Eles caminham devagar, bem devagar, quando ainda conseguem caminhar. Tomam de oito a 12 medicamentos por dia, do amanhecer ao anoitecer. Caminham desviando de buracos nas ruas, quando dão conta disso. Seguem caminhando vencendo os desníveis das calçadas. Enfrentando o medo da queda. Quando não, muitos já foram ao chão e estão no céu. Enfrentam também a pressa das pessoas. A buzina irritante do motorista do carro de trás, que não perdoa o tempo de quem envelheceu e “não pode esperar a pessoa idosa descer do carro para ir ao médico, no Centro da cidade”.
Essas são algumas marcas do cotidiano dos velhos (das pessoas idosas) na cidade, dos idosos que ainda tentam existir nela. A exclusão urbana contribui para a exclusão social das pessoas idosas, porque a cidade não apenas dificulta o deslocamento físico, como também, rompe laços e apaga as presenças dos mais velhos no ambiente público. As cidades brasileiras, de modo geral, quase todas elas, como a nossa, são planejadas para a pressa, para a correria, para o consumo e para o carro. Elas não foram arquitetadas para quem envelhece – realidade humana de todos nós.
O tempo todo temos que estar atentos, velozes e furiosos. Essa arquitetura da exclusão social em que foram colocadas as pessoas idosas está presente quando elas não têm segurança e não são vistas e nem respeitadas na cidade. Recebem olhares atravessados de cinismos como se fossem obstáculos “na rota do seu desenvolvimento”. A cidade apaga os velhos não apenas com a demolição do concreto que vai ao chão, mas com a total indiferença à vida de quem já viveu muito e quer continuar vivendo. Quando o espaço urbano exclui as pessoas idosas – e é o que acontece – a consequência é o isolamento social: sem acesso fácil às praças, transporte público hostil, semáforos com tempo insuficiente para uma travessia com medo de morrer, o idoso se recolhe. Ele fica em casa, na beira da janela, espiando a rua. Passa a ser alguém que vive sem ter visto a vida. Não há lugar para o velho que não produz, não consome, não acelera.
Não é a idade que apaga a pessoa idosa. É a cidade. Para muitas pessoas idosas, o apagamento urbano se traduz em solidão, abandono e desamparo institucional. Essas sensações reais são provocadas por um país e por uma cidade que não quer ver, que não cuida, e que acha, eternamente, que não vai envelhecer. Os novos velhos somos nós, caros leitores e leitoras. Estamos construindo um futuro, construindo uma cidade, onde nós mesmos não caberemos. Envelhecer não deveria ser um encargo, um castigo. Mas, do jeito que nossas cidades tratam as pessoas idosas, parece mesmo uma punição ser velho: “a pessoa idosa está sempre errada, no lugar errado e incomodando todo mundo”. Não tem o direito de existir.
O envelhecimento que deveria ser um tempo de dignidade, vira um período de espera – pela visita que nunca vem, pelo benefício roubado do INSS e pela queda que já aconteceu. Se a cidade não acolhe as pessoas mais velhas, ela falha com todos. É possível e urgente pensar numa cidade que acolhe a maturidade. Mais do que infraestrutura é necessário ter uma mudança de olhar da política pública. Reconhecer que o idoso é um sujeito de direitos.
O conceito de “Cidade Amiga da Pessoa Idosa” proposto pela Organização Mundial de Saúde, mostra que uma cidade boa para quem tem mais de 60 anos, é na verdade, uma cidade melhor para todas as idades. Para as crianças, pessoas com deficiências, gestantes, jovens e adultos. Todos se beneficiariam com uma cidade mais gentil, solidária, inclusiva, plural e diversa. Quem apaga os velhos hoje, será apagado amanhã. E você? Vai esperar até ser ignorado para começar a ver?
- LEIA MAIS textos da coluna A Pessoa Idosa e a Cidade aqui
O post Os ‘velhos’ que a cidade não vê apareceu primeiro em Tribuna de Minas.

Eles caminham devagar, bem devagar, quando ainda conseguem caminhar. Tomam de oito a 12 medicamentos por dia, do amanhecer ao anoitecer. Caminham desviando de buracos nas ruas, quando dão conta disso. Seguem caminhando vencendo os desníveis das calçadas. Enfrentando o medo da queda. Quando não, muitos já foram ao chão e estão no céu. Enfrentam também a pressa das pessoas. A buzina irritante do motorista do carro de trás, que não perdoa o tempo de quem envelheceu e “não pode esperar a pessoa idosa descer do carro para ir ao médico, no Centro da cidade”.
Essas são algumas marcas do cotidiano dos velhos (das pessoas idosas) na cidade, dos idosos que ainda tentam existir nela. A exclusão urbana contribui para a exclusão social das pessoas idosas, porque a cidade não apenas dificulta o deslocamento físico, como também, rompe laços e apaga as presenças dos mais velhos no ambiente público. As cidades brasileiras, de modo geral, quase todas elas, como a nossa, são planejadas para a pressa, para a correria, para o consumo e para o carro. Elas não foram arquitetadas para quem envelhece – realidade humana de todos nós.
O tempo todo temos que estar atentos, velozes e furiosos. Essa arquitetura da exclusão social em que foram colocadas as pessoas idosas está presente quando elas não têm segurança e não são vistas e nem respeitadas na cidade. Recebem olhares atravessados de cinismos como se fossem obstáculos “na rota do seu desenvolvimento”. A cidade apaga os velhos não apenas com a demolição do concreto que vai ao chão, mas com a total indiferença à vida de quem já viveu muito e quer continuar vivendo. Quando o espaço urbano exclui as pessoas idosas – e é o que acontece – a consequência é o isolamento social: sem acesso fácil às praças, transporte público hostil, semáforos com tempo insuficiente para uma travessia com medo de morrer, o idoso se recolhe. Ele fica em casa, na beira da janela, espiando a rua. Passa a ser alguém que vive sem ter visto a vida. Não há lugar para o velho que não produz, não consome, não acelera.
Não é a idade que apaga a pessoa idosa. É a cidade. Para muitas pessoas idosas, o apagamento urbano se traduz em solidão, abandono e desamparo institucional. Essas sensações reais são provocadas por um país e por uma cidade que não quer ver, que não cuida, e que acha, eternamente, que não vai envelhecer. Os novos velhos somos nós, caros leitores e leitoras. Estamos construindo um futuro, construindo uma cidade, onde nós mesmos não caberemos. Envelhecer não deveria ser um encargo, um castigo. Mas, do jeito que nossas cidades tratam as pessoas idosas, parece mesmo uma punição ser velho: “a pessoa idosa está sempre errada, no lugar errado e incomodando todo mundo”. Não tem o direito de existir.
O envelhecimento que deveria ser um tempo de dignidade, vira um período de espera – pela visita que nunca vem, pelo benefício roubado do INSS e pela queda que já aconteceu. Se a cidade não acolhe as pessoas mais velhas, ela falha com todos. É possível e urgente pensar numa cidade que acolhe a maturidade. Mais do que infraestrutura é necessário ter uma mudança de olhar da política pública. Reconhecer que o idoso é um sujeito de direitos.
O conceito de “Cidade Amiga da Pessoa Idosa” proposto pela Organização Mundial de Saúde, mostra que uma cidade boa para quem tem mais de 60 anos, é na verdade, uma cidade melhor para todas as idades. Para as crianças, pessoas com deficiências, gestantes, jovens e adultos. Todos se beneficiariam com uma cidade mais gentil, solidária, inclusiva, plural e diversa. Quem apaga os velhos hoje, será apagado amanhã. E você? Vai esperar até ser ignorado para começar a ver?
- LEIA MAIS textos da coluna A Pessoa Idosa e a Cidade aqui
O post Os ‘velhos’ que a cidade não vê apareceu primeiro em Tribuna de Minas.







