
A ideia de plantar alimentos na Lua pode soar como ficção científica, porém, é uma possibilidade cada vez mais próxima de se tornar real e, inclusive, pode ser desenvolvida por cientistas brasileiros. Pesquisadores da Zona da Mata de Minas Gerais se debruçam sobre um dos principais desafios da nova corrida espacial: garantir comida para astronautas em missões longas e fora da Terra.
A iniciativa envolve os docentes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Marliane Soares da Silva, do Departamento de Microbiologia; Guilherme da Silva Pereira, do Departamento de Agronomia, e Juscimar da Silva, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e atualmente professor colaborador no Departamento de Solos; e a juiz-forana Jéssica Carneiro Oliveira, doutoranda na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
A UFV e a pesquisadora juiz-forana passaram a integrar o Space Farming Brazil, uma articulação nacional liderada pela Embrapa com apoio da Agência Espacial Brasileira. O grupo reúne cientistas de diferentes áreas para pensar soluções agrícolas adaptadas a condições extremas do espaço, como radiação intensa, baixa gravidade e ausência de solo fértil.
O programa trabalha tanto na perspectiva de produzir alimentos dentro das naves espaciais quanto em solo lunar. Porém, mais do que garantir a sobrevivência fora do planeta, a proposta também mira problemas bem terrestres. Tecnologias desenvolvidas para o espaço podem ser aplicadas em regiões afetadas por seca, degradação do solo e mudanças climáticas, por exemplo.
O tema da alimentação para astronautas em missões espaciais ganhou força após avanços recentes do programa Artemis, que tem como meta estabelecer presença humana duradoura no satélite natural e abrir caminho para futuras viagens a Marte. Com a ida de quatro astronautas ao redor da Lua por dez dias no mês de abril deste ano, produzir alimentos no espaço deixou de ser uma possibilidade distante e passou a ser uma necessidade estratégica.
Pesquisas buscam entender como cultivar na Lua
Na UFV, as pesquisas seguem caminhos distintos, porém complementares. Uma das frentes investiga o papel de microrganismos no solo. A ideia é entender como os fungos podem transformar ambientes pobres em nutrientes — semelhantes ao solo lunar — em áreas capazes de sustentar o crescimento de plantas. Os testes são realizados em regiões áridas do Brasil, usadas como modelo para simular as condições da Lua.
“Esses fungos podem modificar a microbiota do solo, introduzindo microrganismos capazes de melhorar sua qualidade”, explica Marliane. De acordo com a pesquisadora, os resultados, além de contribuírem para a agricultura espacial, podem beneficiar áreas de baixa fertilidade no território brasileiro.
Outra frente de pesquisa aposta na biotecnologia. O pesquisador Guilherme analisa como fatores extremos, como radiação cósmica e microgravidade, afetam o funcionamento das plantas em nível genético. A partir disso, o objetivo é tentar desenvolver espécies mais resistentes, tolerantes ao estresse e capazes de crescer, mesmo em ambientes hostis.

Também há estudos voltados ao cultivo sem solo. Um dos projetos em andamento, do pesquisador Juscimar, prevê a criação de sistemas de produção de hortaliças adaptados à microgravidade ou gravidade lunar, como a hidroponia — técnica que permite o crescimento das plantas em soluções nutritivas, sem o uso de solo.
Conforme a UFV, os trabalhos ainda dependem de financiamento para avançar. Mesmo assim, a iniciativa já coloca o Brasil em uma agenda científica global que conecta exploração espacial e segurança alimentar, com o objetivo de viabilizar a presença humana sustentável na Lua.
Juiz-forana desenvolve pesquisa sobre cultivo em solo lunar

A participação brasileira na corrida pela agricultura espacial também passa por Juiz de Fora. A bióloga Jéssica investiga como adaptar o regolito lunar (material que compõe o solo da Lua) para o cultivo de plantas, com foco no papel de microrganismos que podem atuar como bioestimulantes naturais. O trabalho inclui, ainda, o desenvolvimento de técnicas para análise genética em simulantes do solo da Lua, etapa fundamental para avançar na produção de alimentos fora da Terra.
A equipe encontrou dificuldade para extrair o DNA de microrganismos presentes em “solos artificiais” que reproduzem a superfície da Lua, o que dificultava os estudos. Para contornar essa barreira, o grupo desenvolveu um protocolo otimizado de extração de DNA a partir do simulante lunar LHS-1. Com o avanço, será possível identificar esses microrganismos e entender como eles podem ajudar plantas a crescer em condições extremas.
A pesquisadora destaca que o papel dos microrganismos é central nesse processo. “Microrganismos benéficos podem atuar como bioestimulantes naturais, ajudando a tornar o regolito mais propício ao crescimento vegetal, mesmo em condições extremas”, explica. Além do uso espacial, os resultados também podem contribuir para o avanço de técnicas para cultivo em solos pobres ou degradados na Terra.
Se os planos avançarem, o futuro da alimentação em missões espaciais pode ter participação direta da ciência produzida no país, mostrando que, antes de chegar a outros planetas, a agricultura pode precisar reinventar suas raízes.
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O post Da Zona da Mata à Lua: pesquisadores estudam como produzir alimentos no espaço apareceu primeiro em Tribuna de Minas.


A ideia de plantar alimentos na Lua pode soar como ficção científica, porém, é uma possibilidade cada vez mais próxima de se tornar real e, inclusive, pode ser desenvolvida por cientistas brasileiros. Pesquisadores da Zona da Mata de Minas Gerais se debruçam sobre um dos principais desafios da nova corrida espacial: garantir comida para astronautas em missões longas e fora da Terra.
A iniciativa envolve os docentes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Marliane Soares da Silva, do Departamento de Microbiologia; Guilherme da Silva Pereira, do Departamento de Agronomia, e Juscimar da Silva, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e atualmente professor colaborador no Departamento de Solos; e a juiz-forana Jéssica Carneiro Oliveira, doutoranda na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
A UFV e a pesquisadora juiz-forana passaram a integrar o Space Farming Brazil, uma articulação nacional liderada pela Embrapa com apoio da Agência Espacial Brasileira. O grupo reúne cientistas de diferentes áreas para pensar soluções agrícolas adaptadas a condições extremas do espaço, como radiação intensa, baixa gravidade e ausência de solo fértil.
O programa trabalha tanto na perspectiva de produzir alimentos dentro das naves espaciais quanto em solo lunar. Porém, mais do que garantir a sobrevivência fora do planeta, a proposta também mira problemas bem terrestres. Tecnologias desenvolvidas para o espaço podem ser aplicadas em regiões afetadas por seca, degradação do solo e mudanças climáticas, por exemplo.
O tema da alimentação para astronautas em missões espaciais ganhou força após avanços recentes do programa Artemis, que tem como meta estabelecer presença humana duradoura no satélite natural e abrir caminho para futuras viagens a Marte. Com a ida de quatro astronautas ao redor da Lua por dez dias no mês de abril deste ano, produzir alimentos no espaço deixou de ser uma possibilidade distante e passou a ser uma necessidade estratégica.
Pesquisas buscam entender como cultivar na Lua
Na UFV, as pesquisas seguem caminhos distintos, porém complementares. Uma das frentes investiga o papel de microrganismos no solo. A ideia é entender como os fungos podem transformar ambientes pobres em nutrientes — semelhantes ao solo lunar — em áreas capazes de sustentar o crescimento de plantas. Os testes são realizados em regiões áridas do Brasil, usadas como modelo para simular as condições da Lua.
“Esses fungos podem modificar a microbiota do solo, introduzindo microrganismos capazes de melhorar sua qualidade”, explica Marliane. De acordo com a pesquisadora, os resultados, além de contribuírem para a agricultura espacial, podem beneficiar áreas de baixa fertilidade no território brasileiro.
Outra frente de pesquisa aposta na biotecnologia. O pesquisador Guilherme analisa como fatores extremos, como radiação cósmica e microgravidade, afetam o funcionamento das plantas em nível genético. A partir disso, o objetivo é tentar desenvolver espécies mais resistentes, tolerantes ao estresse e capazes de crescer, mesmo em ambientes hostis.

Também há estudos voltados ao cultivo sem solo. Um dos projetos em andamento, do pesquisador Juscimar, prevê a criação de sistemas de produção de hortaliças adaptados à microgravidade ou gravidade lunar, como a hidroponia — técnica que permite o crescimento das plantas em soluções nutritivas, sem o uso de solo.
Conforme a UFV, os trabalhos ainda dependem de financiamento para avançar. Mesmo assim, a iniciativa já coloca o Brasil em uma agenda científica global que conecta exploração espacial e segurança alimentar, com o objetivo de viabilizar a presença humana sustentável na Lua.
Juiz-forana desenvolve pesquisa sobre cultivo em solo lunar

A participação brasileira na corrida pela agricultura espacial também passa por Juiz de Fora. A bióloga Jéssica investiga como adaptar o regolito lunar (material que compõe o solo da Lua) para o cultivo de plantas, com foco no papel de microrganismos que podem atuar como bioestimulantes naturais. O trabalho inclui, ainda, o desenvolvimento de técnicas para análise genética em simulantes do solo da Lua, etapa fundamental para avançar na produção de alimentos fora da Terra.
A equipe encontrou dificuldade para extrair o DNA de microrganismos presentes em “solos artificiais” que reproduzem a superfície da Lua, o que dificultava os estudos. Para contornar essa barreira, o grupo desenvolveu um protocolo otimizado de extração de DNA a partir do simulante lunar LHS-1. Com o avanço, será possível identificar esses microrganismos e entender como eles podem ajudar plantas a crescer em condições extremas.
A pesquisadora destaca que o papel dos microrganismos é central nesse processo. “Microrganismos benéficos podem atuar como bioestimulantes naturais, ajudando a tornar o regolito mais propício ao crescimento vegetal, mesmo em condições extremas”, explica. Além do uso espacial, os resultados também podem contribuir para o avanço de técnicas para cultivo em solos pobres ou degradados na Terra.
Se os planos avançarem, o futuro da alimentação em missões espaciais pode ter participação direta da ciência produzida no país, mostrando que, antes de chegar a outros planetas, a agricultura pode precisar reinventar suas raízes.
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