Como lidar com a falta de apoio do meu líder? | Carreira no Divã

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“Sempre gostei do que faço, mas percebi que de uns meses para cá ando triste e meus colegas têm notado. Continuo fazendo minhas atividades com muita concentração, amor e dedicação, mas passei a tomar medicação quando senti que a minha liderança passou a impedir que eu expusesse o meu ponto de vista, além de limitar minha ocupação no ambiente de trabalho. Minha líder também começou a mostrar em reunião a todos os diretores as minhas falhas e expor questões que compartilho com ela em busca de soluções. Estou triste por ter uma liderança que não me dá suporte. Isso está fazendo mal à minha saúde mental. Devo encerrar meu ciclo ou existe uma alternativa para melhorar minha situação?” Gerente, 28 anos

Quando eu abro uma conversa sobre as dores das organizações, eu faço um convite para líderes e liderados ampliarem a consciência – e o que isso significa? Significa uma tentativa de ampliar a função reflexiva e tentar, minimamente, fazer uma nova leitura da situação. Eu não me refiro aos aspectos que envolvem a operação, mas sim tudo aquilo que afeta o ativo mais importante das empresas: as pessoas.

O relato da leitora expõe claramente um problema de comunicação, uma das principais dores do mundo corporativo, raiz do distanciamento entre líderes e liderados, fonte de dor, desconfiança e desmotivação. Quem gosta de trabalhar dessa forma?

A minha primeira sugestão é lançar-se em uma investigação para descobrir o que pode ter impactado esta relação e contribuído para a mudança de postura dela. Algo aconteceu? Será que ela está vivendo alguma ameaça? Alguma mudança organizacional? Qual parte me cabe às respostas a essas perguntas?

Eu preciso ressaltar que, muitas vezes, o mais importante não é o conteúdo do conflito, mas a raiz dele, isto é, o que provocou a mudança. Perdas, atritos e dificuldades fazem parte de qualquer relação. Por isso, para esgotar as possibilidades antes de uma decisão mais drástica, a minha segunda sugestão é ter uma conversa franca, madura e, talvez, dura, mas necessária.

Colunista observa que correções de rota deveriam ser mais comuns dentro das organizações, mas perdem espaço para uma cultura equivocada de feedback, que faz desses encontros eventos anuais ou semestrais, voltados mais ao sofrimento e à culpabilização — Foto: Freepik
Colunista observa que correções de rota deveriam ser mais comuns dentro das organizações, mas perdem espaço para uma cultura equivocada de feedback, que faz desses encontros eventos anuais ou semestrais, voltados mais ao sofrimento e à culpabilização — Foto: Freepik

A criação desse espaço de diálogo e expressão, ao contrário do que se pensa, não cabe somente ao líder e é fundamental para esclarecer ambivalências e divergências, além de sanar sentimentos de injustiça e impotência. O resgate do que aconteceu nos últimos meses, por meio de fatos e dados, não só de percepções e sentimentos, é uma saída para a construção de caminhos possíveis e até então inimagináveis.

Reforço que essa correção de rota deveria ser mais comum dentro das organizações, mas perde espaço para uma cultura equivocada de feedback, que faz desses encontros eventos anuais ou semestrais, voltados mais ao sofrimento e à culpabilização. A subversão dessa lógica pode fortalecer também o vínculo entre líder e liderado, esclarecendo mal-entendidos, derrubando teorias da conspiração e, principalmente, prevenindo adoecimentos mentais.

Discutir a relação com responsabilidade afetiva e boa intenção não é só um ato de coragem; é uma medida extremamente urgente e necessária na maior parte das relações, e sobretudo, organizações.

Mariana Clark é psicóloga, especialista em saúde mental, perdas e luto no contexto organizacional e escolar.

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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

FONTE: GLOBO.COM