LGBT+: Sabia que a política era talvez a minha única possibilidade – Duda Salabert | Brasil

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Em especial no Dia Internacional do Orgulho LGBT+, o Valor apresenta histórias e testemunhos de pessoas com expressão em várias áreas – da política aos negócios – em um mosaico da diversidade e da inclusão no país. Conheça o da deputada federal Duda Salabert (PDT-MG):

Foi em 2016 quando Duda Salabert, professora que anos depois se tornaria a vereadora mais votada de Belo Horizonte e deputada federal mais votada da história de Minas Gerais, decidiu mergulhar em uma carreira partidária. Seu objetivo, relata, era construir um programa que precisava ser vocalizado. Mas havia também uma questão de sobrevivência sobre a mesa: Duda sabia que sua própria existência estaria em xeque, tão logo tornasse pública a transição de gênero.

“Ao mesmo tempo em que eu me filio em 2016 ao Psol, eu estava iniciando publicamente a minha transição de gênero. Eu sabia que seria demitida, quando publicizasse de fato a transição. E sabia que a política era talvez a minha única possibilidade de existência, porque quando se faz uma transição de gênero tudo é político: o seu corpo é político, os espaços que você frequenta vão assumir contornos políticos, suas falas são políticas”, pontua a parlamentar. “Então, se a minha existência por si só já é política, ela só é possível também dentro da política institucional e partidária. Então, eu tinha no horizonte não necessariamente uma candidatura, mas que eu teria que seguir uma carreira na política, seja enquanto dirigente partidária ou na composição de algum gabinete.”

Hoje filiada ao PDT, Duda teve seu primeiro contato com a política em 1989. À época com oito anos de idade, lembra da mobilização de todo o bairro e de familiares na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Envolveu-se depois no movimento estudantil e, em 2013, participou das jornadas de junho. Mais próxima dos movimentos sociais, também mobilizou-se contra a realização da Copa do Mundo no Brasil e contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Duda foi alvo de ameaças de morte de extremistas de direita, atacada por setores da esquerda e lamenta o fato de não conseguir mais emprego na área da educação.

“Eu tinha total certeza que seria demitida e tinha total certeza que não seria admitida por nenhuma outra escola”, diz. “Não existe meritocracia para grupos historicamente marginalizados e aviltados socialmente. Meritocracia existe é uma falácia, um mito, e só existe de fato para grupos privilegiados”, acrescenta, citando o próprio exemplo: é formada é letras e antropologia, e está cursando gestão pública. “Tenho três experiências acadêmicas, dei aula por mais de 20 anos”, conta. “Em tese, após eu ter sido demitida, era para estar chovendo proposta de emprego, coisa que não acontece. Eu tinha mais chance de conseguir emprego 15 anos atrás ou 20 anos atrás, quando eu não tinha nenhuma experiência no currículo, mas não tinha iniciado a transição, do que hoje.”

No Psol, foi convidada a disputar o governo do Estado de Minas Gerais, deputada federal e estadual. Mas negou. Aceitou concorrer a uma vaga no Senado, pois entendia que em 2018 vivia-se a maior crise do capitalismo desde 1930. “O que se tem em uma economia em crise é o rebaixamento da categoria de humanidade”, destaca. “Eu entendia que, já que eu faço parte de um grupo que historicamente foi negado à categoria de humanidade, que são pessoas travestis e transexuais, disputar as eleições para o Senado seria disputar também essa dimensão simbólica. Seria uma candidatura simbólica, já que Senado significa ‘senhores’, ‘casa dos senhores’.”

Concorrendo com campanhas milionárias, recebeu R$ 15.690 do Psol. E depois deixou o partido por uma série de divergências, diz. Filiada ao PDT, elegeu-se vereadora com votação recorde com a promessa de cumprir o mandato até o fim e continuar dando aulas. Mas não recebe convites para ensinar.

FONTE: GLOBO.COM