As emissões de gases de efeito estufa (GEE) da cadeia de suprimentos são, em média, 11,4 vezes maiores do que as emissões das próprias atividades das empresas. É o que afirma relatório recente feito pela plataforma de acompanhamento de dados climáticos CDP Latin America, com base em dados de 25 grandes organizações latinoamericanas, sendo 20 brasileiras. A mensuração, controle e mitigação da poluição de terceiros é um dos maiores desafios do setor corporativo hoje, especialmente em cadeias longas, como a do agronegócio, automotivo e de construção civil.
A boa notícia é que houve um aumento de 45% no número de fornecedores dessas companhias avaliadas que passaram a reportar seus dados sobre emissões. Em 2021 eram 1.515 fornecedores, número que saltou para 1.902 em 2022. Segundo o CDP, eles fazem parte da cadeia de fornecedores de 25 organizações, sendo 20 brasileiras.
Para Lais Cesar, diretora de desenvolvimento de negócios do CDP Latin America, comenta que, embora ainda abaixo do ideal, o crescimento no engajamento da cadeia é positivo. Mas, reitera o papel das grandes empresas, contratantes, em ajudar a acelerar a adoção da prática.
Segundo o estudo, apenas 12% das grandes empresas têm planos próprios de transição climática, 18% têm metas de descarbonização e somente 31% mensuram o escopo 3 do GHG Protocol, diretamente relacionado à cadeia de suprimentos. “Isso se reflete na forma como transferem seus compromissos para suas cadeias de suprimentos e, consequentemente, no nível de engajamento”, diz Cesar.
Mas só coletar dados não é suficiente para atingirem as metas de descarbonização e chegar ao net zero, status de emissões líquidas zero de carbono. Elas precisam capacitar, acompanhar e, em algumas situações, viabilizar as boas práticas nas contratadas. Das grandes empresas, apenas 7% das latinas e 9% das brasileiras acompanham de perto o que sua cadeia de suprimentos está fazendo com relação ao tema, de acordo com o estudo.
“É fundamental que as grandes empresas sigam apoiando a implantação de planos consistentes de descarbonização. Caso contrário, muitos terão dificuldades de crescer com a transição para uma economia de baixo carbono”, pontua Cesar.
É natural que setores de cadeia mais longa e/ou complexa levem mais tempo para mapear sua pegada de carbono e incentivar os fornecedores a fazer o mesmo. A pecuária é um desses. Cerca de 44% das companhias da área, segundo o CDP, não contam com mecanismos de rastreabilidade. “Apenas uma única empresa brasileira é capaz de rastrear mais de 60% de sua produção ou consumo até o primeiro nível de fornecimento (fazenda de cria ou bezerros)”, comenta Cesar.
Na outra ponta, um exemplo positivo é o setor de papel e celulose. Três em cada quatro empresas (77%) têm mecanismos de rastreabilidade de sua cadeia. Outros destaques do relatório deste ano são serviços, manufatura e transporte que tiveram um aumento de empresas que engajaram sua cadeia.
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“Nossa expectativa é que, com a crescente obrigatoriedade de reportar e endereçar ações de redução do escopo 3, seja para atender a metas corporativas ou a exigências de instituições financeiras, as empresas passem a estruturar programas mais consistentes de engajamento de suas cadeias. Isso significa, não apenas incentivar o diagnóstico, mas contribuir na capacitação de fornecedores em sua gestão ambiental”, comenta.
Para Carla Leal, diretora de Digital da WayCarbon, consultoria especializada em soluções para descarbonização, o alto custo de implementação de um inventário de emissões e o nível de esforço exigido tanto de empresa quanto de fornecedor, acabam sendo os dois principais obstáculos para a popularização da prática. “
O processo de coleta e organização de informações é oneroso, muitas vezes para a empresa e para os fornecedores, tornando-se mais uma demanda da empresa para a sua cadeia de suprimentos”, diz.
Ela lembra que os fornecedores geralmente já têm que prover informações financeiras para análise de risco de crédito, informações sobre temas sociais como, por exemplo, sobre o uso de mão-de-obra escrava ou infantil, informações sobre LGPD ou cyber security e assim sucessivamente. “Para empresas de pequeno e médio porte, que têm recursos limitados e geralmente não possuem inventário de emissões de GEE, essa demanda pode realmente trazer um ônus.”
E não se trata apenas de coletar dados e medir. Dependendo do volume de emissões de seus fornecedores, a companhia ainda precisa estabelecer um plano de mitigação que envolva a cadeia.
O relatório do CDP traz ainda que, entre os fornecedores de empresas brasileiras que reportaram emissões no último ano, 22% possuem metas de descarbonização, contra 19% abaixo na América Latina. Na região, 12% afirmam ter um plano de transição alinhado com as metas de 1,5ºC estabelecidas no Acordo de Paris, índice muito próximo ao brasileiro (13%).
Quase metade (45%) dos fornecedores mostraram entender a importância da agenda climática, especialmente pelo potencial de impactos financeiros nos negócios. Segundo o estudo, somados, o impacto por eles avaliado chega a US$ 25 bilhões. Por outro lado, também já veem oportunidades, na casa de US$ 81 bilhões.
“Para que a sociedade estabeleça estratégias e ações efetivas de combate a mudanças climáticas, é fundamental ter uma visão objetiva e real da atual situação”, diz Lais Cesar. “O nível de investimento, recursos necessários e o prazo dependem de uma medição precisa, baseada em metodologias reconhecidas, comparáveis e cientificamente embasadas.”
Entre os benefícios de fazer medição e montar um plano de redução e compensação estruturado, a executiva cita acesso a crédito, ganho reputacional e vantagens comerciais e competitivas.
O relatório do CDP cita algumas das companhias que atuam no Brasil que estão fazendo trabalho para engajar suas cadeias de fornecedores na pauta. Entre elas, a cervejaria Ambev, a petroquímica Braskem, os bancos Bradesco, Caixa Econômica Federal e Itaú, a empresa de energia Raízen, a de papel e celulose Suzano e, mais recentemente, Grupo Boticário e Petrobras.






