um desenvolvimento complicado é quase um eufemismo. Anunciado ainda em 2020, o jogo passou por inúmeros problemas e adiamentos, e como se isso não fosse pouco, ainda teve sua própria existência colocada em xeque após as falas transfóbicas de J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter. Agora que o game finalmente está entre nós, e a pergunta que todos se fazem é: valeu a pena esperar?
Seja você um fã de games de mundo aberto, do universo de Harry Potter ou dos dois, vai ficar muito feliz em saber que a resposta é sim, o jogo vale muito a pena e entrega tudo o que prometeu por tanto tempo. Este não é apenas o melhor game de toda a franquia, é também a experiência mais imersiva neste mundo mágico até hoje, com inúmeras coisas para fazer, lugares para explorar e aventuras para viver.
Desfazendo as malas

O mergulho no mundo mágico começa antes mesmo de o jogo em si começar, na tela de construção de personagem. São literalmente dezenas de opções para construir seu avatar dentro do universo do jogo, que não deve em nada a outros títulos com este mesmo modo de criação. Do formato do rosto ao tom de voz, do penteado à marcas na pele, é possível construir algo parecido com você ou ir por outro caminho e fazer um personagem totalmente diferente. Na minha opinião pessoal, quanto mais parecido com você for seu “boneco”, maior vai ser sua imersão, né?
O avatar que você construir também não está preso por seu gênero. Em um movimento que pode ou não ter sido um gesto de discordância e até de afronta às opiniões distorcidas de J.K. Rowling por parte da equipe de desenvolvimento do jogo, é possível criar um avatar trans e fazê-lo protagonizar a história, com todo o destaque que merece. Este é o nível de liberdade que o game oferece neste quesito, algo que deve ter seu valor reconhecido.
Personagem construído, é hora de ir em direção à Hogwarts, onde sua aventura finalmente vai começar. E por falar em aventura…
Harry Potter sem Harry Potter não é golpe
A trama do jogo se passa em 1890, um século antes dos acontecimentos de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro livro do menino bruxo. Isso obviamente significa que (quase) nenhum personagem querido dos livros dá as caras por aqui, mas isso não quer dizer que a história não apresente seus próprios personagens e nos faça se apaixonar por cada um deles.
Você é um aluno/aluna/alune que vai iniciar seus estudos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts já a partir do quinto ano, algo extremamente raro de se acontecer e visto pouquíssimas vezes na história da instituição. Com uma estranha capacidade de ver e interagir com magia ancestral, você já entra em confusão antes mesmo de chegar ao colégio, quando sua carruagem é atacada por um dragão e a pessoa com quem você deveria se encontrar morre.

Ainda sem entender seu papel no mistério a ser desvendado, você é se atrasa na cerimônia de acolhida dos alunos, toma uma bronca do diretor e aí participa do momento mais decisivo da vida de qualquer estudante: a escolha de sua casa. Dependendo do que você responder, o Chapéu Seletor, que nunca erra em seu julgamento, vai te mandar para Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa ou Corvinal. Contudo, assim como acontece nos filmes e nos livros, ele também leva sua opinião em consideração.
Ali mesmo, no salão principal, você começa a fazer seus primeiros amigos, que vão te ajudar bastante a encontrar seu lugar na escola e a descobrir cada segredo escondido nela. Alguns deles até irão arriscar a própria vida por você em batalhas contra bruxos das trevas, criaturas mágicas e duendes mal intencionados. Falando neles, a trama do jogo foca principalmente na revolta dos duendes, ocorrida durante o século 19 e apenas brevemente mencionada nos livros, expandindo ainda mais o universo mágico.

Essas interações com os alunos e professores é divertida, mas rasa. Não há grandes consequências dependendo do que você responde, seja você um escoteiro puro de coração ou um completo babaca com todo mundo. Não é nada que estrague a experiência, mas tira o potencial para uma camada de profundidade à mais.
Vamos à escola, toda hora é hora
Casa escolhida, agora é hora de assistir às aulas! É claro, tá pensando que a vida em Hogwarts é só magia e diversão, é? Que nada: você tem muito o que aprender e muito dever de casa para entregar, como em qualquer escola da vida real.
É na sala de aula que você vai aprender tudo o que é preciso para ser um bruxo competente. Nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas da professora Dinah Hecat, você aprende a atacar e se defender usando sua magia, enquanto que na matéria de Feitiços é o professor Abraham Ronen quem vai te ensinar a se virar. Saudades do professor Severo Snape em Poções? Não precisa: o professor Aesop Sharp, um ex-auror velho de guerra e com uma personalidade tão difícil quanto, será seu mentor nesta fina arte. Aos poucos, você vai conhecendo melhor tanto seus colegas de sala quanto o corpo docente, até finalmente passar a compreende-los tão bem que se sentirá parte daquele mundo, como todo bom RPG em mundo aberto deve ser.

E por falar em mundo aberto, pela primeira vez nos games, a escola de Hogwarts é totalmente sua para explorar como bem entender. Corredores escuros, escadas que se mexem, salões comunais, torres imponentes, a famosa Sala Precisa, nada será um mistério para você. É a realização de um sonho para qualquer fã de Harry Potter que se preze e, arrisco dizer, até muda a maneira como você vai ver os filmes depois, pois vai ficar com a impressão de que já passou pelos lugares mostrados na tela e conhece cada um deles com a palma de sua mão, como se realmente tivesse estado lá.
Sendo Hogwarts um lugar enorme localizado em um mundo aberto ainda maior, é claro que a função de viagem rápida se faz necessária, e até aí podemos ver o comprometimento da equipe de desenvolvimento com as regras deste universo. Como todo fã sabe, não é possível aparatar dentro dos terrenos do colégio, sendo necessário para isso o uso de Pó de Flu para encurtar a distância entre um ponto e outro. Dá até para bater um papo com a bruxa que criou esse meio de se viajar.
Hora do recreio
Depois de um dia inteiro de estudo, chega aquela hora de relaxar um pouco e dedicar o nosso tempo com outras coisas, e o que não falta em Hogwarts Legacy é coisa para fazer. Dentro da escola, há uma série de Side Quests e atividades extracurriculares para realizar com a ajuda de alunos, professores e até dos fantasmas que habitam o local.
Você pode treinar suas habilidades de combate no clube de duelo do colégio, participar de um competitivo de atrair esferas usando Accio, testar sua perícia em voo com vassouras pelo campo de Quadribol e por aí vai. Se quiser dar uma voltinha em Hogsmeade para tomar aquela cerveja amanteigada ou comprar itens, também dá! Durante sua jornada, você vai encontrar várias localidades conhecidas dos filmes e conhecer outras inéditas, mas tão encantadoras quanto.

Entretanto, nem tudo são flores. As Side Quests são quase todas bem desinteressantes. Ao contrário do que acontece em The Witcher 3, por exemplo, onde cada missão opcional tem uma pequena história que te instiga a ir até o final, aqui quase todas são repetitivas, apenas pequenos favores para se fazer a outros alunos, recolher partes de um mapa flutuando por aí ou levar mariposas mágicas de volta para espelhos. Elas valem pelas recompensas, mas não são muito divertidas.
Feitiçaria e porradaria
Agora vamos ao que interessa: combate! Hogwarts Legacy oferece as melhores mecânicas de luta de toda a história da franquia Harry Potter nos games, oferecendo toda uma gama de feitiços de ataque e defesa que podem ser usados de forma combinada para causar um enorme estrago em qualquer um que ouse desafiá-lo para um duelo.
É possível usar Protego para invocar um campo de força, depois Levioso para fazer o adversário levitar, alvejá-lo com ataques básicos em seguida, arremessá-lo no chão com força e depois terminar tudo com um Incendio bem na cara do infeliz, tudo em uma mesma jogada. A liberdade para criar seus combos é total, limitada apenas pelo tempo de carregamento de cada feitiço entre um uso e outro, tornando necessário que o jogador bole uma estratégia de luta para ter sucesso ao invés de só sair esmagando botões a esmo.

Além dos feitiços combinados, também dá para usar itens especiais no meio do combate para infligir ainda mais dano, como plantas-bomba e outros aparatos mágicos. Lutar se torna algo tão divertido que eu mesmo nem pensei muito em ser furtivo e evitar confrontos, preferindo entrar com o pé na porta do covil do inimigo e fazer todos ali sentirem o gosto da minha magia na base da porrada.
Conclusão
Se você é um fã de Harry Potter, vai se divertir muito com Hogwarts Legacy. Tirando logicamente o parque temático do Universal Studios, esta talvez seja a experiência que mais vai fazer com que você sinta como se fizesse parte daquele mundo. Cada localidade é cheia de vida, cada personagem tem seu carisma e cada corredor da escola de magia guarda seus segredos e suas surpresas. A trama é intrigante e é uma excelente adição à lore da franquia, sendo muito gostoso ver os antepassados de alguns de nossos personagens preferidos plantando a sementinha das tretas que vão se desenrolar no futuro.

Caso você não manje muito, mas goste de bons RPGs de ação em mundo aberto, também vai gostar bastante, pelos mesmos motivos e mais. Usar sua varinha para fazer combos de feitiços é sensacional, mas não tanto quanto voar nas costas de um Hipogrifo ou de um Testrálio pelo vasto mapa do jogo, seja procurando por aventuras ou simplesmente admirando os belíssimos cenários.
De qualquer forma, Hogwarts Legacy é um game que com certeza vai deixar sua marca não só na nona geração de consoles, mas também nos corações dos fãs como algo difícil de ser superado.







